Discurso de Lula da Silva (excerto)

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quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Richard Stallman: "Não se pode confiar num programa de software que não seja livre"



Richard Stallman em Braga
Richard Stallman em Braga (Paulo Pimenta)



Entrevista ao presidente da Fundação para o Software Livre

29.02.2012 - 09:56 Por João Pedro Pereira


Richard Stallman, um americano de 58 anos, é, provavelmente, o mais acérrimo defensor da ideia de que software que não seja livre (de forma simplificada, que não possa ser partilhado, analisado e modificado) é simplesmente imoral. Tem ideias semelhantes para todo o tipo de criações, da música ao cinema.


No início da década de 1970, tornou-se investigador no laboratório de inteligência artificial do MIT, onde acabou por tornar-se numa espécie de fenómeno de culto dentro da subcultura hacker. É hoje presidente da Fundação para o Software Livre.


Stallman esteve na Universidade do Minho, em Braga, para uma palestra sobre direitos de autor, que durou mais de duas horas num auditório repleto. A excentricidade por que é conhecido sentiu-se em Portugal. Segundo narra quem o recebeu, é o tipo de pessoa que pode pedir a alguém que lhe segure na bagagem, mas que se irrita se de facto a transportam, porque o objectivo era apenas que a segurassem. Acabou o discurso a leiloar uma mascote de peluche pela plateia (conseguiu 65 euros).



No final da palestra, disse ter pouco tempo para as (previamente agendadas) entrevistas. O tempo, afinal, acabou por sobrar: Stallman pôs fim à conversa, já que as questões não iam ao encontro do que defende: “Por favor, não me diga coisas para que eu as discuta”.



Como se sentiu quando o software começou a adoptar um modelo proprietário?

Foi nos anos 70 que o software se tornou proprietário. Em muitos sítios, mas não onde eu estava. Eu estava a trabalhar no laboratório de Inteligência artificial do MIT, que era uma espécie de refúgio do software livre. Por isso, eu vi software proprietário, mas nós não o tínhamos. Aí, comecei a apreciar a liberdade que se consegue a partir do software livre. Mas essa comunidade morreu em 1981/82. E isso foi o que me levou a pensar seriamente no assunto e encará-lo como importante. Porque vi que software proprietário seria o meu futuro, se não fizesse nada.



Nesses anos, sentia-se...

Senti-me enojado.



Ainda se sente assim?

Sim. Ouviu sobre a história das drivers [software essencial ao uso] para a impressora? Pedi a alguém que partilhasse o código-fonte comigo, o que era a prática normal na nossa comunidade, e ele disse que tinha prometido que não o partilhava comigo. De facto, ele tinha traído os colegas. Não era só eu, era todo o laboratório que teria benefícios. Mas ele não nos tinha traído só a nós. Tinha prometido não partilhar o código com ninguém. Por isso, tinha traído o mundo inteiro.



Quando o software proprietário se tornou um modelo negócio estabelecido, pode-se argumentar que isso ajudou a criar mais e melhor software.

Não faz diferença. De que vale ter software tecnicamente melhor, se não respeita a liberdade? A conclusão a que cheguei é que não quero nenhum desse software. Não interessa o quão bom é tecnicamente... Ele muda e eu não quero essas mudanças em mim.



Às vezes abdica-se de liberdades para ter benefícios...

Não abdico dessa liberdade por nenhum benefício. Não vou usar um programa que não seja livre e nem sequer se pode confiar num programa que não seja livre.



Porque não se pode confiar?

Porque eles estão cheios de funcionalidades maliciosas. Fiz uma lista dos programas não livres mais usados. Quase todos os utilizadores de computador estão a usar alguns desses programas, que se sabe que são maliciosos. O que é que isto diz? Diz que quando o programador tem poder sobre os utilizadores, vai abusar desse poder. Não se pode confiar num programa que não seja livre. Mais precisamente, um programa que não inclui a “liberdade 1” [na lista de liberdades de Stallman, que não pode ser estudado e modificado] é potencialmente malicioso. E, nos casos mais comuns, sabe-se que é mesmo malicioso. Por isso, é-se idiota se se aceita software proprietário por causa das funcionalidades . As funcionalidades não podem justificar o modelo de distribuição sem ética.



