Discurso de Lula da Silva (excerto)

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quarta-feira, 29 de maio de 2013

A evolução natural na cozinha


COPY&PASTE

QUARTA-FEIRA, 5 DE DEZEMBRO DE 2012


A evolução natural na cozinha


por Thaís Serafini designer de produto e editora de conteúdo para a web, apaixonada por leituras, pesquisa e reflexões sobre design no cenário atual e em suas direções para o futuro. Tudo isso e mais algumas divagações estão disponíveis em seu blog Cataclisma Material.


Os armários e as gavetas da cozinha compõem um prato cheio para designers e apaixonados pelo assunto. Utensílios novos convivem com antigos, materiais diversos se misturam e funcionalidade quase sempre é a palavra de ordem. Como vocês já devem ter percebido nos meus posts por aqui, eu mesma adoro falar de objetos de cozinha, e por isso também achei super interessante o artigo da Época que compartilho.

O texto fala do Consider the fork, um livro recém-lançado nos Estados Unidos que trata da origem e do destino dos utensílios culinários desde a pré-história até os dias de hoje. Bee Wilson, uma historiadora de gastronomia, reúne muitos exemplos de objectos conhecidos e desconhecidos, antigos e novos, para comparar a evolução dos utensílios da cozinha com a evolução das espécies através da seleção natural. 





E, para finalizar, além dos gráficos interessantes acima, uma curiosidade: você sabe qual o utensílio de cozinha mais antigo que se tem registro - criado há cerca de 2 milhões de anos, antes mesmo da invenção do fogo? Talvez seja óbvio e mesmo surpreendente, mas estamos falando da faca! 

Imagens via

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Bee Wilson desvenda «A História da Invenção na Cozinha»







03-05-2013 às 13:16
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Bee Wilson desvenda «A História da Invenção na Cozinha»


Origem e evolução dos utensílios, a sua influência na textura, sabor e valor nutricional dos alimentos são o que oferece o livro «A História da Invenção na Cozinha», de Bee Wilson, editado pela Temas & Debates.

«Uma  colher  de  pau  – o  mais  fiel  e  adorável  dos  utensílios  de cozinha – parece ser o oposto da «tecnologia», na aceção mais geral desta palavra. Mas observemos  com atenção uma colher de  pau.  É  oval  ou  redonda?  Côncava  ou  rasa?  Talvez  o  cabo seja  muito   comprido,  para   que   a   nossa  mão   fique   mais protegida   de   uma   caçarola   quente?   Talvez   tenha   uma extremidade  bicuda  num  dos  lados,  para  chegar  aos  cantos  de uma caçarola?
Foram  precisas  inúmeras  invenções,  grandes  e  pequenas,  para chegar às bem equipadas cozinhas de que dispomos agora, onde a nossa amiga colher de pau de baixa tecnologia ombreia com misturadoras,  frigoríficos  e  micro-ondas.  Mas  a  história  da invenção humana na cozinha é quase desconhecida. Nesta obra conta-se como domesticámos o fogo e o gelo, como desenvolvemos  batedeiras,  colheres,  raladores,  espremedores, 
pilões  e  almofarizes,  como  usámos  mãos  e  dentes,  tudo  em nome de garantirmos o alimento diário. Há engenho inventivo oculto  nas  nossas  cozinhas  que  influencia  a  maneira  como cozinhamos e comemos. Este não é um livro sobre a tecnologia da   agricultura,   nem   acerca   da   tecnologia   da   cozinha   de restaurante.  Fala-nos  do  sustento  quotidiano  dos  lares  e  dos benefícios  (e  riscos)  que  os  diferentes  utensílios trouxeram  ao ato de cozinhar.»


domingo, 19 de maio de 2013

Porto: A nova vida das velhas salas de cinema

**JornalismoPortoNet*
Porto: A nova vida das velhas salas de cinema
Do Cinema Águia d'Ouro, aberto em 1900, hoje já só resta a fachada, que dá cara a um hotel

Foto: DR

Porto: A nova vida das velhas salas de cinema

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Durante décadas, o cinema era uma das distrações mais populares entre os portuenses. Hoje, das salas de espetáculo da Sétima Arte, restam edifícios com histórias bem diferentes para contar.
Até aos anos 80 eram vários os cinemas espalhados um pouco por toda a cidade do Porto, desde a baixa até à Foz. O declínio dos lucros e o aparecimento dos multiplex fez com que muitos fechassem ou desaparecessem enquanto outros "renasceram" em forma de negócios como hóteis, bingos e até igrejas. O JPN foi descobrir o que resta daquelas que foram, há mais de 20 anos, algumas das salas mais importantes do Porto.

Cinema Olympia

O cinema Olympia, na rua Passos Manuel, bem perto do Coliseu do Porto, abriu portas a 18 de maio de 1912 pela mão de Henrique Alegria - produtor cinematográfico, filho de pai brasileiro e mãe portuguesa.

