Richard Clayderman - Matrimonio de amor
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Enviado por Gioconda do Porto (hi5)
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Aprender, Aprender Sempre ! (Lenine) ..... Olá, Diga Bom Dia com Alegria, Boa Tarde, sem Alarde, Boa Noite, sem Açoite ! E Viva a Vida, com Alegria e Fantasia (Victor Nogueira) ..... Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
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| ‘O domínio da cultura geral é uma característica marcante do colecionador’ Conhecer a história é o grande segredo José Rabelo - Os cartões-postais ‘usados’ possuem maior valor agregado se comparado aos ‘virgens’? - Com certeza. Nós chamamos de cartões circulados e não circulados. Os circulados, de cara, já agregam o valor do selo. E depois a história. Por exemplo, passou um cartão na minha mão de 1900, do Rio de Janeiro – que infelizmente não consegui adquirir –, que o sujeito manda para o dono de um bar com o seguinte texto: ‘Por favor, me envie 10 cervejas claras e duas escuras, para o endereço de sempre, logo após violento esporte bretão’. Isso é uma coisa histórica. Revela o jeito de falar do povo.
- Sim. Por exemplo, há um cartão endereçado por Adolf Hitler que no final ele deixa uma mensagem: ‘Para você, com carinho, Adolf!’. Para mim foi inesperado. Não imaginava que Hitler tivesse esse lado mais sentimental. Esse cartão foi comercializado recentemente nos Estados Unidos por 1,5 mil dólares. - Como se desenvolveu o mercado publicitário de cartões? - Os cartões publicitários começaram a se tornar colecionáveis na década de 90. Embora, eles existam desde o início. Já eram usadom para divulgar produtos como cigarros, sabonetes, águas-de-colônia etc. No começo, como não havia ainda a fotografia, eles utilizavam imagens de obras de arte para confeccionar os cartões. Por esse motivo esses cartões têm um bom valor de mercado. - O colecionar Antônio Miranda, bastante conhecido no meio, disse que o verdadeiro colecionador não pensa em ganhar dinheiro com sua coleção. O senhor concorda? - O verdadeiro colecionador não faz nada pensando e ganhar dinheiro depois. Eu por exemplo não vendo meus cartões. Só se eu tiver dois, até por uma questão solidária com um outro colecionador. - Os governantes brasileiros vêem a coleção de postais como arte? Há algum incentivo? - Infelizmente não. Eu tentei contato com os prefeitos de Vitória, Vila Velha e até com o governador. Na verdade, eu queria doar minha coleção para fazer uma espécie de museu do postal aqui no Espírito Santo. Mas não há interesse. Eu queria abrir o acervo ao público para que as pessoas entendessem melhor o significado cultural dos cartões. Gostaria de promover concursos de fotografia para produzir postais. Meu interesse com isso não é de ganhar dinheiro. Eu costumo vender postais de publicidade para colecionadores de outros países para levantar capital para investir na minha coleção. O que ganho com a coleção invisto na coleção.
- Aqui é muito complicado. No Sul do País, onde a colonização é alemã, os colecionadores são muito mais valorizados. Em Salvador, com o apoio do ministro Gilberto Gil, foi criado o primeiro e único museu postal do Brasil. - Qual o motivo que leva o brasileiro a ignorar essas manifestações culturais? - Primeiro, acho que é falta de conhecimento mesmo. E segundo, por falta de cultura. Se as pessoas soubessem o significado que pode conter num pequeno pedaço de papel, elas teriam uma visão diferente. Veja que interessante. De maneira geral, as pessoas sempre colocaram os Estados Unidos como ‘mocinhos’ na Guerra do Vietnã. Entretanto, há o outro lado da história que é revelado através dos cartões enviados pelos vietcongs que quebra a versão vendida pela indústria hollywoodiana que coloca os vietcongs como verdadeiros monstros. Pelos textos dos postais você percebe que eles são jovens comuns, como outros quaisquer, cheios de sonhos, que só estavam defendendo o país deles. - Os colecionadores dizem que a satisfação de encontrar uma peça rara é indescritível. Como é isso para o senhor? - Quando a gente pega, sem querer, por exemplo, uma peça que tem a assinatura do Marechal Deodoro ou do presidente da República, ou ainda uma mensagem de um Carlos Drumond de Andrade, você praticamente perde a voz. Não sei como descrever. É aquela história que eu disse de estar entrando no túmulo de Tutankamon. É uma satisfação muito grande. Portanto, nunca confie em um colecionador. Ele é capaz de fazer qualquer negócio para conseguir um cartão que ele está perseguindo (risos).
- Com relação às cartões de propaganda a produção tem aumentado brutalmente a cada ano. Para você ter uma idéia, em 1989, havia três grandes empresas no Brasil especializadas na produção de postais de propaganda. Hoje temos bem mais de dez. São empresas que editam os chamados free cards. Há trabalhos que são verdadeiras obras de arte. - Para os colecionadores a Internet também tem sido uma parceira interessante. O site postcrossing, criado em 2006 por um estudante português, congrega mais de 21 mil membros de 137 países e movimenta cerca de meio milhão de postais ao ano. Qual é a representatividade do Brasil no “mundo dos postais”? - Eu faço parte da postcrossing que realmente é um fenômeno. Na relação da postcrossing o Brasil é o nono país que mais envia postais. Os maiores colecionadores estão na Bélgica, Alemanha, Estados Unidos, Singapura e Itália. - A produção de postais brasileira é valorizada internacionalmente? - É muito valorizada. Os cartões que eu tenho mandado ultimamente que têm feito bastante sucesso são os cartões da Bahia e da Amazonas. Os colecionadores internacionais estão mais interessados em outras cidades. Rio de Janeiro e São Paulo eles já conhecem demais.
- As editoras nacionais que estão no mercado de cartões de turismo, desses que compramos em bancas, são na verdade comerciantes sem compromisso. Pararam em 1960. Eles fizeram uma série de cartões e só reimprimem. Então você pega um cartão do Teatro Carlos Gomes e vai encontrar um Maverick na frente. Inclusive, recentemente em Vila Velha, apareceu um empresário que começou a editar algumas coisas novas, mas já quebrou. O pessoal daqui não valorizou e acabou não comprando dele. - No Espírito Santo prevalece o turismo comercial. Será que não é por isso que há esse desinteresse? - Pelo contrário. Se vende muito cartão aqui no Estado. No Convento da Penha, por exemplo, se vende cartão a rodo. Na Praia da Costa ou Itaparica há muita procura por cartões turísticos. Há mercado, mas é preciso incrementar e estimular. Eu ouço os turistas reclamando que só encontram cartões velhos aqui no Espírito Santo. . in www.seculodiario.com.br/. . | |||||||||||||
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Sobreiro
Poucos quilómetros a noroeste de Mafra, a caminho da Ericeira, fica uma pequena aldeia, o Sobreiro. De relevante, o facto de conter em si a aldeia de João Franco, à beira da estrada. O Sobreiro nada tem de especial, a não ser as casas antigas mais pequenas do que é habitual. Um casal de velhotes, bem ataviados a caminho das Festas em Honra de S. Sebastião e N.Sra da Saúde, esclarecem-me que as casas são assim porque noutro tempo as pessoas eram pobres e não tinham posses para mais, qualquer barraco servindo para abrigar as orelhas! As ruas estão engalanadas por causa dos festejos e muitas das casas, caiadas de branco, tem barras azuis como as do Alentejo, embora dum tom mais claro. Aliás há muitas casas assim nas povoações circunvizinhas, como a da Ericeira. Nas chaminés de algumas uma cruz, uma lua deitada e uma estrela de cinco pontas. Supunha eu que se tratava da indicação da existência duma qualquer remota comunidade muçulmana e judaica, cristianizada, mas não. São apenas a marca de propriedade de João Franco, o tal da aldeia de brinquedo "encravada" na aldeia de verdade. A aldeia tem muitas casas em ruínas e outras para venda.
Uma música alegre, ao chegar pela estrada vindos de Mafra, faz-me pensar que se trata duma festa religiosa, das muitas que enxameiam o país de Norte a Sul, em Agosto. Mas embora sejam as Festas atrás referidas, de 9 a 17 de Agosto, a música provém dum conjunto de edifícios pequenos, à beira da estrada, reconhecível pela miniatura dum pequeno moinho, de velas rodando. Trata-se da aldeia de João Francoxe "personagens: João Franco, oleiro"§, um artesão oleiro, já velhote, agora especializado em estatuetas de barro, religiosas umas, pagãs outras, elegantes, alegres e bem humoradas.
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A aldeia "preenche" duas funções: "museu",xe "Sobreiro: memória da região saloia"§ com ar de brique à braque, de instrumentos e profissões da região saloia, desaparecidos, e chamariz para a actividade comercial de João Franco, com a sua padaria de pão com chouriço e bolos, as "tascas" e restaurante de comes e bebes e loja de artesanato. Esta não comercializa as obras de João Franco, expostas num pequeno Museu e "presas" pelas ruas e recantos da "aldeia". A loja de artesanato vende artesanato produzido em série, feioso, para pequeno-burguês suburbano, proveniente de todo o país. João Franco, com lentidão, agora sem a ajuda da mulher, Helena, já falecida, satisfaz as encomendas que vai moldando na sua oficina, à vista dos inúmeros visitantes. As estátuas maiores podem custar uns 40 contos e a encomenda leva meses a satisfazer. (Lá em casa tenho uma travessa assinada pelo João Franco, possivelmente pintada por Helena Franco, comprada vai para uns quinze ou vinte anos). No "museu" assinala-se a passagem do escritor brasileiro Jorge Amado e os testemunhos da sua admiração.
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A aldeia em labirinto pretende preservar a memória da região saloia: o castelo, a capelinha de Santo António e as caixas das esmolas dos Santos Populares, o largo com o seu coreto, a nora e a cegonha para extraírem água do poço, e as casinhas das profissões: à entrada o moleiro, o sapateiro, o alfaiate, o barbeiro dentista, cada uma delas com os respectivos instrumentos e objectos de trabalho e adereços. Tal como outras casas, pelas ruas, como as do relojoeiro, da curandeira, do albardeiro, do boticário, do oleiro, entre outras. Uma cozinha, uma adega, onde se pode beber à borla um minúsculo copo de vinho, a escola primária, a casa da Música, um quarto de dormir, o alpendre onde se guardam as carroças de trabalho ou de passeio, a casa do cão, a casa do porco, testemunham tempos passados.
Por toda a aldeia, uma outra curiosidade: em miniaturas, como as cascatas dos Santos ou Presépios Populares, uma aldeia, a beira-mar, o campo e outros, onde correm águas e existem alguns bonecos animados: os dançarinos, a lavadeira, os lenhadores, o pescador, entre outros.
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Uma das casas de banho chama-se... "Casa do Alívio", em cujo átrio existe uma colecção de penicos de cerâmica. Nas muralhas do "castelo" um sino toca mais ou menos continuamente, agitado pela pequenada, para quem também há um pequeno parque infantil junto ao edifício da "escola" primária. A música alegre e saltitante dum bailinho saloio ouve-se continuamente, numa toada em circuito fechado que o correr do tempo torna exasperante. (Notas de Viagem, 1997.08.15)
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Para o crítico de cinema Rubens Edwald Filho, uma das funções do cinema é justamente ''denunciar, discutir e retratar situações e períodos da história. O cinema é um grande veículo de comunicação e é preciso que esse meio relembre o passado'', disse.
Segundo Ewald, o cinema brasileiro cumpriu o seu papel de denunciar e discutir o tema desde o começo do regime, como mostra o filme Desafio (1965), de Paulo Cesar Saraceni.
''O Arnaldo Jabor também fez seu filme durante o período, mas as pessoas não entenderam'', comentou o crítico. Pindorama (1970), de Jabor, não foi censurado, segundo Edwald, porque era de difícil compreensão. ''Se o público entende ou não o recado, é outro ponto de discussão. O importante é que os cineastas brasileiros fizeram sua parte e fizeram, cada um a seu modo, o retrato da história.''
O diretor de cinema Roberto Farias rodou, em 1982, o primeiro longa que tratava abertamente da tortura na ditadura miliar, Pra Frente, Brasil. O cineasta conta que mesmo após 25 anos do lançamento do filme, ele continua presente na memória das pessoas. ''Não fico uma semana sequer sem falar sobre esse filme'', disse.
Farias afirmou também que é convidado para mostrar Pra Frente, Brasil em universidades e sempre conversa com os estudantes após a exibição. ''O que mais escuto dos jovens é que eles não faziam idéia de que a tortura era daquele jeito. O filme cumpriu seu papel e ainda hoje cumpre'', acrescentou.
O cineasta João Batista de Andrade usou a ditadura militar como tema em alguns de seus filmes, entre eles, Vlado - Trinta Anos Depois (2005). Este ano, ele lançará Travessia, que também trata do assunto. Para Andrade, filmes sobre o período são importantes não apenas porque preservam a memória, mas por esclarecer certos aspectos dela.
O cineasta contou que ouviu recentemente de um vizinho que tempos bons eram os da ditadura, quando não tinha violência. ''Dizem que o Brasil sofre de falta de memória, mas muitas vezes há lembranças, só que fantasiosas. Qual a memória que ficou? Esta é uma delas'', disse.
Cao Hamburguer, que dirigiu O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias (2006), também acredita que o cinema é importante para mostrar todos os lados de um mesmo fato. ''Acho importante obras que mostrem o horror desse tipo de regime. A democracia é importante em qualquer época e em qualquer lugar do mundo. As ditaduras todas se parecem, seja qual for a ideologia'', disse.
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Foi em grande parte por se ter inspirado em Malthus que Darwin não pôde compreender o problema humano. É certo que as ideias da concorrência e da luta aplicadas à natureza viva facilitaram a descoberta da selecção natural e do processo fundamental da evolução das espécies. Mas, embora Darwin, contra o que pretendem alguns dos seus detractores, considerasse a "luta pela vida" não apenas a luta de um indivíduo com indivíduos da mesma espécie, mas também e, fundamentalmente, "com indivíduos de espécies diferentes ou com condições físicas de vida"(67), embora considerasse justamente em muitos casos a "concorrência" dentro de uma espécie não como uma guerra, mas como a simples "sobrevivência do mais apto", ou seja, a sobrevivência do mais capaz de resistir ao meio e à luta que lhe movem as outras espécies, ele não pôde sonhar a existência da ajuda mútua entre indivíduos da mesma espécie.
Darwin viveu numa sociedade onde predominava a concorrência e a luta sem tréguas entre classes sociais. Dada a acção da base material das sociedades sobre as respectivas ideologias, compreende-se que, pela sua mão, a "lei" de Malthus, reflectindo essa concorrência e essa luta, tenha estendido a sua aplicação à natureza viva e que a organização social da Inglaterra do século XIX, com as suas ideologias e sentimentos dominantes, se apresente ingenuamente atribuída a animais e plantas. Foi preciso que homens se educassem numa sociedade sem classes para tornar possível a descoberta da ajuda mútua entre os indivíduos de uma mesma espécie, ponto concordante do mundo biológico com essa nova sociedade. E, se algum espanto ou reparo há a fazer, acerca desta descoberta, não é que ela se tenha feito sem factos bastantes em que se apoiar, mas que tenha tardado tanto a fazer-se quando agora se vê que os factos há muito a justificam. Se mesmo no domínio da biologia, a influência malthusiana limitou e prejudicou o seu trabalho, o grande erro de Darwin foi reintroduzir os princípios malthusianos no estudo das sociedades humanas, fortalecidos agora por uma pretensa comprovação na natureza e aparecendo assim como leis, universais e inelutáveis cientificamente aferidas. A concorrência, a luta de classes, o esmagamento violento de algumas camadas da população (fenómenos temporários correspondendo a uma fase do desenvolvimento da sociedade) seriam leis válidas e eternas para todas as espécies, incluindo a humana.
Darwin, a quem se deve a descoberta e provas definitivas da transformação das espécies e da origem animal do homem, não pôde compreender a evolução e transformação das sociedades humanas, das ideologias e dos sentimentos, e do próprio homem depois que emergiu da animalidade. Não pôde compreender que as sociedades, evoluindo por acção do homem, transformam o próprio homem que as faz evoluir.
Com frequência, Darwin insistiu em que "as espécies evoluem em passos muito pequenos"(69), em que a evolução é "um processo extremamente lento"(68), em que a "selecção natural não pode produzir grandes ou repentinas modificações"(70). Não pôde assim compreender como as transformações quantitativas se convertem em qualitativas, e a consequente importância dos saltos bruscos, tanto na evolução no mundo biológico como na evolução das sociedades humanas.
Darwin definiu a selecção natural como a "preservação de diferenças e variações individuais favoráveis e a destruição das que são nocivas"(71), de onde resulta que "todos os dotes corporais e mentais tenderão a progredir para a perfeição"(72). Não pôde, assim, compreender como os progressos em um sentido são retrocessos em outros sentidos e como nas sociedades humanas a selecção, muitas vezes, determina a preservação dos piores e menos aptos.
Darwin defendeu que "as faculdades mentais do homem e dos animais inferiores não diferem em qualidade, embora difiram imensamente em grau"(73), viu nos animais inferiores sensibilidade, ideias, conceitos estéticos e morais semelhantes aos do homem e tomou geralmente como padrão de beleza, de moralidade e até de civismo (padrão para a humanidade e as outras espécies animais) o seu próprio padrão de beleza, moralidade e civismo(74). Não pôde assim compreender que as ideologias são especificamente humanas e determinadas por uma base social material, que numa mesma sociedade não há ideologia uniforme e geral, mas conceitos e sentimentos divergentes, e que a evolução da vida material dos homens determina a evolução da sua vida mental.
Considerando o homem sob o ponto de vista puramente animal, Darwin atribuiu a causas biológicas o atraso de povos de algumas raças, aproximou-os constantemente (tanto nos seus caracteres físicos como intelectuais) dos animais inferiores e foi ao ponto de considerar alguns macacos moralmente superiores aos "selvagens"...(75) Não compreendeu, assim, a existência de razões sociais determinando o atraso desses povos nem as possibilidades actuais de superar esse atraso.
Darwin fez aceitar pela ciência a origem do homem. A sua contribuição foi, a este respeito, decisiva. Mas foi incapaz de vislumbrar que, a partir de certo momento da sua evolução, os caracteres do homem se diferenciaram qualitativamente dos das outras espécies.
A partir do momento em que o homem fabricou instrumentos de trabalho, a sua evolução passou a reger-se por leis diversas das que regem a evolução das outras espécies. O homem deixou de ser apenas uma espécie animal, adaptando-se ao meio e a novas circunstâncias por acção incontrolável da selecção natural. Na sua evolução, o homem não se limita a adaptar-se ao meio; ele adapta o meio a si próprio. "[...] o homem — escreve Marx— age em face da matéria natural como uma força natural. [...] age sobre a natureza exterior, modifica-a e modifica ao mesmo tempo a sua própria natureza."(76) Modificando o meio com um propósito consciente, o homem, na sua luta com a natureza, não se limita a combater e eliminar outras espécies. O homem povoa o mundo com espécies por ele próprio escolhidas e ajuda e orienta a sua selecção. A "luta pela existência" do homem não toma assim apenas o carácter da destruidora e implacável "luta pela vida" de Darwin e Malthus; ela toma, também, o carácter de uma luta construtiva e criadora.
Darwin, que partia da selecção pela domesticação para a selecção natural, que conhecia (como ninguém) as transformações pela selecção, que em alguns casos verificou terem sobrevivido espécies graças apenas à acção do homem, sem a qual soçobrariam na natureza, não soube aí descobrir a afirmação das características específicas da espécie humana. E, embora acreditando no poder seleccionador e transformador do homem sobre outras espécies, apenas considerava a capacidade humana "pelo grande efeito produzido pela acumulação de uma mesma direcção, durante gerações sucessivas, de diferenças absolutamente inapreciáveis para olhos inexperientes"(77). Esta ideia foi ultrapassada pela história. O campo da intervenção modificadora do homem na evolução das espécies animais e vegetais alarga-se dia a dia. Quando nos lembramos de que o visconde de Coruche, justificando o atraso da agricultura, julgou ter encontrado argumento irrespondível e definitivo ao referir que "não é possível produzir hoje cereais, linho, lã, uvas, batatas ou laranjas em menos tempo do que em outras eras"(78), não podemos deixar de sorrir, porque a vida deu já um desmentido literal à fraca ironia do visconde.
O poder do homem permite-lhe construir o seu próprio futuro. Não há qualquer lei natural, quaisquer razões biológicas ou técnicas que limitem o ritmo da produção das subsistências. Esse ritmo depende apenas da acção do homem. De há muito o homem dispõe de meios técnicos capazes de inverter as progressões nos dois termos da "lei" de Malthus.
Com métodos rudimentares, apenas à custa de trabalho e da sua imaginação criadora, pôde o povo português transformar, em vastas regiões, a fisionomia agrícola de Portugal. Nas encostas nuas do Douro ergueu essa monumental escadaria onde hoje se exibem os vinhedos que dão do melhor vinho do mundo. Nas íngremes vertentes e nos vales apertados do Minho, de Trás-os-Montes, da Beira, da Estremadura, foi também dispondo e segurando em socalcos terra trazida à força de braços e foi buscar às entranhas da terra água para fazer verdejar jardins. Desde o canteiro minúsculo ao retalho rendoso, solo fértil surgiu onde ontem existiam apenas penedias. Terras minhotas, naturalmente pobres, tornaram-se terras ricas pela rega e estrumagens. Nas areias safaras da Gafanha ou da Póvoa ou nas dunas das Caldas, com adubações intensas de caranguejo, de sargaços, de moliço, nasceram belas hortas. Nas serras mais pedregosas — na Estrela, na de Aire, em tantas outras — das fendas da pedra brotaram olivais ou, nos ásperos declives, manchas lavradas. Nas charnecas alentejanas e na borda do Tejo, os seareiros romperam os matagais e obrigaram a terra a dar pão. Nos "foros" de Almeirim, Mugem, Salvaterra, culturas viçosas surgiram como oásis em campos de areia. Na generalidade dos casos, todo esse esforço gigantesco, realizado com a miragem de uma vida desafogada, revelou-se uma ilusão para os seus autores. Uns semearam, outros colheram. Mas esse esforço evidencia o poder do homem, evidencia como o homem pode impor e impõe à natureza uma direcção, como pode arrancar e arranca da terra as subsistências que ela por si só recusa, como pode modificar e modifica a terra, as espécies vivas, a paisagem. E se isto pôde fazer o nosso povo à força de braço e de imaginação, mas apegado a recursos velhos de séculos, o que não poderá ele fazer ganhando para o seu serviço a ciência e a técnica modernas?
Quando nos dizem e repetem ser Portugal país pobre, de solo fraco, de terreno acidentado e pedregoso, de clima irregular, e quando assim pretendem amarrar o povo português a um irremediável destino de miséria — nós respondemos que não só o nosso país tem raras e favoráveis aptidões agrícolas, como pode o nosso povo transformá-lo num verdadeiro jardim da Europa à beira-mar, que só o é no entender dos poetas.
Centenas de milhares de hectares no Alentejo, nos incultos e nas terras áridas sem fim podem encher-se de campos vicejantes com águas levadas das bacias do Tejo e do Guadiana ou arrancadas aos lençóis subterrâneos. Os rios podem ser dominados e disciplinados, dando rega e energia, em vez de enxurradas e cheias devastadoras, alternando com secas. Grandes manchas de floresta podem levantar--se em montes descarnados, em areias nuas, em terrenos pantanosos, também junto às linhas de água, dando novos meios de vida, formando cortinas de protecção contra os ventos prejudiciais e contra as areias e torrentes, aumentando a capacidade de absorção de humidade pelos solos, diminuindo o escoamento e a evaporação, facilitando a condensação do vapor de água da atmosfera, defendendo o solo da erosão, dando até melhor ar para o homem respirar e paisagem mais bela para alegria dos olhos.
A oliveira e a nogueira, os freixos e ulmos, o eucalipto e a acácia tornarão ricas e acolhedoras zonas hoje desérticas. A arborização de cumes rochosos de onde as torrentes trazem marés de areia salvará magníficos terrenos de aluvião da ameaça agora iminente da ruína e da esterilidade. A regulamentação do regime das águas abundantes das Beiras oferecerá prados onde se multiplicará o gado. A defesa das cheias, o enxugo, a drenagem, darão produtividade insuspeitada aos aluviões do Mondego e dos seus afluentes, às margens do Lis, às baixas dos afluentes do Tejo, particularmente do Sorraia, assim como aos "focos miasmáticos e palustres" do sul do Tejo. Os ricos fundos dos pauis e brejos numerosos podem ser roubados às águas estagnadas. Pela defesa das marés, o dessalgamento, a drenagem e a irrigação podem tornar-se fertilíssimos os aluviões marítimos e fluviais do Algarve e os vastos sapais do Ribatejo, ilhotas e esteiros no delta do Vouga e podem ser libertados da esterilidade.
Podem fabricar-se solos ricos das terras pobres. Podem escolher-se, seleccionar-se e criar-se os tipos de plantas mais apropriados ao meio português, ou, mais exactamente, aos diversos meios portugueses. Podem obter-se plantas mais rendosas e também animais mais rendosos: podem apressar-se os prazos de maturação das plantas e de desenvolvimento dos animais. Uma planificação da agricultura permitirá um melhor aproveitamento do solo nacional. Com as máquinas e a técnica ao seu serviço, o trabalho será menos penoso e renderá incomparavelmente mais.
Haverá mais fartura nos lares e sairá do que se produz para a compra do que se necessita.
Temos no nosso próprio país todo um novo país a conquistar, um país mais fértil e até mais belo. Temos todas as condições naturais para uma vida desafogada para todos os portugueses. Que se chame a isto um sonho: são legítimos os sonhos de quem dá a vida para realizá-los. Mas não, não é apenas um sonho. Acrescentando-se à simples consideração dos factos nacionais, o triunfo do socialismo em grande parte do mundo dá a certeza de que tal sonho será realizado.
Se já no século XIX alguém pôde dizer ter o homem modificado de tal forma a natureza que "os efeitos da sua actividade não podem desaparecer senão com a morte geral do planeta"(79), seguindo o mesmo pensamento os mitchurianos, seguros do carácter material da vida, puderam demonstrar no século XX ser possível "obrigar cada variedade de animais ou vegetais a desenvolver-se e a modificar--se mais rapidamente e no sentido favorável ao homem". Sendo o homem guiado pela máxima de que não podemos esperar as dádivas da natureza, antes é necessário arrancar-lhas, não é possível prever quaisquer limites a essa criadora intervenção humana.
Não há qualquer lei natural, quaisquer razões biológicas ou técnicas, qualquer fraqueza de espécie humana, que forcem a agricultura ao atraso. Apenas factores sociais a isso a obrigam.
Notas:
(67) The Origin of Species by Means of Natural Selection or the Preseruation of Favored Races in the Struggle for Life, Ed. The Modern Library, New York, III, p. 53.
(68) Ibid., VII, p. 182.
(69) Ibid., X, p. 249.
(70) Ibid., XV, p. 351.
(71) Ibid., IV, p. 64.
(72) Ibid., Conclusão, p. 373.
(73) The Descent of Man and Selection in Relation to Sex, Ed. The Modern Library, VI, p. 513.
(74) Ibid., III, pp. 467-468; VIII, pp. 570-571; XIII, p. 697; IV, pp. 480-481; V, p. 498; etc.
(75) Ibid., Conclusão, pp. 919-920.
(76) Marx, O Capital, t. 1, 3.ª secção, V, 1.
(77) The Origin of Species, 1, p. 30.
(78) Visconde de Coruche, A Agricultura e o País, p. 7.
(79) Engels, Dialéctica da Natureza, Introdução.
In «Contribuição para o Estudo da Questão Agrária», Edições «Avante!», 1976, Vol. 1, págª 125-132
Transcrito de AQUI
Para Ler:
adaptado de um e-mail enviado pelo Raimundo e pelo Jorge