Defende que é melhor não fazer software nenhum, do que criar software proprietário. Uma vez, numa entrevista, disse que, em vez de criar software proprietário, se poderia esperar até que alguém criasse software que fosse livre e que fizesse o mesmo. Não há o risco de se esperar demasiado para...

Não, não de todo. Eu prefiro esperar 50 anos


.Mas vai-se perder algo no processo de espera.

Não. Estaria a perder coisas pouco importantes e a manter a minha liberdade. Nessa pergunta, está implícita uma definição de valores e é aí que eu discordo. Essa pergunta é na verdade um argumento a dizer que devemos valorizar mais a conveniência do que a liberdade. Se é esse o caso, tem o direito a pensar isso, mas então porque estamos a falar? Qual é o objectivo da nossa conversa? Se esses são os valores, não há conversação possível.


É sempre possível confrontar valores.

Não quero ter uma conversa com alguém que tem valores diferentes dos meus. Porque as conclusões vão ser diferentes e não há nada para ser dito.



Não considera a hipótese de uma confrontação de valores produzir mudança numa das partes?

Não estou interessado.



Não estou a dizer que vai mudar. Pode conseguir mudar a outra parte.

Não creio que esta entrevista vá ajudar a fazer isso. Tenho o pressentimento de que se opõe àquilo que defendo e acho que vou parar isto.



Estou a confrontá-lo com visões...

Por favor, não me diga coisas para que eu as discuta.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Morreu Cesária Évora, a diva que levou Cabo Verde ao mundo



 

Cantora cabo-verdiana nasceu em 1941
Cantora cabo-verdiana nasceu em 1941 (Daniel Rocha)


17.12.2011 - 13:53 Por Rita Siza, João Pedro Pereira


Cesária Évora morreu neste sábado aos 70 anos, num hospital na ilha de São Vicente, na sequência de complicações cardíaco-respiratórias. A cantora cabo-verdiana é lembrada como a diva que levou a música de Cabo Verde para o mundo.

“Cabo Verde fica mais pobre, da mesma forma que ficou mais rico quando ela nasceu, porque nasceu uma estrela que não se apagará, ficará sempre acesa, a brilhar através da sua música”, afirmou o músico cabo-verdiano Tito Paris.

Ao PÚBLICO, Tito Paris lamentou ainda que “muitos [cabo-verdianos] não têm noção do que ela ofereceu” àquele país. “A Cesária levou-nos de uma parte do mundo para a outra, levou o nome de Cabo Verde por todo o mundo e quando ela estava em palco, todo o cabo-verdiano estava lá com ela. Ela levou a morna, e o sorriso, e o calor do Mindelo”.

A cantora, que nasceu em 1941, começou muito jovem a cantar em bares e hotéis, mas só em 1988, com 47 anos, gravou, em Paris, o aclamado álbum “La diva aux pied nus” – “a diva dos pés descalços ”, epíteto com que é frequentemente referida na imprensa. 

Poucos anos antes, gravara já um álbum em Lisboa, mas o trabalho acabou por passar despercebido. Numa entrevista ao PÚBLICO, em 1999, Cesária mostrava algum ressentimento por isso. "[Portugal é] um grande país, tenho muitos fãs aqui, mas eu devia ter sido reconhecida aqui primeiro. Eu até ia cantar nos navios de guerra, desde o tempo colonial", disse. "Quem me ajudou foram os franceses, nem os portugueses, nem os cabo-verdianos". 

Nos anos que se seguiram a “La diva aux pied nus”, Cesária Évora tornou-se numa estrela no panorama mundial da world music. Em 2009, o presidente francês, Nicolas Sarkozy, atribuiu-lhe a medalha da Legião de Honra.

Foi “uma das vozes mais expressivas e originais da música mundial”, classificou esta tarde o secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, numa nota de condolências. “A qualidade da sua voz era de alcance universal, e o reconhecimento internacional que obteve comprovou isso mesmo”. Um comunicado do Presidente da República, Cavaco Silva, descreve-a como uma “artista singular, que tão bem soube exprimir a cultura e a tradição musical da sua terra, muito para além das fronteiras da língua portuguesa".

O ministro da Cultura de Cabo Verde, Mário Lúcio Sousa, considera que "Cabo Verde perdeu uma das suas principais vozes". E acrescentou: "O legado que nos deixou certamente que suplantará a dor. A Cesária tinha uma alma que nos representava a todos. Era uma espécie de anjo da guarda de toda a gente". O Governo de Cabo Verde decretou dois dias de luto oficial.

A Assembleia Nacional cabo-verdiana também já expressou as condolências: “A diva dos pés nus morreu, mergulhando o país numa profunda dor, pois a perda é irreparável. Cabo Verde fica mais pobre com o desaparecimento físico da Cize, como ela era carinhosamente conhecida pelos cabo-verdianos”, afirmou o presidente da assembleia, Basílio Mosso Ramos, citado pelos media locais.

Cesária Évora morreu às 11h20, no Hospital Baptista de Sousa, na ilha de São Vicente, na sequência de complicações cardíaco-respiratórias. Em 2008, sofrera um acidente vascular-cerebral (AVC), que a afastou temporariamente dos palcos. Regressou pouco depois, com um ritmo menor de concertos. "Canto mais um tempo e depois stop!", disse ao PÚBLICO em 2009.

Em Setembro passado, anunciou o fim da carreira, por motivos de saúde.

“É uma notícia triste, embora esperada”, afirmou ao PÚBLICO o escritor José Eduardo Agualusa. “A Cesária já não estava bem há algum tempo, mas quando a notícia chega nunca estamos preparados. O extraordinário sucesso internacional da Cesária mudou por completo a forma como a música cabo-verdiana passou a ser acolhida no mundo e, dessa forma, mudou a própria música cabo-verdiana”.

Também a cantora portuguesa Lura, de ascendência cabo-verdiana, afirma que Cesária Évora “levou Cabo verde ao mundo, ao universo inteiro”. 

“Todos falam sobre esta perda irreparável, mas nem consigo pensar nisso”, disse ainda ao PÚBLICO o actor cabo-verdiano Flávio Hamilton. “Só consigo pensar numa enorme tristeza. Para mim a Cesária sempre foi o mundo”. Com LusaNotícia substituída às 18h44

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Comissão de protecção de dados proíbe Google de fotografar ruas portuguesas

04.08.2010 - 17:16 Por João Pedro Pereira
A Comissão Nacional para a Protecção de Dados (CNPD) não autoriza que os carros da Google voltem a tirar fotografias para o serviço Street View, argumentando que nunca estiveram cumpridos os requisitos legais para que as fotos fossem colocadas na Internet.
Uma imagem de Lisboa no Street View  
Uma imagem de Lisboa no Street View ()



A multinacional anunciou esta semana que a frota de carros equipados com uma câmara no tejadilho voltaria às ruas, depois de ter estado parada em vários países, na sequência de uma falha de privacidade descoberta na Alemanha. A falha, que a empresa qualificou como acidental, fazia com que os carros recolhessem dados das redes de Internet sem fios por onde passavam.

Na semana passada, ainda antes de tornar público que voltaria a fotografar as ruas, a Google enviou um e-mail à CNPD a comunicar a intenção de capturar imagens de mais locais em Portugal (actualmente, há sobretudo imagens das regiões de Lisboa e do Porto).

A comissão respondeu com uma carta – dirigida à Google espanhola (que gere as relações com Governos na Península Ibérica e com quem a autoridade nacional tem tido conversas), à Google Portugal e à sede nos EUA – a informar que não estavam cumpridos os requisitos legais para que os carros voltassem à actividade.

A actual proibição não está relacionada com a falha detectada na Alemanha (uma situação que a CNPD diz estar ainda a investigar), mas com o facto de alguns rostos e matrículas serem reconhecíveis e com a falta de autorização formal.

A Google, explica a porta-voz da comissão, Clara Guerra, nunca cumpriu os requisitos formais para fotografar as ruas de cidades. Embora tenha havido reuniões entre a comissão e a empresa mais de um ano antes de o serviço ser lançado em Portugal (no Verão do ano passado), a Google deveria ter feito o pedido formal para a recolha de dados pessoais e aguardado autorização da comissão – o que nunca aconteceu, sublinha Clara Guerra. "Não basta enviar um e-mail".

Em comunicado, a Google Portugal garantiu que "notificou as autoridades portuguesas relevantes que iria regressar a Portugal e continuar a recolher imagens e por isso existe conhecimento do trabalho que a Google está realizar".

A mensagem acrescenta que "o Street View é legal em Portugal" e que a empresa vai "continuar a responder a todas as questões que as autoridades possam ter".

Em finais do ano passado, a CNPD chegou a recomendar à empresa que suspendesse o serviço, até estarem satisfeitos os requisitos legais. Mas a Google não acedeu ao pedido.

A grande exigência da comissão é que todos os rostos e matrículas não possam ser identificados. No comunicado de hoje, a Google reconhece que o sistema "pode falhar, ocasionalmente, nalgum rosto ou matrícula automóvel", mas defende que "a tecnologia utilizada desfoca a maioria das imagens e revela-se uma ferramenta eficaz".

Para a CNDP, contudo, o Street View levanta outros problemas. Um deles é o tempo que as imagens originais (onde todos os rostos e matrículas são visíveis) são armazenadas pela empresa. Outro é o facto de a altura das câmaras fazer com que algumas fotografias mostrem alguns espaços privados, como jardins de casa que estão cercados por muros mais baixos (um factor que levou a que, no Japão, a empresa fosse obrigada a voltar a fotografar com câmaras mais baixas).

“Eles dizem que só se vê [no Street View] o que uma pessoa vê da rua. Mas isso não é verdade”, observa Clara Guerra, chamando ainda a atenção para a possibilidade de ampliar as imagens, revelando pormenores que não seriam visíveis a olho nu por um transeunte.

Para resolver algumas destas situações, o Street View integra um sistema que permite a qualquer pessoa queixar-se de uma imagem. Recebida uma queixa, a empresa faz uma avaliação e poderá retirar a fotografia. Mas isso não é atenuante, diz Clara Guerra, argumentando que quando uma fotografia é colocada na Internet pode ser facilmente reproduzida e colocada noutro lado, antes de ser retirada do Street View.

Redes sem fios

A frota de carros da Google tem estado parada desde Maio, quando as autoridades alemãs (que não autorizam o funcionamento do Street View) descobriram que o equipamento tinha software que recolhia dados que circulavam nas redes sem fios que estivessem desprotegidas.A multinacional disse que se tratava de uma falha, e que o software responsável pela captura dessa informação tinha sido integrado acidentalmente no equipamento dos carros.

O Street View tem, de resto, suscitado reservas em muitos países.

Na Grécia, por exemplo, o serviço também não é permitido. E, em Abril, dez países (entre os quais não estava Portugal) escreveram uma carta à Google, onde mostravam preocupações com a privacidade. Recentemente, porém, a autoridade de protecção de dados do Reino Unido, um dos signatários, deu luz verde à empresa.

Notícia actualizada às 19h32
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domingo, 11 de julho de 2010

A Internet deixa-nos mais inteligentes

Entrevista Don Tapscott

07.07.2010 - 09:10 Por João Pedro Pereira

Don Tapscott conduziu um projecto de investigação com um orçamento de quatro milhões de dólares e que envolveu 11 mil jovens em vários países. Os resultados contrariam muitas das críticas comuns ao impacto das novas tecnologias.
Foi há um ano que Don Tapscott sugeriu a Barack Obama que 
distribuísse computadores aos alunos 
Foi há um ano que Don Tapscott sugeriu a Barack Obama que distribuísse computadores aos alunos (Daniel Rocha)


Investigador, professor universitário, consultor e autor de vários livros, Don Tapscott, um canadiano nascido em 1947, lançou, em 1997, o livro “Growing Up Digital - The Rise of the Net Generation”.

Mais de uma década depois, e tendo por base um projecto de investigação milionário, voltou ao tema e publicou, em 2008, “Grown Up Digital: How the Net Generation is Changing Your World” (pelo meio, escreveu outros quatro livros sobre o impacto das tecnologias, incluindo, em co-autoria, o best-seller Wikinomics).

Tapscott - que há um ano sugeriu a Barack Obama que pusesse os olhos na iniciativa portuguesa de distribuir computadores aos alunos - esteve em Portugal para a conferência A Escola do Futuro na Era da Economia Digital (organização Diário Económico). Depois da extensa investigação, Tapscott chegou à conclusão de que a maioria das críticas às novas tecnologias é infundada. Mas defende serem precisas muitas mudanças para se aproveitar o potencial da geração que já cresceu online.

Há muita gente a defender que as novas tecnologias estão a criar cérebros preguiçosos, a diminuir a capacidade de atenção e de sociabilização. Há até quem tenha escrito que o Google nos está a tornar estúpidos. A sua posição é que todas estas afirmações são erradas?

Acredito que boa parte do impacto da revolução digital na forma como pensamos, colaboramos e trabalhamos ainda é desconhecido. Mas não concordo, em geral, com quem diz isso. Os dados simplesmente não sustentam essas afirmações. Os jovens são mais espertos do que nunca, o QI está ao nível mais alto de sempre, há mais estudantes a licenciarem-se. Sou contra os argumentos de que os jovens só pensam em 140 caracteres [o limite de caracteres para as mensagens no Twitter] ou têm o nível de atenção de uma mosca.

Mas há um problema. Um terço desta geração é espectacular. Outro terço está a safar-se bastante bem. Mas os que estão em baixo, mesmo em países como os EUA, Canadá ou Portugal, nem sequer estão a acabar o liceu. Sempre foi assim, mas não devia ser. Devíamos ter melhorias nesse último terço, mas isso não está a acontecer. Algumas pessoas culpam a Internet. Mas isso é como culpar a biblioteca pela ignorância dos alunos.

Na sua pesquisa não encontrou nenhuma consequência negativa do uso das tecnologias?

Há todo o tipo de problemas. Os jovens precisam de equilíbrio e às vezes perdem-no. A minha mulher é portuguesa e está a visitar família aqui. Um dos miúdos joga videojogos 40 horas por semana. É demasiado. A privacidade também é outro problema. Os jovens expõem demasiada informação.

E isso é um problema ou é simplesmente uma questão de divisão geracional sobre o que é a privacidade?

Há muitas pessoas que não vão conseguir o emprego dos seus sonhos porque alguém os pesquisou e os viu bêbados [numa foto] no Facebook, ou a dizer algo que não deviam.

Cada um de nós está a criar uma versão virtual de si próprio. E este eu virtual sabe mais sobre nós do que nós próprios, porque nós não nos lembramos do que dissemos há anos. Isto cria uma situação em que a informação pode ser usada contra a pessoa, nomeadamente pelo Estado. Nós não temos problemas, porque temos governos democráticos. Mas ainda sou do tempo em que não havia um governo democrático em Portugal.

Os jovens não estão cientes desses riscos ou simplesmente não querem saber?

A minha pesquisa diz-me que os jovens estão a disponibilizar mais informações do que os mais velhos. Mas um estudo recente do PEW [um centro de investigação e think tank americano] disse que os jovens tinham mais conhecimento sobre os problemas da privacidade do que os mais velhos. Simplesmente porque cresceram a fazer isto. A geração da minha filha (ela está na casa dos 20) tem regras claras sobre que fotos podem ser postas no Facebook. Se numa festa alguém tira uma foto, essa pessoa não a pode pôr no Facebook sem autorização.

Defende que já não há um grande fosso entre gerações. Porquê?

Nos anos 1960 havia um fosso geracional. Havia grandes diferenças entre os estilos de vida, valores, música e ideias dos filhos e dos pais. Mas nós entrevistámos 11 mil jovens em dez países e hoje em dia os pais e os filhos dão-se bem. Quando se pergunta a um adolescente quem é o seu herói, mais de metade escolhe um dos pais. Nos anos 60 seria o John Lennon ou o Che Guevara. O meu iPod e o iPod dos meus filhos têm muitas canções em comum. Já os meus pais nem sequer gostavam dos Beatles.

Mas há potencial para um conflito de gerações. Há potencial para que uma geração expluda de uma forma que fará com que os anos 60 pareçam um piquenique. Já é possível ver isso em alguns países, como o Irão [um dos países mais jovens do mundo, onde mais de dois terços da população tem menos de 30 anos].

Mas o Irão não é um país democrático. Que razões terá esta geração para explodir nos países democráticos?

Que tal 40 por cento de desemprego em Espanha? [O desemprego] é um grande problema. É a geração mais esperta de sempre, é globalizada, tem ferramentas fabulosas. Se não tiver como ganhar a vida, vai começar a questionar o funcionamento da sociedade. E isso é um conflito de gerações.

Um dos seus elogios aos jovens tem a ver com a existência de valores fortes, nomeadamente políticos. Mas os jovens parecem alheados da política, nem sequer estão a votar muito.

O voluntariado de jovens, tanto do liceu como de universitários, está, em muitos países, num nível recorde. Desde angariar dinheiro para a luta contra o cancro, até voluntariado em partidos políticos, passando por manifestações em favor dos direitos humanos na China. Mas esse é um bom ponto: os dados mostram que os jovens estão a votar menos. Excepto nos EUA. A diferença é que os EUA tiveram um candidato que se dirigiu aos jovens [Barack Obama].

Isso foi por causa das ideias ou pelo facto de Obama ter usado todo o tipo de ferramentas on-line, desde o Twitter ao Facebook?

Ambos. Uma das razões pelas quais os jovens não estão envolvidos nas instituições democráticas é o facto de os modelos estarem errados. Temos um modelo de democracia com 100 anos: "Eu sou um político. Ouçam-me. Votem em mim. E depois vou dirigir-me durante quatro anos a receptores passivos." O cidadão vota, o político governa. Isso está bem para a minha geração. Eu cresci a ser um receptor passivo. Cresci a ver televisão 24 horas por semana, como todos os baby boomers. As escolas transmitiam-me informações e eu era um receptor passivo. Ia à igreja, onde era a mesma coisa. Cresci num modelo de família onde a comunicação funcionava só num sentido [dos pais para os filhos]. Mas estes jovens estão a crescer de forma interactiva, habituados a colaborar e a serem activos.

Muitas das instituições, como a escola e a igreja, ainda têm um modelo de comunicação unidireccional.

Isso está a mudar. Lentamente. Estamos aqui por causa desta iniciativa do e-escola. Isto não é uma questão tecnológica. Algumas pessoas pensam que sim, mas estão enganadas. É uma questão de mudar o modelo de pedagogia, afastá-lo do modelo de transmissão unidireccional. Todas as instituições precisam de mudar: a democracia, a aprendizagem nas escolas, os modelos de trabalho.

Acha que esta mudança vai acontecer quando esta geração for mais velha e estiver em posição de poder ou acontecerá antes disso?

Já há tensão. Há uma barreira geracional em muitas instituições. Por exemplo, nos locais de trabalho. Quando os jovens chegam ao mercado de trabalho, têm na mão ferramentas melhores do que as que existem nos governos e nas empresas. Têm toda uma cultura de colaboração. E nós o que fazemos? Fechamo-los em cubículos e tratamo-los como o Dilbert [o personagem criado pelo cartoonista Scott Adams]. Banimos as ferramentas que têm. Há empresas que proíbem o Facebook.

Não há o risco de desperdiçarem tempo com essas ferramentas?

O tempo que os jovens passam online não é roubado ao tempo que passam com os amigos, ou em que estão a fazer os trabalhos de casa ou a trabalhar no emprego. É roubado, sobretudo, à televisão. É isso que os dados mostram. Há quem diga que os jovens ainda vêem demasiada televisão. Mas estão a ver menos e estão a ver de forma diferente. Têm o computador ligado e a televisão é música ambiente, ao fundo. Há quem confunda o monitor da televisão com o monitor do computador. Mas têm efeitos opostos em termos de desenvolvimento do cérebro.

Se os jovens estão no local de trabalho a desperdiçar tempo no Facebook, isso não é um problema de tecnologia. É um problema de fluxos de trabalho, motivação, supervisão. A minha geração não entende a cultura de colaboração, não entende as novas ferramentas e não entende a nova geração. Os blogues, redes sociais, wikis são o novo sistema operativo das empresas.

Apesar de tudo isso, quem cria e determina o funcionamento de muitas das novas ferramentas são pessoas que estão na casa dos 50 anos e não na casa dos 20.

Isso é irrelevante. Não quero saber quem faz as ferramentas. Estamos a falar da primeira geração de nativos digitais. O Steve Jobs [da Apple] e o Michael Dell [fundador da empresa de computadores Dell] já usavam tecnologia quando eram adolescentes, por isso, de certo modo, estavam à frente. Eu comecei a usar computadores quando tinha 25 anos. O período crítico é dos 8 aos 18. E a forma como se passa o tempo nessa idade é, a seguir aos genes, a variável mais importante a determinar o funcionamento do cérebro. Quem passa 24 horas por semana a ser um receptor passivo de televisão tem um determinado tipo de cérebro. Quem passa esse tempo a ser um utilizador activo de informação, tem outro tipo de cérebro, que é um cérebro melhor, mais apropriado ao século XXI.
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quarta-feira, 28 de abril de 2010

A disquete está mais perto do fim

Público - 26.04.2010 - 16:58 Por João Pedro Pereira

A Sony vai deixar de vender disquetes no Japão, um dos poucos países onde ainda comercializa o arcaico dispositivo. A notícia não surpreende. Surpresa é que a Sony tenha vendido 12 milhões de disquetes no mercado nipónico ao longo do ano passado.
Disquetes com 1,44 Mb de capacidade de armazenamento 
Disquetes com 1,44 Mb de capacidade de armazenamento (João Gaspar)

Quem começou a usar computadores há menos de uma década (nos países desenvolvidos, pelo menos, onde os computadores tendem a ser mais recentes) é provável que nunca tenha precisado de usar uma disquete, o pequeno dispositivo quadrangular, capaz de armazenar 1,44 megabytes (MB) de dados – as pendrives modernas, por exemplo, ultrapassam facilmente o 1GB de capacidade (o equivalente a mais de 700 disquetes).

A Sony deixou em Março de comercializar disquetes na maioria dos países. Sobrava o Japão (onde a nipónica tinha 70 por cento do já magro mercado) e alguns mercados de nicho – essencialmente, países em desenvolvimento, onde muitas pessoas ainda usam modelos antigos de computadores.

No Japão, as disquetes eram procuradas sobretudo por instituições com computadores já ultrapassados. O dispositivo ainda vai continuar a ser produzido até Março do próximo ano.

Morte anunciada

O princípio do fim das disquetes deu-se pelo final da década de 1990. Em 1998, a Apple, que tinha sido uma das impulsionadoras do formato, foi alvo de algumas críticas ao apresentar computador sem leitor de disquetes (quem quisesse, podia usar um leitor externo, ligado ao computador através de um cabo USB). A maior parte fabricantes dos seguiu-lhe as pisadas e já há algum tempo que os computadores deixaram de ler disquetes.

O modelo mais comum de disquete é o de 3,5 polegadas (cerca de 90 milímetros). Mas existiram outros modelos, maiores e mais pequenos e com diversas capacidades de armazenamento. A Sony foi uma das pioneiras do formato, no início da década de 1980, a par de outros pesos-pesados da indústria, como a IBM e a HP.

Durante anos, foi a forma mais frequente para transporte de informação digital: cabia no bolso (embora essa fosse uma prática que facilmente causava estragos) e servia perfeitamente para a maioria das necessidades dos utilizadores. Na altura, uma disquete podia transportar um jogo de computador inteiro ou até um sistema operativo – o Windows 95, da Microsoft, ainda foi distribuído em disquetes, embora a versão mais comum fosse em CD.

O aparecimento dos CD foi um dos factores a ajudar à queda das disquetes. Contudo, e durante vários anos, estes suportes co-existiram, dado que os CD apresentavam alguns inconvenientes, como o preço, e, no caso dos CD não regraváveis, o facto de não puderem ser reutilizados. Embora tivessem mais capacidade, eram também maiores e mais dificilmente transportáveis, e riscavam-se com facilidade, ao passo que uma disquete podia ser pousada despreocupadamente em cima de qualquer secretária.

Com o aparecimento de cartões de memória e das populares pendrives, a disquete acabou por se tornar obsoleta. 
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