Os jornais da época descreviam asinstalações como "modelares, elegantes e luxuosíssimas", na altura já com iluminação elétrica e a projeção dos filmes com uma nitidez e fixagem absolutas. Tinha uma lotação para 600 pessoas e que várias vezes encheu com filmes de cariz mais popular, como os de cowboys, por exemplo, mas também com estreias como "Amor de Perdição", de George Pallu.
"O cinema deixou de render, de dar lucro e de compensar tê-lo aberto"

Margarida Neves

Foi comprado pela empresa da família Neves&Pascaud e na época de 60 e 70 já se encontrava numa fase de decadência, com uma programação secundária. Na década de 80, o cinema fecha de vez e dá lugar a uma sala de bingo. A razão, segundo Margarida Neves, neta do antigo proprietário, é bastante simples: "O cinema deixou de render, de dar lucro e de compensar tê-lo aberto", disse Margarida ao JPN.
Mas o bingo acabou por ter o mesmo destino que o cinema e, hoje em dia, o Olympia não é mais do que um prédio fechado e vazio. Pertence à empresa Sopete, do Casino da Póvoa, e sem futuro previsto.

Cinema Trindade

Futuro semelhante ao Olympia, teve o Cinema da Trindade. Hoje o espaço tem uma sala de bingo mas em pleno funcionamento e gerido pela empresa Cinema da Trindade, depois de também ter tido a tutela da Neves&Pascaud. O motivo para o fecho do cinema foi exatamente o mesmo que o do Olympia, segundo Margarida Neves.

O Cinema da Trindade foi inaugurado um ano depois do Olympia - a 14 de junho de 1913. Tinha capacidade para 1191 lugares e uma programação de excelência: "No Cinema da Trindade passavam filmes de maior qualidade como as grandes estreias e os filmes dos Óscares", conta ao JPN Margarida Neves.

Cinema Águia D'Ouro

Do Cinema Águia D'Ouro resta a fachada. Situada na Praça da Batalha, a antiga sala de cinema pertence, agora, à cadeia de hotéis Endutex. A reconstrução, depois da aquisição em 2008 pelo grupo, resultou na demolição do interior do edifício, após mais de 20 anos de espera e de degradação que contrastam com outros tempos de glória. O investimento foi de 6,7 milhões e o projeto esteve a cargo dos arquitetos Nelson Almeida e Rosário Rodrigues, responsável por obras como a Torre das Antas ou o edifício Trindade Domus.

Na data da remodelação, foram salientadas as necessidades de manter a identidade do espaço, sendo este parte da memória coletiva da cidade Invicta. De acordo com Gisela Barros, da assessoria do hotel, a aposta no espaço manteve a "fachada Art Déco da década de 1930". Foram, ainda, recuperados "suportes de partituras da orquestra, um microfone antigo e uma bobina, entre outros achados arqueológicos que poderão ser visto no hall do hotel".

Tentativas de requalificação

Antes da criação de um hotel, foram várias as tentativas de devolução do espaço, enquanto centro de cultura, à cidade do Porto. Em 2006, após o restauro parcial do Cinema Batalha, foi muita a especulação sobre a reabertura do Águia D'Ouro. Na Internet, surgiu uma petição, dirigida ao presidente da Câmara, Rui Rio, que pedia uma solução para o cinema que corria "o risco de desaparecer, dado ao seu elevado estado de degradação". "Salvem o Águia D'Ouro e abram o Cinema Batalha", exigia-se. A hipótese de restauro esteve, também, em cima da mesa em 2003, quando o grupo Solverde, que se tornou o proprietário do espaço, viu chumbado o projeto para transformar o espaço num casino.
Em retrospetiva, o Águia D'Ouro abriu, em primeiro lugar, como um café, em janeiro de 1839. Camilo Castelo Branco e Antero de Quental eram clientes assíduos do espaço. O cinema surge posteriormente, já em 1908, com espetáculos e filmes mudos, já que o cinema sonoro apenas chegou cerca de 20 anos depois, em 1930, com o "All That Jazz".
Em 1931, a fachada foi remodelada e o espaço reaberto. No pórtico foi colocado os símbolo que lhe dá o nome: uma águia de ouro. O cinema pertenceu à família Neves&Pascaud, a detentora do monopólio cinematográfico da cidade Invicta. O fecho deu-se em 1989 e foi motivado pela ausência de espetadores.

Cinema Vale Formoso

O Cinema Vale Formoso, aberto ao público em 1949, localizava-se numa área residencial do centro do Porto e funcionava mais como "cinema de bairro". Tal como tantos outros, era explorado pela Lusomundo.

Encerrada em 1993, a sala de Vale Formoso foi adquirida pela Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), depois da tentativa falhada em comprar o Coliseu do Porto. Até 2010, o Cinema Vale Formoso foi usado como santuário pela IURD, mas acabou por fechar as portas quando o grupo religioso passou para a sua nova catedral, na Rua de Serpa Pinto.
O edifício mantém a plateia, com uma capacidade de 900 lugares, mas sofreu algumas mudanças, entre elas um novo palco, feito em mármore. O JPN contactou a Igreja Universal do Reino de Deus para obter mais informações sobre o antigo Cinema Vale Formoso, mas não obteve nenhuma resposta.

