Discurso de Lula da Silva (excerto)

___diegophc

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Bom fim de semana



Richard Clayderman - Matrimonio de amor
.
.
Pufix

Para: Victor
Assunto: Bom Fim de Semana! Bjs.
Data:
17/Abr 15:54

Desejo que tenha uma agradável Sexta-feira!

http://www.trilulilu.ro/Pufix/31c9ba6dedd3ed


Enviado por Gioconda do Porto (hi5)
.

Vezi mai multe video Diverse »
.
.

Postais Ilustrados . História e Colecionismo


Vitória (ES), edição de fim de semana


‘O domínio da cultura geral é uma
característica marcante do colecionador’

Conhecer a história é o grande segredo






José Rabelo


- Os cartões-postais ‘usados’ possuem maior valor agregado se comparado aos ‘virgens’?

- Com certeza. Nós chamamos de cartões circulados e não circulados. Os circulados, de cara, já agregam o valor do selo. E depois a história. Por exemplo, passou um cartão na minha mão de 1900, do Rio de Janeiro – que infelizmente não consegui adquirir –, que o sujeito manda para o dono de um bar com o seguinte texto: ‘Por favor, me envie 10 cervejas claras e duas escuras, para o endereço de sempre, logo após violento esporte bretão’. Isso é uma coisa histórica. Revela o jeito de falar do povo.


Vietcongs
- Acho que uma das coisas mais interessantes dos cartões circulados são essas histórias que eles trazem. Devem aparecer informações curiosas, não?

- Sim. Por exemplo, há um cartão endereçado por Adolf Hitler que no final ele deixa uma mensagem: ‘Para você, com carinho, Adolf!’. Para mim foi inesperado. Não imaginava que Hitler tivesse esse lado mais sentimental. Esse cartão foi comercializado recentemente nos Estados Unidos por 1,5 mil dólares.

- Como se desenvolveu o mercado publicitário de cartões?

- Os cartões publicitários começaram a se tornar colecionáveis na década de 90. Embora, eles existam desde o início. Já eram usadom para divulgar produtos como cigarros, sabonetes, águas-de-colônia etc. No começo, como não havia ainda a fotografia, eles utilizavam imagens de obras de arte para confeccionar os cartões. Por esse motivo esses cartões têm um bom valor de mercado.

- O colecionar Antônio Miranda, bastante conhecido no meio, disse que o verdadeiro colecionador não pensa em ganhar dinheiro com sua coleção. O senhor concorda?

- O verdadeiro colecionador não faz nada pensando e ganhar dinheiro depois. Eu por exemplo não vendo meus cartões. Só se eu tiver dois, até por uma questão solidária com um outro colecionador.

- Os governantes brasileiros vêem a coleção de postais como arte? Há algum incentivo?

- Infelizmente não. Eu tentei contato com os prefeitos de Vitória, Vila Velha e até com o governador. Na verdade, eu queria doar minha coleção para fazer uma espécie de museu do postal aqui no Espírito Santo. Mas não há interesse. Eu queria abrir o acervo ao público para que as pessoas entendessem melhor o significado cultural dos cartões. Gostaria de promover concursos de fotografia para produzir postais. Meu interesse com isso não é de ganhar dinheiro. Eu costumo vender postais de publicidade para colecionadores de outros países para levantar capital para investir na minha coleção. O que ganho com a coleção invisto na coleção.


Panzer alemão emboscado e destruído pelos partizans da Resistance no dia da libertação de Paris (2ª Grande Guerra)
- Na Europa e nos Estados Unidos os colecionadores de cartões são muito valorizados e respeitados pela importante contribuição que eles agregam à cultura. Estamos bem distantes dessa realidade, não é?

- Aqui é muito complicado. No Sul do País, onde a colonização é alemã, os colecionadores são muito mais valorizados. Em Salvador, com o apoio do ministro Gilberto Gil, foi criado o primeiro e único museu postal do Brasil.

- Qual o motivo que leva o brasileiro a ignorar essas manifestações culturais?

- Primeiro, acho que é falta de conhecimento mesmo. E segundo, por falta de cultura. Se as pessoas soubessem o significado que pode conter num pequeno pedaço de papel, elas teriam uma visão diferente. Veja que interessante. De maneira geral, as pessoas sempre colocaram os Estados Unidos como ‘mocinhos’ na Guerra do Vietnã. Entretanto, há o outro lado da história que é revelado através dos cartões enviados pelos vietcongs que quebra a versão vendida pela indústria hollywoodiana que coloca os vietcongs como verdadeiros monstros. Pelos textos dos postais você percebe que eles são jovens comuns, como outros quaisquer, cheios de sonhos, que só estavam defendendo o país deles.

- Os colecionadores dizem que a satisfação de encontrar uma peça rara é indescritível. Como é isso para o senhor?

- Quando a gente pega, sem querer, por exemplo, uma peça que tem a assinatura do Marechal Deodoro ou do presidente da República, ou ainda uma mensagem de um Carlos Drumond de Andrade, você praticamente perde a voz. Não sei como descrever. É aquela história que eu disse de estar entrando no túmulo de Tutankamon. É uma satisfação muito grande. Portanto, nunca confie em um colecionador. Ele é capaz de fazer qualquer negócio para conseguir um cartão que ele está perseguindo (risos).


Villa Moscoso (Vitória)
- Com a internet a circulação de cartões aumentou ou diminuiu?

- Com relação às cartões de propaganda a produção tem aumentado brutalmente a cada ano. Para você ter uma idéia, em 1989, havia três grandes empresas no Brasil especializadas na produção de postais de propaganda. Hoje temos bem mais de dez. São empresas que editam os chamados free cards. Há trabalhos que são verdadeiras obras de arte.

- Para os colecionadores a Internet também tem sido uma parceira interessante. O site postcrossing, criado em 2006 por um estudante português, congrega mais de 21 mil membros de 137 países e movimenta cerca de meio milhão de postais ao ano. Qual é a representatividade do Brasil no “mundo dos postais”?

- Eu faço parte da postcrossing que realmente é um fenômeno. Na relação da postcrossing o Brasil é o nono país que mais envia postais. Os maiores colecionadores estão na Bélgica, Alemanha, Estados Unidos, Singapura e Itália.

- A produção de postais brasileira é valorizada internacionalmente?

- É muito valorizada. Os cartões que eu tenho mandado ultimamente que têm feito bastante sucesso são os cartões da Bahia e da Amazonas. Os colecionadores internacionais estão mais interessados em outras cidades. Rio de Janeiro e São Paulo eles já conhecem demais.



- Como é o mercado de cartões aqui no Espírito Santo. Outro dia eu estava em uma banca grande de jornais na Praia do Canto (Vitória) e não havia um único postal. Por que esse desinteresse?

- As editoras nacionais que estão no mercado de cartões de turismo, desses que compramos em bancas, são na verdade comerciantes sem compromisso. Pararam em 1960. Eles fizeram uma série de cartões e só reimprimem. Então você pega um cartão do Teatro Carlos Gomes e vai encontrar um Maverick na frente. Inclusive, recentemente em Vila Velha, apareceu um empresário que começou a editar algumas coisas novas, mas já quebrou. O pessoal daqui não valorizou e acabou não comprando dele.

- No Espírito Santo prevalece o turismo comercial. Será que não é por isso que há esse desinteresse?

- Pelo contrário. Se vende muito cartão aqui no Estado. No Convento da Penha, por exemplo, se vende cartão a rodo. Na Praia da Costa ou Itaparica há muita procura por cartões turísticos. Há mercado, mas é preciso incrementar e estimular. Eu ouço os turistas reclamando que só encontram cartões velhos aqui no Espírito Santo.
.
in
www.seculodiario.com.br/.../10_11_02.asp
.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Morreu João Franco, oleiro



Esculturas de João Franco na Aldeia do Sobreiro (fotos de Victor Nogueira)


.
clicar nas imagens para ler
.

Sobreiro


Poucos quilómetros a noroeste de Mafra, a caminho da Ericeira, fica uma pequena aldeia, o Sobreiro. De relevante, o facto de conter em si a aldeia de João Franco, à beira da estrada. O Sobreiro nada tem de especial, a não ser as casas antigas mais pequenas do que é habitual. Um casal de velhotes, bem ataviados a caminho das Festas em Honra de S. Sebastião e N.Sra da Saúde, esclarecem-me que as casas são assim porque noutro tempo as pessoas eram pobres e não tinham posses para mais, qualquer barraco servindo para abrigar as orelhas! As ruas estão engalanadas por causa dos festejos e muitas das casas, caiadas de branco, tem barras azuis como as do Alentejo, embora dum tom mais claro. Aliás há muitas casas assim nas povoações circunvizinhas, como a da Ericeira. Nas chaminés de algumas uma cruz, uma lua deitada e uma estrela de cinco pontas. Supunha eu que se tratava da indicação da existência duma qualquer remota comunidade muçulmana e judaica, cristianizada, mas não. São apenas a marca de propriedade de João Franco, o tal da aldeia de brinquedo "encravada" na aldeia de verdade. A aldeia tem muitas casas em ruínas e outras para venda.


Uma música alegre, ao chegar pela estrada vindos de Mafra, faz-me pensar que se trata duma festa religiosa, das muitas que enxameiam o país de Norte a Sul, em Agosto. Mas embora sejam as Festas atrás referidas, de 9 a 17 de Agosto, a música provém dum conjunto de edifícios pequenos, à beira da estrada, reconhecível pela miniatura dum pequeno moinho, de velas rodando. Trata-se da aldeia de João Francoxe "personagens: João Franco, oleiro"§, um artesão oleiro, já velhote, agora especializado em estatuetas de barro, religiosas umas, pagãs outras, elegantes, alegres e bem humoradas.

.

A aldeia "preenche" duas funções: "museu",xe "Sobreiro: memória da região saloia"§ com ar de brique à braque, de instrumentos e profissões da região saloia, desaparecidos, e chamariz para a actividade comercial de João Franco, com a sua padaria de pão com chouriço e bolos, as "tascas" e restaurante de comes e bebes e loja de artesanato. Esta não comercializa as obras de João Franco, expostas num pequeno Museu e "presas" pelas ruas e recantos da "aldeia". A loja de artesanato vende artesanato produzido em série, feioso, para pequeno-burguês suburbano, proveniente de todo o país. João Franco, com lentidão, agora sem a ajuda da mulher, Helena, já falecida, satisfaz as encomendas que vai moldando na sua oficina, à vista dos inúmeros visitantes. As estátuas maiores podem custar uns 40 contos e a encomenda leva meses a satisfazer. (Lá em casa tenho uma travessa assinada pelo João Franco, possivelmente pintada por Helena Franco, comprada vai para uns quinze ou vinte anos). No "museu" assinala-se a passagem do escritor brasileiro Jorge Amado e os testemunhos da sua admiração.

.

A aldeia em labirinto pretende preservar a memória da região saloia: o castelo, a capelinha de Santo António e as caixas das esmolas dos Santos Populares, o largo com o seu coreto, a nora e a cegonha para extraírem água do poço, e as casinhas das profissões: à entrada o moleiro, o sapateiro, o alfaiate, o barbeiro dentista, cada uma delas com os respectivos instrumentos e objectos de trabalho e adereços. Tal como outras casas, pelas ruas, como as do relojoeiro, da curandeira, do albardeiro, do boticário, do oleiro, entre outras. Uma cozinha, uma adega, onde se pode beber à borla um minúsculo copo de vinho, a escola primária, a casa da Música, um quarto de dormir, o alpendre onde se guardam as carroças de trabalho ou de passeio, a casa do cão, a casa do porco, testemunham tempos passados.


Por toda a aldeia, uma outra curiosidade: em miniaturas, como as cascatas dos Santos ou Presépios Populares, uma aldeia, a beira-mar, o campo e outros, onde correm águas e existem alguns bonecos animados: os dançarinos, a lavadeira, os lenhadores, o pescador, entre outros.

.

Uma das casas de banho chama-se... "Casa do Alívio", em cujo átrio existe uma colecção de penicos de cerâmica. Nas muralhas do "castelo" um sino toca mais ou menos continuamente, agitado pela pequenada, para quem também há um pequeno parque infantil junto ao edifício da "escola" primária. A música alegre e saltitante dum bailinho saloio ouve-se continuamente, numa toada em circuito fechado que o correr do tempo torna exasperante. (Notas de Viagem, 1997.08.15)

.
.

Homenagem a Anna Magnani

.

.
.






Enviado por Guilhermina Abreu (hi5)
.
.

Brasil - 45 anos do golpe: o papel do cinema pelo resgate da memória

.


O cinema brasileiro vem assumindo papel importante na preservação da memória dos fatos ocorridos durante a ditadura militar, iniciada em 1964. Nos últimos 15 anos, filmes como Lamarca (1994), O Que É Isso, Companheiro (1997), Araguaia, a Cospiração do Silêncio (2002) e Batismo de Sangue (2007 ) recuperaram histórias que marcaram o período mais difícil da ditadura.


Para o crítico de cinema Rubens Edwald Filho, uma das funções do cinema é justamente ''denunciar, discutir e retratar situações e períodos da história. O cinema é um grande veículo de comunicação e é preciso que esse meio relembre o passado'', disse.

Segundo Ewald, o cinema brasileiro cumpriu o seu papel de denunciar e discutir o tema desde o começo do regime, como mostra o filme Desafio (1965), de Paulo Cesar Saraceni.

''O Arnaldo Jabor também fez seu filme durante o período, mas as pessoas não entenderam'', comentou o crítico. Pindorama (1970), de Jabor, não foi censurado, segundo Edwald, porque era de difícil compreensão. ''Se o público entende ou não o recado, é outro ponto de discussão. O importante é que os cineastas brasileiros fizeram sua parte e fizeram, cada um a seu modo, o retrato da história.''

O diretor de cinema Roberto Farias rodou, em 1982, o primeiro longa que tratava abertamente da tortura na ditadura miliar, Pra Frente, Brasil. O cineasta conta que mesmo após 25 anos do lançamento do filme, ele continua presente na memória das pessoas. ''Não fico uma semana sequer sem falar sobre esse filme'', disse.

Farias afirmou também que é convidado para mostrar Pra Frente, Brasil em universidades e sempre conversa com os estudantes após a exibição. ''O que mais escuto dos jovens é que eles não faziam idéia de que a tortura era daquele jeito. O filme cumpriu seu papel e ainda hoje cumpre'', acrescentou.

O cineasta João Batista de Andrade usou a ditadura militar como tema em alguns de seus filmes, entre eles, Vlado - Trinta Anos Depois (2005). Este ano, ele lançará Travessia, que também trata do assunto. Para Andrade, filmes sobre o período são importantes não apenas porque preservam a memória, mas por esclarecer certos aspectos dela.

O cineasta contou que ouviu recentemente de um vizinho que tempos bons eram os da ditadura, quando não tinha violência. ''Dizem que o Brasil sofre de falta de memória, mas muitas vezes há lembranças, só que fantasiosas. Qual a memória que ficou? Esta é uma delas'', disse.

Cao Hamburguer, que dirigiu O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias (2006), também acredita que o cinema é importante para mostrar todos os lados de um mesmo fato. ''Acho importante obras que mostrem o horror desse tipo de regime. A democracia é importante em qualquer época e em qualquer lugar do mundo. As ditaduras todas se parecem, seja qual for a ideologia'', disse.


Agência Brasil
.
in Vermelho -
1 DE ABRIL DE 2009 - 14h39
.
.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Filatelia - Flores da Primavera (Jersey)


.
clicar na imagem para aumentar
.
.

Filatelia - Meios de Transporte (Jersey)

.
clicar na imagem para aumentar
.
.

Sobre Darwin e o darwinismo - Reflexão crítica de Álvaro Cunhal


Exemplo dos bicos de tentilhões de Galápagos.
.



.

Sobre Darwin e o darwinismo
Reflexão crítica de Álvaro Cunhal


As notas sobre a obra de Darwin, hoje republicadas no Avante!, são mais uma pequena ilustração de um facto incontestável: Álvaro Cunhal foi um notável intelectual. Além das qualidades exemplares como organizador e dirigente político, como teórico marxista-leninista e analista da situação concreta portuguesa, nas suas múltiplas vertentes (económica, social e política), exprimiu também as suas qualidades humanas através da produção artística, como são exemplos a sua arte plástica e escrita criativa. Apesar das suas raízes familiares burguesas e sua formação académica em Direito, enquanto militante do PCP (a partir de 1931, com 17 anos) aprofundou uma ligação estreita com os trabalhadores e o povo português, condição indispensável para conhecer as carências e aspirações mais profundas do nosso povo, o que veio a justificar inteiramente a sua auto-caracterização, em 1950, durante o seu julgamento perante o tribunal plenário, como «filho adoptivo da classe operária».

Manteve porém sempre a sua natureza de intelectual, de estudo constante, de uma curiosidade sem limites. Era capaz de conversar em detalhe tanto sobre formas de rega como de design finlandês. E mesmo nas condições mais austeras procurava sempre aprofundar o seu conhecimento intelectual. As notas sobre a obra de Darwin foram publicadas após a sua terceira passagem pelas prisões fascistas (foi preso em 1949), quando ainda na Cadeia Penitenciária de Lisboa, e antes da sua transferência para a Cadeia do Forte de Peniche, donde se veio a evadir, juntamente com outros presos, na épica fuga de 1960. Alí, teve oportunidade de ler e estudar mais atentamente as duas obras fundamentais de Charles Darwin, nos seus títulos completos: Sobre a Origem das Espécies por Meio da Selecção Natural, ou A Preservação das Raças Favorecidas na Luta pela Sobrevivência (1859) e a Descendência do Homem, e a Selecção em Relação ao Sexo (1871).
Não era a primeira vez que lia Darwin. Já na sua tese final na Faculdade de Direito Aborto, Causas e Soluções (em 1940) (i) – mais uma ilustração do seu humanismo e capacidade de antecipar o tratamento de temas determinantes, neste caso para a condição feminina – Cunhal faz referência a Darwin e aos panfletos sobre os princípios da população humana do Rev. Thomas Malthus, que inspiraram Darwin a desenvolver a teoria da selecção natural. Não fossem as condições adversas em que Cunhal estudou as obras de Darwin já suficientes motivos de admiração, há que acrescentar dois elementos adicionais que fazem da atenção dada a Darwin ainda mais reveladoras do seu espírito intelectual.
Por um lado, durante a primeira metade do século XX, Darwin foi uma figura relativamente relegada. Durante a sua vida, tinha sido uma figura de referência, e as suas obras eram alvo de grande atenção e debate, em particular a sua teoria de evolução (por oposição à ideia conservadora de criação independente das espécies). Ainda durante a sua vida, as suas ideias foram apropriadas por várias figuras políticas, para justificar e dar fundamento natural ao individualismo e competição promovidos pela burguesia industrial ascendente. Mas após a morte de Darwin, em 1881, embora a evolução se tivesse estabelecido, a influência da Origem e das restantes teorias aí enunciadas, incluindo a teoria da selecção natural, perderam influência, e outras escolas de pensamento dominaram, incluindo escolas que reintegraram a teleologia e o progresso na visão de evolução (ideias rejeitadas por Darwin).

Perspectiva dialéctica

No início do século XX, foram redescobertas as experiências de Gregor Mendel, e o mendelismo – ou a evolução por meio de mutações – tornou-se uma área de intensa investigação científica. Isto é, a biologia e o pensamento evolutivo encontrava-se profundamente dividido e fragmentado. Só na década de 1940 começou a ganhar raízes uma visão mais integradora da biologia (a Síntese Moderna), sintetizando a evolução darwinista de evolução por selecção natural, a paleontologia, a sistemática e a área mais recente da genética (ii). E só em 1959, quando foi comemorado o centenário da Origem, é que as ideias de Darwin voltaram a ser discutidas de forma mais generalizada.
Por outro lado, na URSS, pátria do socialismo e referência para qualquer comunista, a figura mais influente no campo da biologia durante a década de 1930-40 foi Trofim Lysenko, que rejeitava a genética mendeliana e a evolução darwiniana, defendendo antes ideias neo-lamarckianas, em particular a herança de características adquiridas. A influência de Lysenko teve efeitos dramáticos sobre o avanço da ciência agrícola soviética, e foi responsável, na URSS, por um considerável atraso científico na área da Biologia.
Apesar deste contexto, Cunhal, na prisão, na condição de isolamento prolongado, leu Darwin e foi capaz de reconhecer a sua importância científica, criticando inclusivamente a falta em Portugal da sua discussão mais alargada e do seu ensino (que se encontra hoje novamente em condição empobrecida: a evolução biológica do ser humano não é tratada nos actuais programas curriculares). Cunhal faz mesmo uso presciente de uma metáfora («só é possível o estudo da biologia iluminado pela ideia de evolução») que constitui o título de um artigo científico de Dobzhansky (de 1973) – «Nada em Biologia faz sentido excepto à luz da Evolução» (iii) – que hoje é frequentemente citado e parafraseado. Cunhal salienta também as limitações do tratamento de Darwin relativamente ao Homem social. Darwin, porém, não pretendeu nos seus estudos abordar esta componente social. Embora Darwin se tenha manifestado intrigado pelo social noutras espécies (caso das formigas e abelhas), não logrou encontrar uma explicação para comunidades sociais animais, que só nos anos 1960-70 veio a ser melhor entendida do ponto de vista biológico. Em Contribuição para o Estudo da Questão Agrária, publicado em 1966 (iv), Cunhal acusa Darwin de ter «reintroduzi[do] os princípios malthusianos no estudo das sociedades humanas». Porém, esta falácia naturalista não foi cometida por Darwin, mas antes por outros, com ambições políticas, que se apropriaram das ideias darwinistas e desenvolveram o chamado «Darwinismo Social», caso de Herbert Spencer, e fundaram movimentos eugénicos, que assumiram grande influência no início do séc. XX. É certo que Darwin se inspirou nos trabalhos de Malthus (tal como veio a suceder com Alfred Wallace, co-descobridor da teoria da selecção natural), mas Darwin recolhia inspirações de múltiplas fontes, aproveitando ideias para as aplicar no seu tema de interesse: a adaptação e diversidade biológica. É impreciso pensar em Darwin como um subscritor das ideias políticas de Malthus, cujos trabalhos eram efectivamente panfletos políticos contra o apoio social do Estado às massas empobrecidas. Na verdade, a competição por recursos limitados não é sequer condição necessária para a actuação da selecção natural. Trata-se de um caso particular, destacado por Malthus, que permitiu a Darwin inferir um processo mais geral. O sublinhar do papel da competição deve-se mais aos que se apropriaram da onda darwiniana para fins políticos. Tão pouco será correcto historicamente dizer que Darwin desprezava os «selvagens» da Tierra del Fuego ou era racista. Darwin pertencia a uma família anti-esclavagista, e ficou profundamente impressionado pelo tratamento dos escravos no Brasil e pelas condições extremas dos Fueginos, regressando da viagem no Beagle mais convencido de que todas as «raças» pertenciam à mesma espécie, e portanto todas teriam direito à sua emancipação (v).
Cunhal sublinha na sua análise «a incapacidade [de Darwin] para compreender que as transformações quantitativas se convertem em qualitativas». Darwin efectivamente propunha uma visão gradual da evolução, à semelhança das transformações geológicas graduais propostas por Lyell. Cunhal faz uma crítica ao gradualismo, aplicando a sua formação marxista-leninista, que veio na segunda metade do século XX a ser defendida por um biólogo evolutivo, também marxista: Stephan Jay Gould e a teoria do pontualismo. Efectivamente, há evidências crescentes de que pequenas modificações genéticas podem dar azo a significativas alterações nas características individuais, e a alterações qualitativas na evolução.
Por não consistir parte do seu objecto de estudo, por limitações da sua origem burguesa, ou por mero receio, Darwin não aplicou o seu materialismo histórico à evolução social do Homem. Felizmente houve quem o tenha feito. No funeral de Marx, em 1883, Engels proclamou que «tal como Darwin descobriu a lei da evolução na natureza orgânica, assim Marx descobriu a lei da evolução na história humana.» Não devemos porém cair no erro de pensar que em dado momento o processo de evolução orgânica humano terminou, o homem se libertou da sua história biológica e entrou numa fase em que apenas passaram a actuar as leis sociais do materialismo histórico. O ser humano é um biológico e social e, tanto as leis marxistas como as darwinianas, de modo dialético, continuam a influenciar a sua história.

André Levy
_____________________

i) Reproduzido nas Obras Escolhidas de Álvaro Cunhal, 1935-1947, Tomo I. (2007) Edições Avante!

ii) Sobre a história da biologia evolutiva após a morte de Darwin até aos nossos dias, vejam a introdução de Evolução: Conceitos e Debates (2009) Esfera do Caos.

iii) Publicada em português em Evolução: História e argumentos (2008) Esfera do Caos.

iv) Disponível na internet em http://www.marxists.org/portugues/cunhal/ano/agraria/

v) Ver o livro recente Darwin's Sacred Cause: How a Hatred of Slavery Shaped Darwin's Views on Human Evolution, (2009) de Adrian Desmond e James Moore, Houghton Mifflin Harcourt.

6 de Outubro de 1951
[Sobre a obra de Darwin]1


Devolvida carta com indicação de não poder seguir nada do que nela dizia acerca da obra de Darwin (e seria «ciência comunista»!)

«Tenho estado a fazer uma revisão geral das duas grandes obras de Darwin a fim de ordenar em apontamentos algumas ideias fundamentais. Não só me foi muitíssimo útil esta leitura – dum modo geral pelo que aprendi e, em particular, por me permitir um mais completo esclarecimento de um problema em estudo para o ensaio sobre a questão agrária que estou preparando – como me deu profundo prazer. Se é certo que na Descendência do Homem, várias centenas de páginas sobre os «caracteres sexuais secundários» em todas as classes do reino animal se tornam por vezes (só por vezes) um tanto pesadas, há tanto nesta obra como principalmente na Origem algumas conquistas definitivas da ciência e tudo o resto (mesmo quando não é acertado) é extremamente educativo e chega a ser entusiasmante. Contudo, quando se lêem alguns livros escritos e publicados no século XX e quando se ouvem certos conferencistas e outros discursadores, dir-se-ia que Darwin nunca existiu, que nunca foi escrita a Origem das Espécies e que o grande passo dado pela biologia no século XIX continua por dar em grande parte do mundo. Há muito se faz uma verdadeira campanha de silêncio sobre a obra de Darwin. Nos laboratórios e no domínio da técnica aproveita-se os seus resultados práticos. Mas em público nega-se as suas ideias teóricas. Não me recordo de ter ouvido o seu nome nos bancos das escolas, nem me consta que haja referência à selecção natural e à evolução das espécies nos livros de «ciências naturais» para estudos secundários. Compreende-se uma tal campanha de silêncio. O evolucionismo nas ciências biológicas (assim como na geologia), além de tudo quanto afirma e implica acerca da origem do homem e do mundo, traz consigo (embora contra a intenção de Darwin) a ideia particularmente indesejável de que também as sociedades humanas evoluem, também nas sociedades humanas nada há de permanente e eterno. Lyell, que descobriu a evolução geológica, duvidou longos anos da evolução das espécies. Darwin, que descobriu a forma da evolução das espécies, nunca compreendeu a evolução do homem e das sociedades humanas. E, contudo, estas conquistas, no domínio da geologia, da biologia e da sociologia, não são de forma alguma divergentes. Mas Lyell só cerca dos 70 anos e contra os seus próprios sentimentos e crenças se rendeu à evidência dos factos e aceitou o transformismo. E Darwin não pôde sair de um grande número de limitações que lhe tolhiam a investigação acerca do homem, não na sua estrutura física (em que foi mestre), mas na sua vida social e na sua actividade intelectual. Respondendo a um autor que lhe oferecera uma obra fundamental de economia política, Darwin escrevia ser apenas um naturalista e nada perceber dessas questões… (2) A resposta não foi sincera, pois Darwin bebera em Malthus a sua Struggle for life e a sua «selecção natural». Mas essa resposta explica a sua impossibilidade de ver além do acanhado horizonte do seu extracto. Daí ter considerado a evolução do homem no ponto de vista exclusivamente biológico como se nela não interviesse fundamentalmente a vida social. Daí ter considerado as super-estruturas ideológicas como de natureza puramente animal (e não de origem social) e ter não só aproximado (como seria legítimo), mas identificado as emoções e os sentimentos humanos como os das outras espécies animais. Daí ter aceitado a existência de conceitos universais e imperecíveis como do belo, do justo e do bom. Daí a sua aproximação de certas raças humanas com os animais inferiores não compreendendo as razões do seu atraso e as possibilidades actuais de o superar. Daí a sua incapacidade para compreender que as transformações quantitativas se convertem em qualitativas e a consequente evolução por saltos bruscos, tanto no campo biológico como no social. Daí o seu desprezo pelos «selvagens», o seu racismo, o seu antifeminismo, o seu espírito marcadamente britânico e whig. Só ideólogos de um novo e ascendente extracto poderiam e puderam romper essas limitações, vencer essas dificuldades e resolver o problema da evolução do homem como evolução distinta (a partir do momento em que criou e empregou instrumentos de trabalho) da evolução das outras espécies vivas. Darwin não pode alcançar que, desde esse momento, o homem, com um propósito consciente, passou a agir sobre a natureza e a transformá-la. Apesar porém dessas limitações, os resultados fundamentais obtidos por Darwin não só afastaram de vez a teologia e o finalismo do campo das ciências biológicas, como se mantêm de pé nos dias de hoje. Antes de Darwin estudava-se a biologia com a ideia formada da imutabilidade das espécies e o próprio Darwin, ao declarar a 1.ª vez o seu convencimento da evolução, dizia parecer-lhe «estar a confessar um assassínio». Depois de Darwin só é possível o estudo da biologia iluminado pela ideia da evolução; só é possível o estudo da pré-história iluminado pela ideia de que o homem provém de uma espécie inferior desaparecida; e no domínio dos outros ramos da ciência (geologia, embriologia, etc.) não pode haver um estudo científico se se ignorar Darwin. Negando-se Darwin, a ciência volta à sua fase teológica e medieval.»

6 de Outubro de 1951


Ex.mo Senhor Director da Cadeia Penitenciária de Lisboa

Álvaro Cunhal, preso nesta Penitenciária, vem, perante V.Ex.cia expor o seguinte:

1 – Foi-me hoje devolvida uma carta, que tinha escrito à minha família1, com a indicação de não poder seguir, por conter «ciência comunista». Dada a minha surpresa e o meu pedido para me serem indicadas as passagens da carta que motivaram essa opinião e a decisão correspondente, fui esclarecido que se tratava de tudo quanto nela dizia acerca da obra de Darwin. Embora eu soubesse o que tinha escrito e, como sempre, me tivesse esforçado (dada a minha situação) para não dizer tudo quanto penso, fui ler e reler a carta censurada. E se, ao ser-me comunicada a decisão acima referida, senti apenas surpresa, depois de nova leitura do que tinha escrito fiquei verdadeiramente perplexo.

2 – Se eu tivesse abordado, em volta das teorias darwinistas e à base do marxismo-leninismo, alguns dos problemas cruciantes da sociologia contemporânea; se, em confronto com Darwin, tivesse abordado as formas de selecção na sociedade dividida em classes e aproximado a selecção natural da luta de classes; ou se, contra Darwin, tivesse mostrado como a exploração económica e a opressão política levam muitas vezes à «selecção dos piores»; ou se tivesse abordado o problema da revolução proletária, do socialismo, do desaparecimento das classes e da evolução subsequente da espécie humana; ou se tivesse mostrado como a struggle for life darwinista não era mais que a concorrência e a luta na sociedade burguesa transplantada para os reinos animal e vegetal e uma verdadeira declaração de guerra da burguesia ao proletariado; se tivesse estudado à luz dessas noções a sociedade portuguesa contemporânea e alguns aspectos da política seguida actualmente em Portugal – então bem justificado seria que V.Ex.cia considerasse existir na minha carta uma exposição de ideologia comunista. E, dado o regime de falta de liberdade existente em Portugal, seria para mim compreensível que, nesse caso, exercesse a sua censura. Mas, quando tem havido e continua a haver da minha parte o cuidado de não só afastar dos meus estudos problemas como os apontados, como de não abordar na correspondência questões que possam ser levadas à conta de «políticas», sinceramente digo não ter compreendido a decisão.

3 – A mim mesmo pergunto: terá sido considerado «ciência comunista» a aceitação da evolução das espécies e da origem animal do homem? Ou afirmar haver na obra de Darwin algumas conquistas definitivas da ciência? Será menos exacto (aqui não se trata sequer duma orientação) referir a campanha de silêncio sobre a obra de Darwin e atribuir a causa desse silêncio ao que tal obra afirma ou implica acerca da origem do homem e do mundo e do carácter transitório das sociedades humanas? Será «ciência comunista» afirmar que, no estudo das ciências biológicas antes de Darwin, estavam presentes a teologia e a teleologia e que a negação de Darwin conduz de novo à intervenção duma e de outra? Será «ciência comunista» afirmar as limitações de Darwin no estudo do homem e das sociedades humanas? E que na evolução do homem intervêm factores sociais? E que os sentimentos humanos, os pensamentos humanos, as noções de beleza, de bondade, de justiça, não são comuns (ainda que em grau diferente) a moluscos, insectos, peixes, aves e mamíferos (incluindo o homem), mas especificamente humanos, diferenciados de povo para povo e mesmo dentro de um mesmo povo através da história? E que no mundo animal e vegetal e na transformação das espécies, assim como na história das sociedades humanas, não se verifica o preceito de Leibniz (natura non fecit saltus2) mas há que dar uma grande atenção aos «saltos bruscos» (as «mutações» ou as invasões bárbaras, por exemplo)? Será menos verdadeiro dizer que Darwin manifestou desprezo («cientificamente» fundamentado e explicado em numerosas passagens) pelos «selvagens», pelas outras raças, pelas mulheres? Confesso, Sr Director, que não enxergo aqui (e está aqui condensada toda a passagem censurada da minha carta) qualquer ideia que não seja ou não possa ser aceite por qualquer homem com um mínimo de instrução e que preze a verdade, embora nada tendo de comunista, nem no pensar nem no agir.

4 – Se o que feriu a sensibilidade de V. Ex.cia e determinou a sua decisão foram as alusões, mais que genéricas, à incompatibilidade das ideias darwinistas e da investigação científica com as crenças católicas acerca da origem do mundo e do homem, julgo ser legítimo (sem que isso tenha alguma coisa a ver com política) que qualquer pessoa se prenuncie por umas ou por outras. Aliás na minha carta referi-me à teologia e à teleologia em geral, não abordando nenhuma das mil e uma questões referentes ao catolicismo e à ciência que poderia eventualmente ter abordado. Não sei se V. Ex.cia já leu a Bíblia. Eu li mais que uma vez e com a atenção devida. Não sei também se V. Ex.cia já conversou a este respeito com cientistas católicos que tenham lido a Bíblia e conheçam a obra de Darwin (não daqueles que defendem a primeira e criticam a segunda, sem jamais terem folheado nem uma nem outra). Eu já conversei e alguma coisa aprendi com eles. Não tenha V. Ex.cia a mínima dúvida de que qualquer antropologista católico se debruça com mais atenção sobre os restos de Neandertal ou de Cro-Magnon do que sobre o número de gerações contadas desde Adão pelos velhos escritores hebraicos; de que qualquer geólogo católico atende mais aos Princípios de Lyell3 do que à Génese4; de que qualquer zoólogo ou botânico católico não ignora nem pretende ignorar Darwin. Ninguém mais do que eu respeita as crenças alheias, como infelizmente não respeitam as minhas. E se um homem culto, ou mesmo apenas instruído, me disser (não por conveniências de qualquer natureza, mas com íntima sinceridade) acreditar nas origens da terra e do homem tal como Velho Testamento as descreve, se me disser que a sua inteligência aceita melhor a Génese do que a Origem das Espécies ou os resultados de Laplace, de Newton, de Lyell, isso não faz mais do que comprovar a minha velha convicção do grande poder que sobre as almas e as inteligências têm as crenças religiosas. Não penso entretanto que exista no mundo um único homem de ciência (seja qual for a sua crença) que se sujeite ao ridículo de defender a imutabilidade das espécies. Nem algum historiador que, no século XX, se sujeite à aventura de estudar a pré-história como o fez o frei Bernardo de Brito. Mas, Sr. Director, qualquer que seja a opinião que se possa ter sobre este assunto, que tem isto a ver com «política»? e com «comunismo»? Que tem isto a ver com ideias que um preso não pode manifestar?

5 – Neste momento sou um preso escrevendo ao Director da Cadeia onde me encontro. Sei o que esta situação implica. Mas se me fosse lícito esperar que V. Ex.cia pudesse meditar, apenas com a sua inteligência e o seu espírito crítico, sobre o que nesta carta digo, não tenho dúvidas de que acordaria em que não refiro factos controversos e em que algumas das minhas ideias censuradas não excedem conhecimentos elementares ou meras indicações de senso comum.

6 – Ainda sobre um aspecto me permito solicitar a atenção de V. Ex.cia. Estou isolado há mais de dois anos e meio, dos quais 14 meses em prática incomunicabilidade. Entre várias outras restrições invulgares, não me é dado conversar um pouco com quem quer que seja, além da hora de visita semanal. V.Ex.cia, como Director duma Penitenciária, conhece perfeitamente os efeitos normais do isolamento prolongado na saúde dos reclusos e, nesta mesma Penitenciária, há afixados nas paredes gráficos bem elucidativos a esse respeito (mortalidade nos regimes «auburniano» e «pensilvaniano»5. Creio que as razões fundamentais por que tenho conseguido manter, em tão prolongado isolamento, um estado de saúde razoável (além da tranquilidade de consciência, do tratamento médico6 e da dieta fornecida por esta Penitenciária) são o meu amor pelo estudo, o facto de absorver no estudo total e permanentemente a minha atenção e a grande alegria que me dá ver uns instantes aqueles que me são queridos e conversar com eles por correspondência um pouco mais. Se, desde que estou preso, me é imposto não manifestar quanto penso, não me pode ser exigido (nem certamente foi essa alguma vez a ideia de V.Ex.cia) manifestar o que não penso, e muito menos pensar com o pensar dos outros. Dada a minha incompreensão dos reais motivos da censura da minha referida carta, não sei se houve mudança de critério e se há o propósito de me cortar esta bem magra possibilidade de trocar algumas impressões com semelhantes meus.
A censura desta minha carta sucede-se com poucos dias ao indeferimento duma solicitação minha para utilizar uma máquina portátil de escrever7, indeferimento esse que também não compreendi, dado que estou permanentemente fechado na cela, dado que se trataria de usar papel numerado e rubricado e dado que nesta Penitenciária já tive ocasião de ouvir escrever à máquina dentro de outras celas, certamente portanto por outros presos. O futuro me esclarecerá do significado destes incidentes na minha vida de prisioneiro.

.
in Avante 1845 - 2009.04.09
.
.

No bicentenário do nascimento de Charles Darwin: Um texto de Álvaro Cunhal

Quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2009
No bicentenário do nascimento de Charles Darwin: Um texto de Álvaro Cunhal

O Poder do Homem

Foi em grande parte por se ter inspirado em Malthus que Darwin não pôde compreender o problema humano. É certo que as ideias da concorrência e da luta aplicadas à natureza viva facilitaram a descoberta da selecção natural e do processo fundamental da evolução das espécies. Mas, embora Darwin, contra o que pretendem alguns dos seus detractores, considerasse a "luta pela vida" não apenas a luta de um indivíduo com indivíduos da mesma espécie, mas também e, fundamentalmente, "com indivíduos de espécies diferentes ou com condições físicas de vida"(67), embora considerasse justamente em muitos casos a "concorrência" dentro de uma espécie não como uma guerra, mas como a simples "sobrevivência do mais apto", ou seja, a sobrevivência do mais capaz de resistir ao meio e à luta que lhe movem as outras espécies, ele não pôde sonhar a existência da ajuda mútua entre indivíduos da mesma espécie.

Darwin viveu numa sociedade onde predominava a concorrência e a luta sem tréguas entre classes sociais. Dada a acção da base material das sociedades sobre as respectivas ideologias, compreende-se que, pela sua mão, a "lei" de Malthus, reflectindo essa concorrência e essa luta, tenha estendido a sua aplicação à natureza viva e que a organização social da Inglaterra do século XIX, com as suas ideologias e sentimentos dominantes, se apresente ingenuamente atribuída a animais e plantas. Foi preciso que homens se educassem numa sociedade sem classes para tornar possível a descoberta da ajuda mútua entre os indivíduos de uma mesma espécie, ponto concordante do mundo biológico com essa nova sociedade. E, se algum espanto ou reparo há a fazer, acerca desta descoberta, não é que ela se tenha feito sem factos bastantes em que se apoiar, mas que tenha tardado tanto a fazer-se quando agora se vê que os factos há muito a justificam. Se mesmo no domínio da biologia, a influência malthusiana limitou e prejudicou o seu trabalho, o grande erro de Darwin foi reintroduzir os princípios malthusianos no estudo das sociedades humanas, fortalecidos agora por uma pretensa comprovação na natureza e aparecendo assim como leis, universais e inelutáveis cientificamente aferidas. A concorrência, a luta de classes, o esmagamento violento de algumas camadas da população (fenómenos temporários correspondendo a uma fase do desenvolvimento da sociedade) seriam leis válidas e eternas para todas as espécies, incluindo a humana.

Darwin, a quem se deve a descoberta e provas definitivas da transformação das espécies e da origem animal do homem, não pôde compreender a evolução e transformação das sociedades humanas, das ideologias e dos sentimentos, e do próprio homem depois que emergiu da animalidade. Não pôde compreender que as sociedades, evoluindo por acção do homem, transformam o próprio homem que as faz evoluir.

Com frequência, Darwin insistiu em que "as espécies evoluem em passos muito pequenos"(69), em que a evolução é "um processo extremamente lento"(68), em que a "selecção natural não pode produzir grandes ou repentinas modificações"(70). Não pôde assim compreender como as transformações quantitativas se convertem em qualitativas, e a consequente importância dos saltos bruscos, tanto na evolução no mundo biológico como na evolução das sociedades humanas.

Darwin definiu a selecção natural como a "preservação de diferenças e variações individuais favoráveis e a destruição das que são nocivas"(71), de onde resulta que "todos os dotes corporais e mentais tenderão a progredir para a perfeição"(72). Não pôde, assim, compreender como os progressos em um sentido são retrocessos em outros sentidos e como nas sociedades humanas a selecção, muitas vezes, determina a preservação dos piores e menos aptos.

Darwin defendeu que "as faculdades mentais do homem e dos animais inferiores não diferem em qualidade, embora difiram imensamente em grau"(73), viu nos animais inferiores sensibilidade, ideias, conceitos estéticos e morais semelhantes aos do homem e tomou geralmente como padrão de beleza, de moralidade e até de civismo (padrão para a humanidade e as outras espécies animais) o seu próprio padrão de beleza, moralidade e civismo(74). Não pôde assim compreender que as ideologias são especificamente humanas e determinadas por uma base social material, que numa mesma sociedade não há ideologia uniforme e geral, mas conceitos e sentimentos divergentes, e que a evolução da vida material dos homens determina a evolução da sua vida mental.

Considerando o homem sob o ponto de vista puramente animal, Darwin atribuiu a causas biológicas o atraso de povos de algumas raças, aproximou-os constantemente (tanto nos seus caracteres físicos como intelectuais) dos animais inferiores e foi ao ponto de considerar alguns macacos moralmente superiores aos "selvagens"...(75) Não compreendeu, assim, a existência de razões sociais determinando o atraso desses povos nem as possibilidades actuais de superar esse atraso.

Darwin fez aceitar pela ciência a origem do homem. A sua contribuição foi, a este respeito, decisiva. Mas foi incapaz de vislumbrar que, a partir de certo momento da sua evolução, os caracteres do homem se diferenciaram qualitativamente dos das outras espécies.

A partir do momento em que o homem fabricou instrumentos de trabalho, a sua evolução passou a reger-se por leis diversas das que regem a evolução das outras espécies. O homem deixou de ser apenas uma espécie animal, adaptando-se ao meio e a novas circunstâncias por acção incontrolável da selecção natural. