Discurso de Lula da Silva (excerto)

___diegophc
Mostrar mensagens com a etiqueta Linguística. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Linguística. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Mestre Alentejano - " Fado Corrido"


.
.
Ícone de canal
rvccgerinho




Letra de João Vasconcelos e Sá. [Popular]... Fado Corrido Repertório de António Pinto Basto.
.
.

Mestre alentejano

João Vasconcelos e Sá / Popular *fado corrido*
Repertório de António Pinto Basto
.
Terra de grandes barrigas / Onde ha tanta gente garda
Ás sopas chamam açorda / E à açorda chamam-lhe migas;
Ás razões chamam cantigas / Milhaduras são gorjetas
Maleitas dizem maletas / Em vez de encostas, chapadas
Em vez de açoites, nalgadas / E as bolotas são boletas
.
Terra mole é atasquero / Ir embora é abalar
Deitar fora é aventar / Fita de coiro é apero;
Vaso com planta é cravero / Carpinteiro é abegão
E a choupana é cabanão / E às hortas chamam hortejos
Os cestos são cabanejos / E ao trigo chama-se pão!
.
No resto de Portugal / Ninguém diz palavras tais
As terras baixas são vales / Monte de feno é frascal;
Vestir bem, parece mal / Á aveia chamam cevada
Ao bofetão, orelhada / Alcofa grande é gorpelha
Égua lazã é vermelha / Poldra ‘Isabel’ é melada
.
Quando um tipo está doente / Logo dizem que está morto
E a todo o vau chamam porto / Chamam gajo a toda a gente;
Vestir safões é corrente / Por acaso é por atrego
As saco chamam talego / E até nas classes mais ricas
Ser janota é ser maricas / Ser beirão é ser galego
.
Os porcos medem-se às varas / E o peixe vende-se aos quilos
E a gente pasma de ouvi-los / Usar maneiras tão raras;
Chamam relvas às cearas / Ás vezes, não sei porquê
E tratam por vomecê / Pessoas a quem venero
Não quero, diz-se nã quero / Eu não sei’ diz-se *ê nã sê*




sexta-feira, 3 de julho de 2009

Dom Félix de Guarania, um Dom Quixote do idioma guarani


“Para alguns, o guarani é um obstáculo. Atribui-se a ele o entorpecimento do mecanismo intelectual e a dificuldade que a massa parece sentir em adaptar-se aos métodos europeus de trabalho. O remédio se deduz óbvio: matar o guarani. Atacando a fala se espera modificar a inteligência. Ensinando uma gramática europeia ao povo se espera europeizá-lo". No início do século 20, o jornalista e escritor anarquista Rafael Barrett, espanhol que viveu no Paraguai nesta época, já percebia que no projeto de dominação do Paraguai constava a morte do idioma nativo.

.

Por Daniel Cassol, no Brasil de Fato


.

Porém, neste início de século 21, estima-se que mais de 90% da população paraguaia ainda fale o guarani “jopara”, mesclado com o espanhol. Idioma de resistência, o guarani permaneceu na cultura do país, ainda que presente apenas nas conversas de camponeses e trabalhadores da capital – o guarani ainda é uma língua dos paraguaios pobres.

.

Ainda relegado à sua marginalidade, porém, o guarani foi reconhecido como língua oficial do Paraguai em 1992. Agora em 2009, entrou para a lista de idiomas oficiais do Mercosul.

.

“Custou uma longa luta”, fala um dos principais protagonistas desta batalha pela conservação e difusão do idioma nativo. É Félix Giménez Gómez, de 84 anos, que na sua modesta casa em Lambaré, região metropolitana de Asunción, caminha em passos lentos apoiado pela filha, Mercedez. Mas poucos o conhecem pelo nome completo.

.

Bengala, longa barba branca, Dom Félix de Guarania, poeta e escritor paraguaio, é o Dom Quixote da cultura guarani. Um homem que desafiou o autoritarismo com a mesma perseverança com a qual hoje supera as limitações de seu corpo que dificultam seu trabalho. Militante comunista, foi perseguido e preso por três ditaduras, e na mais longa delas — a de Alfredo Stroessner — teve de viver 26 anos fora do seu país. Nunca deixou de trabalhar em suas poesias, novelas, ensino do idioma e traduções de clássicos da literatura para o guarani.

.

O seu mais recente trabalho demorou dois anos para ficar pronto: a tradução de Dom Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes. Segundo Dom Félix, o Museu Cervantino solicitou exemplares do livro — o guarani seria o único idioma para o qual Dom Quixote ainda não havia sido traduzido.

.

“Em guarani, há tudo. Não precisamos de outra língua”, afirma Dom Felix ao ser perguntado sobre como faz para traduzir palavras que não existem no idioma nativo. Defensor da autonomia do guarani, nas suas traduções ele busca sempre uma saída para não recorrer ao espanhol, e dessa posição intelectual critica a forma como historicamente se ensinou o guarani nas escolas paraguaias. “Improvisou-se o ensino, os professores não estavam bem preparados. Havia muita influência do espanhol, o que prejudicava”, diz.

.

Filho de camponeses pobres, nasceu no ano de 1924 em Paraguarai, interior do país. Teve de interromper seus estudos três vezes — em Medicina, Direito e Letras — por ser preso pelas ditaduras de turno, em razão de sua atuação política.

.

Exilado na União Soviética em 1968, Felix de Guarania traduziu Maiakovski para o guarani e ensinou o idioma para professores. Suas inúmeras traduções publicadas vão de Shakespeare a Martín Fierro, passando pelo hino da Internacional. Também é autor de poesias, novelas, teatros, dicionários. Nos próximos meses deve lançar um livro de contos para crianças, intitulado “Aprenda guarani lendo”.

.

Tanto trabalho tem uma explicação: Dom Felix acredita que a permanência e a difusão do guarani devem passar pela criação de uma tradição escrita desse idioma basicamente falado. “O escrito fixa a língua”, afirma.

.

Com os dedos retorcidos, de tanto utilizar a máquina de escrever em sua vida, Dom Felix também enxerga e escuta pouco. Por isso quase não acompanha o noticiário, além de não gostar dos jornais de hoje em dia, cheios de publicidade e que só falam em futebol. As limitações da idade o obrigaram a desenvolver um custoso método de trabalho, que consiste em ditar seus trabalhos para a filha Mercedez, sua assistente e divulgadora do seu trabalho. Foi assim, por exemplo, que Dom Felix traduziu o Dom Quixote.

.

Mas essa dificuldade particular parece não lhe incomodar. Os olhos de Dom Felix chegam a brilhar quando fala do guarani, que considera “o ponto de união de vários países da América do Sul”. Ao repórter brasileiro, fala das semelhanças entre o guarani paraguaio e o tupi-guarani. E se alegra ao traduzir nomes de cidades, rios e lugares brasileiros.

.

“O guarani se manteve forte no Paraguai porque se produziu a mestiçagem. Os filhos de espanhóis com mulheres indígenas ficavam com as mães. As crianças aprenderam primeiro o guarani”, explica Dom Felix, que também diz haver um preconceito histórico contra o idioma. “O guarani foi uma língua marginalizada. Mães e pais não queriam que seus filhos falassem, porque achavam que o guarani os rebaixava socialmente”, conta.

.

Lutador da palavra, Dom Felix não perde de vista a luta social. Tanto que em novembro de 2008 filiou-se ao Partido do Movimento ao Socialismo (P-MAS). “Sigo sempre na luta”, diz.

.

Incansável, trabalha em um projeto no mínimo ousado: um dicionário etimológico no qual pretende explicar a origem e o significado das palavras em guarani. O livro já está com cem páginas — e isso que Dom Felix acaba de terminar a letra “A”. O tempo, para o Dom Quixote guarani, parece ser mesmo uma mera convenção.

.

in Vermelho - 2 DE JULHO DE 2009 - 20h46

.

.

sábado, 2 de maio de 2009

Eduardo Galeano: a linguagem, as coisas e seus nomes

Na era vitoriana era proibido fazer menção às calças na presença de uma senhorita. Hoje em dia, não fica bem dizer certas coisas perante a opinião pública:

Por Eduardo Galeano, na Carta Maior
(Do livro De Pernas pro Ar, editora L&PM)



O capitalismo exibe o nome artístico de economia de mercado;

O imperialismo se chama globalização;

As vítimas do imperialismo se chamam países em via de desenvolvimento, que é como chamar de meninos aos anões;

O oportunismo se chama pragmatismo;

A traição se chama realismo;

Os pobres se chamam carentes, ou carenciados, ou pessoas de escassos recursos;

A expulsão dos meninos pobres do sistema educativo é conhecida pelo nome de deserção escolar;

O direito do patrão de despedir sem indenização nem explicação se chama flexibilização laboral;

A linguagem oficial reconhece os direitos das mulheres entre os direitos das minorias, como se a metade masculina da humanidade fosse a maioria;
em lugar de ditadura militar, se diz processo.

As torturas são chamadas de constrangimentos ilegais ou também pressões físicas e psicológicas;

Quando os ladrões são de boa família, não são ladrões, são cleoptomaníacos;

O saque dos fundos públicos pelos políticos corruptos atende ao nome de
enriquecimento ilícito;

Chamam-se acidentes os crimes cometidos pelos motoristas de automóveis;

Em vez de cego, se diz deficiente visual;

Um negro é um homem de cor;

Onde se diz longa e penosa enfermidade, deve-se ler câncer ou AIDS;

Mal súbito significa infarto;

Nunca se diz morte, mas desaparecimento físico;

Tampouco são mortos os seres humanos aniquilados nas operações militares: os mortos em batalha são baixas e os civis, que nada têm a ver com o peixe e sempre pagam o pato, danos colaterais;

Em 1995, quando das explosões nucleares da França no Pacífico Sul, o embaixador francês na Nova Zelândia declarou: “Não gosto da palavra bomba. Não são bombas. São artefatos que explodem”;

Chama-se Conviver alguns dos bandos assassinos da Colômbia, que agem sob proteção militar;

Dignidade era o nome de um dos campos de concentração da ditadura chilena e Liberdade o maior presídio da ditadura uruguaia;

Chama-se Paz e Justiça o grupo militar que, em 1997, matou pelas costas 45 camponeses, quase todos mulheres e crianças, que rezavam numa igreja do povoado de Acteal, em Chiapas.

.
in Vermelho - 2 DE MAIO DE 2009 - 18h55
-
-

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Crónicas do Novo Mundo - Santos Inocentes



* F. Falcão-Machado, Embaixador de Portugal no México
.
Na saudável alegria que é própria das festas natalícias arriscamo-nos, por vezes, a esquecer algumas outras comemorações que a tradição religiosa costuma associar à evocação do nascimento de Jesus Cristo. É o caso, designadamente, do chamado dia dos Santos Inocentes, que o ritual cristão celebra hoje, 28 de Dezembro.
.
Efectivamente, segundo o relato de Mateus – o único dos quatro evangelistas que menciona esse episódio – após o nascimento de Jesus, em Belém, teria ocorrido aí uma matança de crianças ordenada pelo rei Herodes, ‘o Grande’, com vista a eliminar o futuro ‘Rei dos Judeus’, também chamado o Messias, de cujo nascimento fora informado pelos reis Magos.

Como vem sendo regra nesta coluna, não nos iremos debruçar sobre as interpretações escolásticas que têm sido feitas daquele texto religioso.

Mas merece referência o facto de, com o andar dos tempos, se haver instalado em muitos países da América Latina e em certas regiões da Espanha o hábito de transformar o dia dos Santos Inocentes numa ocasião de brincadeiras.

Este tipo de divertimento é tecido à volta da ingenuidade alheia, num estilo semelhante ao das partidas que em muitos países europeus se prega no dia 1.º de Abril.

Obviamente que a utilização da data de 28 de Dezembro é apenas o pretexto para uma manifestação paralela de humor que não pretende ofender a seriedade da comemoração litúrgica nem as convicções de cada um.

Todavia, essas manifestações lúdicas não nos devem fazer olvidar outros ‘santos inocentes’ cujo drama é real e também é dos nossos dias. Penso sobretudo no caso dos meninos-soldados que ainda hoje são sacrificados em operações militares, no trabalho forçado a que estão obrigados jovens de tenra idade em muitos países, no cancro tão devastador quanto escondido que é a pedofilia.

Estas são de facto tristes realidades que, embora não sendo muito conhecidas no mundo ocidental, constituem uma verdadeira ameaça àquilo que de melhor as gerações do presente possuem para oferecer às gerações vindouras: a juventude.
.
in Correio da Manhã 2007.12.28
.
Quadro - Morte dos Santos Inocentes - Meister des Codex Egberti (Siglo X)
.
Foto -

Santos inocentes. Miembros de la Cruz Roja sostienen el cadáver cubierto de polvo de un niño fallecido en los bombardeos israelíes que costaron la vida a 57 civiles (37 niños).
.

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Crónicas do novo mundo - Uma herança a preservar


* F. Falcão-Machado,
Embaixador de Portugal no México

.
Foi aprovada há poucos dias pelo plenário da assembleia geral das Nações Unidas uma importante declaração sobre os direitos dos povos indígenas. De entre os vários aspectos contemplados nesse documento merece uma referência a questão das línguas autóctones desses povos.
.
Segundo dados recentemente divulgados pela ‘National Geographic Society’, são hoje reconhecidas no Mundo cerca de sete mil línguas. Grande parte delas – sobretudo na América Latina e na Austrália mas também na África – arrisca-se a cair em desuso. Por exemplo, existem 500 idiomas no Mundo que apenas são falados hoje por menos de dez pessoas. Outros idiomas, muito raros, resistem à divulgação em virtude de os seus cultores os utilizarem defensivamente, como uma linguagem secreta reservada apenas a iniciados – é o caso de muitas orações e receitas ligadas à ervanária e utilizadas por feiticeiros, cuja origem se perde na noite dos tempos. Em contrapartida, impuseram-se no Mundo contemporâneo 83 línguas com influência global que são faladas por cerca de 80% dos habitantes da área geográfica respectiva. Mesmo nas sociedades bilingues tem-se verificado um fenómeno semelhante àquele que sucede com a moeda: acaba sempre por se impor o idioma dominante nas relações económicas e nos meios de Comunicação Social, entendidos estes num sentido amplo que cobre toda uma realidade internacional hoje de acesso tão fácil graças aos progressos tecnológicos. Além disso, se o facto de grande parte dessas línguas indígenas não possuir uma forma de escrita contribuiu para o seu progressivo desaparecimento, também a própria dinâmica interior do universo dessas línguas acelerou de alguma maneira esse mesmo processo. A História mostra-nos, com efeito, que certos idiomas dominantes foram aniquilando outros idiomas falados pelos povos dominados.
.
Ora a questão que se nos põe é a de saber se deveremos ficar indiferentes ao desaparecimento desse segmento do património cultural da Humanidade. A declaração sobre os direitos dos povos indígenas mostra-nos o caminho a seguir.
.
in Correio da Manhã 2007.10.06
.
Clicar no mapa para aumentar

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Crónicas do novo mundo - Línguas autóctones

.
* F. Falcão Machado
Embaixador de Portugal no México
.
Tem estado patente no Museu Nacional de História – instalado no Castelo de Chapultepec, na Cidade do México – uma interessante exposição intitulada ‘Paradigmas da Palavra’. Trata-se de uma mostra sobre o trabalho de investigação e recolha de elementos relativos às línguas indígenas levado a cabo pelos missionários espanhóis durante o período colonial, como esclarece o próprio subtítulo da exposição: ‘Gramáticas indígenas de los siglos XVI, VII y XVIII’.
.
É sabido o empenho que os colonizadores, mormente através das instituições religiosas, tiveram em estudar os idiomas dos povos que encontravam a fim de se fazerem entender e, simultaneamente, propagar a Fé crista. A exposição em apreço – que infelizmente não mereceu a edição de um catálogo – demonstra esse esforço. Vale acrescentar que hoje em dia o conhecimento de uma língua não se reduz ao domínio da sua gramática e do seu léxico. A moderna ciência da semiótica, por exemplo, veio dar um contributo importante para a análise das línguas, permitindo penetrar profundamente na simbologia e no imaginário das culturas subjacentes.
.
Muitos foram os falares que os colonizadores vieram encontrar na região que então baptizaram de ‘Nova Espanha’. Os mais importantes na época eram o Maya e o Náhuatl, que ainda hoje se utilizam no México profundo e que estão bem documentados na mostra em referência. A este propósito, é justo recordar igualmente o trabalho que os portugueses desenvolveram no Brasil tendo em vista o conhecimento e a conservação dos idiomas autóctones. Ao chegarem às costas brasileiras, a língua aí encontrada foi o Tupi, que logo começou a ser estudada sobretudo pelos jesuítas. E em 1595 o Padre José de Anchieta publicaria a sua famosa ‘Gramática da Língua mais usada na Costa do Brasil’. Foram descobertos depois outros idiomas importantes, designadamente o Tupinambá, da região amazónica, que viria a transformar-se na segunda ‘língua geral’ do Brasil, o Nheengatu.
.
in Correio da Manhã 2007.09.01