Cinema Passos Manuel

O Cinema Passos Manuel data de 1971. Está albergado no Coliseu do Porto e é, desde 2004,uma sala dedicada a várias artes além do cinema, sendo também um um bar e uma discoteca. "Se isto fosse apenas um cinema, já teria fechado porque, tal como todas as artes, dá prejuízo", explica António Guimarães, responsável pela exploração do espaço, ao JPN. António acrescenta que, para manter o cinema a funcionar, não ia cair na "asneira" de ter um espaço dedicado em exclusivo à exibição de filmes.
"Se isto fosse apenas um cinema, já teria fechado"

António Guimarães

"Escolhi o Passos Manuel porque era um sítio que estava fechado e onde eu vim ao cinema durante anos e anos", conta António que, depois de saber do encerramento da sala, contactou imediatamente os responsáveis pela gestão do Passos Manuel. Depois, fez algumas remodelações para albergar o modelo de negócio atual - um investimentode "centenas de milhares de euros".
O cinema foi a arte predileta do espaço durante trinta anos, até ao seu encerramento temporário, em 2002. António conseguiu a licença de exploração e reabriu-o em 2004. O contrato entre o empresário e o Coliseu do Porto termina em 2014 e António prefere esperar pelo futuro para decidir o que fazer. Caso permaneça à frente do cinema, poderá melhoraro auditório, pois o projeto "tem pernas para andar".

sábado, 6 de abril de 2013

Morreu Luís Andrade, o comandante do Zip-Zip

(actualizado às )
Antigo director de programas da RTP e realizador de programas que marcaram a televisão em Portugal morreu em Lisboa aos 77 anos.
Luís Andrade em 2002, quando ainda estava na RTP David Clifford/Arquivo
Antes de cada nova emissão, dizia aos colegas: “Fala o comandante, vamos levantar voo”. Quando abandonou a RTP em 2007, disse: “Meus senhores, vamos aterrar”. Luís Andrade, uma das figuras-chave da televisão em Portugal, faleceu ao início da tarde deste sábado em Lisboa, onde se encontrava hospitalizado há alguns dias.
 
A RTP era a sua “família” e, mesmo depois de se ter “reformado” da estação continuava a ser “da família”. Não apenas por os seus três filhos terem feito carreira no canal público – Serenella, locutora e apresentadora, Hugo, responsável pelo canal de cabo RTP Memória, promovido a actual director de programas, e Ricardo, também profissional da estação.
 
É que, como com poucos outros, a história da televisão em Portugal é indissociável dos 44 anos que Luís Andrade passou na RTP, de 1963 a 2007. “A minha mulher costuma dizer que eu me casei com a RTP e não com ela”, disse quando abandonou a direcção de programas em 2005. Num comentário feito à Antena 1, Margarida Mercês de Mello, que conviveu com Andrade quando se iniciou na estação na década de 1970 como locutora de continuidade, lamentava que não existisse nenhum registo das recordações do antigo realizador e director de programas, que esteve ligado a algumas das emissões mais memoráveis do canal.
 
É o caso do lendário Zip-Zip de Carlos Cruz, José Fialho Gouveia e Raul Solnado, verdadeiro símbolo televisivo da Primavera Marcelista, que se tornou num fenómeno sem paralelo no Portugal de 1969 e cuja primeira emissão foi para o ar sem ensaio prévio. Ou ainda do concurso A Visita da Cornélia, apresentado por Solnado e criado pelo actor e por Fialho Gouveia, que fez parar o país em 1977.
 
Andrade dirigiu igualmente os Jogos sem Fronteiras, uma dúzia de edições do Festival RTP da Canção, programas como o Sabadabadu (com Ivone Silva e Camilo de Oliveira) e muitos especiais musicais, para os quais os seus estudos provaram ter especial importância. O realizador começou por ser cantor de ópera, profissão que exerceu um pouco por todo o mundo durante oito anos, antes de decidir abandonar o canto. Pouco depois do regresso definitivo a Lisboa, em 1963, foi convidado para se juntar à RTP, convite que aceitou com a exigência de ir “ver como se fazia lá fora”, visitando no processo várias televisões europeias.
 
Ao longo de quase meio século, Andrade exerceu igualmente uma série de cargos administrativos dos quais o mais importante terá sido a responsabilidade pela programação ao longo de vários períodos a partir de 1983, o último dos quais entre 2002 e 2005. Num texto colocado na rede social Facebook, Nuno Santos, que foi adjunto de Andrade durante esse período e lhe sucedeu como director de programas em 2005, lamenta o desaparecimento de um “príncipe da televisão”, um “(quase) pioneiro” a quem a RTP devia muito.
 
Com a morte de Luís Andrade perdeu-se "um romântico", afirmou à Lusa o apresentador de televisão Júlio Isidro, sublinhando que partiu "a pessoa que mais amava a RTP na história destes 56 anos de televisão em Portugal". Isto porque o realizador tinha "um profundo amor pela sua casa, a casa em que nunca deixou de participar mesmo nestes anos em que já estava teoricamente afastado", recordou.

A colaboração de Luís Andrade com a RTP terminou com a coordenação das comemorações do 50º aniversário da RTP em 2007, sendo agraciado em 2008 com a Ordem de Mérito atribuída pelo Presidente da República. Em entrevista há ano e meio à revista Nova Gente, manifestava-se contra a eventual privatização da estação, entendendo que o serviço público devia “servir as pessoas, educar e promover a cultura” e que devia passar ao lado da guerra das audiências.

Em comunicado, o Conselho de Administração da RTP lembra que Luís Andrade era "dos profissionais mais respeitados da televisão portuguesa" e que "a ele se devem muitos dos bons momentos de televisão a que gerações de portugueses assistiram e que ainda recordam". Recordando que o antigo director de programas era "dotado de um trato exemplar" e que era "muito querido de todos os colegas e de quantos com ele trabalharam", a administração da RTP sublinha: "Hoje Portugal e a RTP ficam mais pobres."
 
O corpo de Luís Andrade vai estar em câmara ardente na Igreja de São João de Deus, na Praça de Londres, em Lisboa, a partir das 11h30. O funeral está marcado para segunda-feira: a missa é às 9h30 e o corpo segue depois para o cemitério do Alto de São João, às 10h30.

Os arquitectos às voltas com a fotografia

Viagem a Portugal

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Começou por ser uma encomenda do Governo de Salazar, mas viria a tornar-se num momento marcante na alteração do paradigma da arquitectura portuguesa a meio do século XX. Olhado agora à distância de meio século, o Inquérito à Arquitectura Regional Portuguesa mostra-se também como um sinal de renovação na história da fotografia portuguesa

Território comum é o título da exposição que reúne uma centena de fotografias do Inquérito à Arquitectura Regional Portuguesa, 1955-57, patente desde quarta-feira, dia 4 de Abril, na galeria da Fundação EDP, no Porto. (Rua de Ofélia Diogo Costa, 46). Trata-se de uma selecção, da responsabilidade de Sérgio Mah, feita a partir das dez mil fotografias realizadas por um colectivo de 18 fotógrafos e arquitectos na segunda metade dos anos 1950, e depois publicadas no livro que se tornaria mítico, “Inquérito à Arquitectura Regional Portuguesa”, editado em 1961.


segunda-feira, 25 de março de 2013

Zillah Branco: O patrimônio nacional e o ataque imperialista na Europa

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5 de Março de 2013 - 13h37

Zillah: O patrimônio nacional e o ataque imperialista na Europa

 

A definição do território pátrio estabelece as fronteiras com outros territórios vizinhos, as milhas marítimas que cada um tem para seu abastecimento e defesa, os rios, o solo e o subsolo.

Por Zillah Branco*


A gente que aí habita, com a sua cultura, idioma e história, o povo, tem o poder e a responsabilidade de proteger o território, desenvolver as potencialidades existentes para assegurar a melhor condição de vida coletiva, zelar pelas riquezas naturais existentes para que o patrimônio nacional seja aplicado para o bem comum e conservado para as gerações futuras. As nações europeias que alcançaram durante a Idade Média maior poder em relação ao mundo ainda desconhecido, afirmaram-se como centro do conhecimento científico, filosófico e artístico e impuseram, através do domínio dos mares e da capacidade de organização de instituições que consolidaram Estados e relações políticas internacionais, o seu modelo de pensamento às nações mais pobres conquistando o estatuto de "poder cultural ocidental".

Subordinado ao modelo dos mais ricos (ou mais fortes), o mundo colonizado esmagou o orgulho nacional que defendia os seus patrimônios – naturais, culturais e históricos – que constituem a riqueza, material e imaterial, que alicerça o desenvolvimento da sua economia e do seu povo.

Hoje, em investigações arqueológicas, desvendam-se conhecimentos científicos, conceitos filosóficos e sociológicos, noções de arte, enfim, traços de uma inteligência criativa avançada que se interpenetrava de sentimentos humanísticos que ainda faltam no conhecimento atual divulgado pelo mundo ocidental.

Constata-se o tempo perdido no desenvolvimento da precária "civilização" que traduziu a sua capacidade e brilho intelectual em uma elite fortemente armada e de poder autoritário que manipula os seus dependentes.

Séculos de predação e rapina do patrimônio cultural e natural de povos que foram sendo exterminados bárbaramente no "Terceiro Mundo" – que o colonialismo e o neo-colonialismo criaram no planeta com o resíduo da sua exploração da riqueza resultante das suas "descobertas" nunca reconhecidas como "encontros entre povos" – que com o impulso propiciado pelo socialismo revolucionário deu, no século 20, decididos passos no sentido da libertação ainda que subjugados pelo sistema capitalista dominante que segue o seu curso com ideal imperialista.

Novas formas de espoliação foram criadas na Europa, agora por empresas multinacionais que acobertam as nações ponta-de-lança do imperialismo que atuam dentro das instituições administrativas das sociedades dependentes (como antes fizeram no Terceiro Mundo por meio de empresas concessionárias de serviços públicos) assenhoreando-se das riquezas do subsolo como os minérios raros e, agora, a água, e passam a vender como se fosse seu, o patrimônio que pertence ao povo.

Diferentes estratégias expansionistas deram origem à criação e povoamento europeu das nações no Terceiro Mundo onde velhas culturas indígenas foram esmagadas e povos primitivos foram escravizados com o objetivo de ser implantado um modelo "civilizado" com as características do europeu.

Paralelamente, a exploração das riquezas naturais do novo mundo enriqueceu o sistema comercial europeu que passou a constituir a base do poder econômico e político que mantinha a aristocracia reinante no continente europeu.

A Inglaterra capitaneou a Revolução Industrial esvaziando o seu território de um campesinato pobre que emigrou, com facções religiosas conflitantes com o poder instituído, para o norte da América onde sobreviveram e povoaram os Estados Unidos e o Canadá na companhia de franceses e holandeses que seguiram o mesmo caminho.

Naturalmente estas condições históricas de colonização, pelo empenho de nações europeias mais ricas que aplicavam a cultura no desenvolvimento de uma nova sociedade que se organizava no caminho da industrialização com as bases do capitalismo nascente, deram origem a colónias que permaneceram como instrumentos de poder aliadas às suas metrópoles.

No final do século 19, depois de processos de independência em que Inglaterra e França competiram hora como colonialistas, hora como libertadores do novo mundo, os Estados Unidos seguido pelo Canadá, deram início à sutil penetração nas nações latino-americanas levando tecnologia e ideias modernas de desenvolvimento econômico diferentes dos conceitos libertários herdados tanto da Revolução Francesa como da Revolução Americana que já tinham desaparecido no curso da Guerra de Secessão que dividiu o povo norte-americano entre os racistas escravocratas e os que idealizavam o socialismo utópico.

Abria-se para os países capitalistas, independentes e agora aliados, a fase do "imperialismo" que substituiu o mercantilismo e a dominação colonial por fórmulas modernas de neo-capitalismo acompanhadas de ação destruidora das culturas tradicionais e perseguição sem tréguas a qualquer expressão individual ou coletiva de doutrinas libertárias ou do socialismo científico.

Todo o Terceiro Mundo, inclusive no Oriente, foi invadido pelo vírus imperial que ficou colado às sementes da cultura e do desenvolvimento equilibrado com as origens tradicionais e as características de cada povo, com características de humildade submissa, o reverso da medalha dos preconceito de superioridade racial e civilizacional usado como instrumento de domínio.

A Revolução Socialista realizada na Rússia e que expandiu o seu exemplo por mais 15 nações da Ásia Central e da Europa do norte, tendo por base teórica o conhecimento gerado na Alemanha e França, com participação de intelectuais e instituições de muitas outras nações europeias e mesmo dos Estados Unidos, dividiu a humanidade como um todo entre explorados e exploradores, sem divisões raciais e com a consciência dos iguais direitos humanos.

A Segunda Guerra Mundial contra a expansão do domínio fascista na Europa foi vencida pela união da humanidade contra um perigo global, apesar das diferenças ideológicas históricas. A reconstrução das nações europeias também foi fruto da mesma solidariedade humanista e recebeu a ajuda (que abriu caminho para desenvolver os seus interesses de domínio) do núcleo imperial do sistema que deu grande impulso à imagem da Europa como "poder cultural" ao qual se manteve aliado até conseguir minar o sistema socialista no Continente.

Como assinala a exposição feita sobre a história da União Europeia, apresentada em final de 2012 em Bruxelas, a construção deste caminho teve início com a formação do Clube de Bilderberg formado na sequência da Segunda Guerra com políticos e militares europeus e norte-americanos que também definiram o Estado de Israel a ser implantado sobre o mundo árabe.

Este fato, que é publicitado amplamente na Europa, impede que se avalie a penetração subtil do imperialismo na sua habitual forma de dominação dos países fragilizados da própria Europa.

A aliança de uma elite política e econômica na Europa, a qual é integrada pela realeza que encabeça vários governos republicanos, com o núcleo imperial que comanda os Estados Unidos mantendo a nação como primeira potência militar e econômica no planeta, traçou em conjunto o caminho para o combate às ideias libertárias e socialistas que germinaram em toda Europa e formaram movimentos sindicais sólidos capazes de defender o direito dos trabalhadores e os direitos sociais de toda a população que são o objetivo de luta da esquerda que resistiu às invasões fascistas e às pressões ditatoriais permanentemente.

O imperialismo, fase superior do capitalismo, que sempre apareceu como uma "estratégia" da primeira potência - amplia a sua imagem mostrando que também é europeu no mundo global.

Permanece a humanidade, que se divide em exploradores e explorados, diante da ameaça de uma guerra que parece unir os dois lados adversários na paz, em defesa da dignidade humana e o direito elementar de viver.

Zillah Branco é socióloga, militante comunista e colaboradora do Vermelho

terça-feira, 5 de março de 2013

Granovsky: Quando a inquisição colocou Boff no assento de Galileu

Página Inicial
 
4 de Março de 2013 - 11h29



Ele esperou até 1992 para deixar os hábitos de monge franciscano e abandonar o monastério onde vivia. A essa altura já havia atravessado uma experiência impactante: no dia 7 de setembro de 1984, o chefe da antiga Inquisição, hoje chamada de Congregação para a Doutrina da Fé, o colocou no mesmo assento que ocuparam o teólogo Giordano Bruno e o astrônomo Galileu Galilei.

Por Martín Granovsky, Página 12





montagem redação Vermelho

O inquisidor era o cardeal Joseph Ratzinger, então braço direito doutrinário de João Paulo II e depois Papa a partir de 2005 até a última quinta-feira (28). O interrogado era o brasileiro Leonardo Boff.

Boff não foi queimado vivo como Giordano nem foi obrigado a pedir perdão como Galileu. Mas, em 1985, Raztinger o condenou ao silêncio e, desde então, as hierarquias eclesiásticas dificultaram cada vez mais a chance de expressar suas ideias com liberdade. Depois de Igreja, Carisma e Poder, o livro que o levou diante de Ratzinger, cada novo trabalho encontrava obstáculos para sua publicação em editoriais ou revistas obrigadas a pedir permissão às autoridades da Igreja católica.

Nos últimos dias, durante o debate sobre o futuro da Igreja em função do impacto da renúncia do Papa, Boff recordou em seu blog (http://leonardoboff.com ) que ele foi “colocado na mesma banqueta de Giordano e Galileu”. Ler essa frase provoca uma perplexidade: Foi, realmente, o mesmo banco? Era possível que a mensagem da Santa Sé para demonstrar autoridade fosse transmitida com uma nitidez tão crua? O Página/12 decidiu fazer essas perguntas diretamente a Boff.

Esta foi sua resposta, enviada por email: “Fui julgado no prédio que fica à esquerda da grande praça para quem vai na direção da basílica (de São Pedro). Há séculos que é a sede da Congregação para a Doutrina da Fé, ex-Santo Ofício e ex-Inquisição. É um edifício grande, escuro, com três pisos ou mais. Teve um processo doutrinário com todos os requisitos jurídicos. Eu me sentei onde todos os julgados pela Inquisição foram julgados. Ali sentaram Galilei Galilei, Giordano Bruno e outros. Não estou jogando com metáforas, mas sim com a realidade”.

Inquisidor e condenado se conheciam bem. O teólogo brasileiro nascido em 1938 estudou em Munique e Ratzinger, então um sacerdote de mente aberta, era conferencista. Talvez por isso ou por simples pudor – é difícil de acreditar, mas no mundo tem gente que vivem sem olhar o próprio umbigo -, Boff jamais deixou de criticar Bento XVI por suas ideias e atos, mas nunca travou esse debate em termos pessoais. E uma vez, há três anos, chegou a ser até profético.

Boff falou à revista IstoÉ, em 28 de maio de 2010, segundo pode se ler: “O Papa, para seu próprio bem e da Igreja, deveria renunciar. Devemos exercer a compaixão. É um homem doente, velho, com problemas próprios da idade e com dificuldades para a administração, porque é mais professor do que pastor. Por esse motivo faria bem em ir para um convento rezar sua missa em latim, cantar seu canto gregoriano que tanto aprecia, rezar pela humanidade que sofre, especialmente pelas vítimas da pedofilia, e se preparar para o grande encontro com o Senhor da Igreja e da história. E pedir misericórdia divina”.

Os dois anos que se passaram entre a opinião de Boff e o helicóptero de Ratzinger são um lapso curto para os ritmos vaticanos. O certo é que depois desse tempo, Ratzinger se converteu em Papa emérito e, em seguida, predicará em um convento.

Giordano e Galileu
Campo de Fiori é a única grande praça de Roma sem igreja. A vinte quadras do Vaticano e muito perto de Piazza Navona, pela manhã funciona um mercado. Senhoras vestidas de preto que parecem recém chegadas do campo vendem fruta, massa seca e verduras, brócolis romano, de cor verde clara e odor suave, ou brócolis siciliano, escuro e mais forte, que se come aqui. À tarde, as pizzarias e restaurantes das ruas laterais ficam cheios e, no lugar das matronas, estão os turistas de vinte e poucos anos que comem penne regate e, sobretudo, bebem cerveja como se fosse a última vez.

As senhoras da manhã e os meninos da tarde vivem sua vida alheios à estátua que está sobre o pavimento de Campo de Fiori. Mostra um monge alto e ligeiramente encurvado. O escultor Etore Ferrari deu a ele um rosto com gesto decidido e arrumou as dobras da batina de modo que elas parecem seguir se movendo. Abaixo, uma frase em italiano: “A Bruno – Secolo da lui divinato, qui dove il rogo arse”. A tradução: “O século que ele adivinhou (está) aqui, onde o fogo ardia”.

Em 1600, o napolitano de 52 anos que havia sido frei dominicano foi queimado pela ordem da Santa e Geral Inquisição no mesmo lugar onde hoje está a estátua. O queimaram vivo por heresia. “Tremeis mais vós ao anunciar esta sentença do que eu ao recebê-la”, disse um pouco antes de morrer. Entre outras ideias sustentou a centralidade do sol, como Copérnico, e desafiou a centralidade do papa. Jamais, nos 413 anos que se seguiram à sua execução, a hierarquia da Igreja pediu perdão ou voltou a incluí-lo de alguma maneira em seu seio.

A instalação da estátua foi ela mesma uma grande batalha no século XIX. Promovida por personalidades de toda a Europa, desde Vitor Hugo até Mikhail Bakunin, a homenagem a Giordano Bruno só se configurou no monumento de Campo de Fiori em junho de 1889. E o Papa de então, Leão XIII, inclusive ameaçou afastar-se ostensivamente de Roma neste dia. Só se absteve de fazê-lo quando o governo italiano o advertiu que se deixasse a cidade era melhor que não voltasse.

Trezentos anos antes dessa polêmica, na Inquisição, o julgamento foi conduzido pessoalmente pelo cardeal Roberto Belarmino, o mesmo que obrigou Galileu Galileu a se retratar do heliocentrismo em 1616 para não acabar torturado e incinerado como Bruno.

O pontífice, sumo
Belarmino não era um simples chefe de torturadores, mas sim um teórico fino e um sutil funcionário da Santa Sé. Em seu Tratado sobre o poder dos sumos pontífices nos assuntos temporais, de 1610, disse que o papa pode se opor a quem politicamente possa colocar em perigo a cristandade. E meio à crise da Igreja e ao nascimento da Reforma protestante, Belarmino atualizou assim a doutrina do papa Gregório VII que, em 1075, deu o grande giro na construção da Igreja como monarquia absoluta quando estabeleceu que ao pontífice “é lícito depor os imperadores”, que tem o direito exclusivo de depor ou recolocar bispos e que “pode eximir os súditos da fidelidade até aos príncipes iníquos”.

O investigador Jean Touchard escreveu em seu livro clássico, “História das ideias políticas”, que “o movimento iniciado por Gregório VII é irreversível”. E explicou: “A centralização romana e a refundação administrativa (com a organização da Cúria, que é seu principal elemento) farão do bispo de Roma o Soberano Pontífice, dignidade ou autoridade que os papas dos séculos precedentes nunca conseguiram assegurar de forma duradoura”.

Depois que Boff se sentou pela última vez no assentou de Giordano e Galileu, a Congregação para a Doutrina da Fé seguiu trabalhando, até que um ano depois pediu que ele ficasse em silêncio. A notificação dos inquisidores a Boff está disponível na internet e pode ser consultado neste endereço: http://bit.ly/YEk3j0 .

Vale a pena o esforço de ler alguns parágrafos inteiros, onde uma visão teológica aparece como um modo de respaldar a construção do poder supremo do Vaticano desde Gregório VII e Belarmino até o último período de João Paulo II (papa que teve Ratzinger como inquisidor) e Bento XVI. Boff, ao contrário, teria cometido o pecado de cair em “uma concepção relativizante da Igreja”, a partir das “críticas radicais dirigidas à estrutura hierárquica da Igreja Católica”. Os parágrafos:

“A única fé do Evangelho cria e edifica, através dos séculos, a Igreja Católica, que permanece una na diversidade dos tempos, diferentemente das situações que caracterizam as múltiplas igrejas particulares.”

“A Igreja universal se realiza e vive nas Igrejas particulares e estas são Igreja, permanecendo precisamente como expressões e atualizações da Igreja universal em um determinado tempo e lugar. Assim, com o crescimento e progresso das Igrejas particulares cresce e progride a Igreja universal; enquanto que, com a atenuação da unidade, diminuiria e faria decair também a Igreja particular”.

“Por isso, a verdadeira reflexão teológica nunca deve se contentar somente em interpretar e animar a realidade de uma Igreja particular, mas sim deve tratar de penetrar os conteúdos do sagrado depósito da Palavra de Deus, confiado à Igreja e autenticamente interpretado pelo Magistério”.

“A práxis e as experiências, que surgem sempre de uma situação histórica determinada e limitada, ajudam o teólogo e obrigam a tornar acessível o Evangelho a seu tempo. No entanto, a práxis não substitui a verdade nem a produz, mas sim está a serviço da verdade que nos foi entregue pelo Senhor”.

“L. Boff se situa, segundo suas palavras, dentro de uma orientação na qual se afirma ‘que a Igreja como instituição não estava no pensamento no Jesus histórico, mas sim que surgiu como evolução posterior à ressurreição, especialmente com o progressivo processo de desescatologização’”.

“(p. 129) Por conseguinte, a hierarquia é, para ele, “um resultado da terrena necessidade de se institucionalizar”, “uma mundanização” ao “estilo romano e feudal” (p.70). Daí se deriva a necessidade de uma ‘mudança permanente da Igreja (p. 112); hoje deve surgir uma “Igreja nova” (p. 110 e seguintes), que será “uma nova encarnação das instituições eclesiais na sociedade, cujo poder será simples função de serviço” (p. 111).

“Não resta dúvida de que o Povo de Deus participa na missão profética de Cristo (cf. LG 12); Cristo realiza sua missão profética não só por meio da hierarquia, mas também por meio dos laicos (cf. LG 35). Mas é igualmente claro que a denúncia profética na Igreja, para ser legítima, deve estar sempre ao serviço da edificação da própria Igreja. Não só deve aceitar a hierarquia e as instituições, mas também cooperar positivamente para a consolidação de sua comunhão interna; além disso, o critério supremo para julgar não só seu exercício ordenado, mas também sua autenticidade, pertence à hierarquia (cf. LG 12).”

LG é Lumen Gentium, Luz dos Povos, uma das constituições emanadas do Concílio Vaticano II, que se reuniu entre 1962 e 1965 e atualizou a Igreja, Ratzinger foi um de seus secretários. Boff relacionou o Concílio com a Teologia da Libertação que, nos anos 60, foi abraçada por muitos sacerdotes, religiosos e laicos no mundo e na América Latina. Segundo consta na notificação da Congregação para a Doutrina da Fé, na sessão de 1984, com Boff, Ratzinger foi assistido por um argentino, Jorge Mejía, que havia sido diretor da revista católica argentina Criterio.

A era do gelo
Em 1992, quando deixou a batina porque sentiu que estava se chocando, segundo suas palavras, “contra uma muralha”, Boff disse que “a forma atual de organização da Igreja (que nem sempre foi a mesma na história)” cria e reproduz desigualdades”.

Quando a Congregação o citou, Boff buscou e obteve a cobertura pastoral de dois cardeais, o arcebispo de Fortaleza, Aloisio Lorscheider, e o arcebispo de São Paulo, Paulo Evaristo Arns, ambos franciscanos e simpatizantes da doutrina de opção pelos pobres. A sanção a Boff pode ter sido também uma resposta a este grupo de bispos brasileiros. A história posterior talvez seja uma prova de que a mensagem tinha múltiplos destinatários, porque nenhum deles foi substituído por bispos da mesma linha, mas sim por conservadores.

Na quarta-feira passada, outro teólogo, o suíço Hans Kung, uma figura chave para os teólogos da libertação, escreveu no The New York Times uma coluna na qual se perguntava ser era possível uma primavera vaticana.

Kung, que foi companheiro de estudos de Ratzinger e trabalhou com ele como teólogo no Concílio há cinquenta anos, assinalou que o Vaticano pode ser comparado a outra monarquia absoluta, a Arábia Saudita, ainda que esta tenha somente duzentos anos de vida. Também mencionou três reformas de Gregório VII para conformar o “sistema romano”: um papado “centralista-absolutista”, “um clericalismo compulsivo” e “a obrigação do celibato para sacerdotes e outros membros do clero secular”.

Nem sequer o Concílio Vaticano II, segundo Kung, limitou o poder da Cúria, “o corpo de governo da Igreja”. E nos papados de João Paulo II e Bento XVI houve, além disso, “um retorno aos velhos hábitos monárquicos da Igreja”.

Apesar de que, como símbolo, o Papa tenha dialogado quatro horas com Kung em 2005, “seu pontificado esteve marcado por colapsos e más decisões”. Por exemplo, “irritou as igrejas protestantes, os judeus, os muçulmanos, os índios da América Latina, as mulheres, os teólogos reformistas e os católicos partidários de uma reforma”. E reconheceu a Sociedade de São Pio X, dos seguidores do arcebispo ultraconservador Marcel Lefebvre, do mesmo modo que fez com o bispo Richard Williamson, um negador do Holocausto. Para não falar dos abusos de crianças e jovens por parte de clérigos que o Papa encobriu quando era o cardeal Joseph Ratzinger. Ou dos fatos relevados nos Vatileaks, com “intrigas, lutas pelo poder, corrupção e deslizes sexuais na Cúria, que parecem ser a razão principal da renúncia de Bento”.

Kung escreveu que “nesta situação dramática, a Igreja necessita de um Papa que não vida intelectualmente na Idade Média, que não encabece nenhum tipo de teologia, constituição da Igreja e liturgia medievais”. O papa necessário deveria voltar à democracia seguindo “o modelo do cristianismo primitivo”.

O exemplo alemão reflete algumas tensões. “Uma pesquisa recente mostra que 85% dos católicos da Alemanha está a favor de que os sacerdotes possam se casar, 79% apoiam que os divorciados possam voltar a ser casar e 75% apoia a ordenação de mulheres”, aponta Kung. Depois de se perguntar se a Igreja será capaz de convocar um novo concílio reformista ou uma assembleia de bispos, sacerdotes e laicos, Kung apresenta sua conclusão: “Se o próximo conclave eleger um papa que siga o mesmo velho caminho, a Igreja nunca experimentará uma nova primavera, mas sim cairá em uma nova era do gelo e correrá o perigo de ficar reduzida a uma seita crescentemente irrelevante”.

Neste caso, o assento de Giordano, Galileu e Boff será um vestígio tão ou mais forte que o trono de Pedro.

(Título original "Quando a inquisição colocou Boff no mesmo assento de Giordano Bruno e Galileu" alterado por redação Vermelho; tradução: Marco Aurélio Weissheimer)

sábado, 2 de março de 2013

Como os heróis anónimos dos Descobrimentos abriram caminho à ciência moderna

Público Público

 


A exposição 360º Ciência Descoberta é inaugurada esta sexta-feira em Lisboa. Muitas das peças, incluindo réplicas, vieram de Espanha, Itália, Inglaterra, que contam como as viagens oceânicas dos portugueses e espanhóis abriram as mentes.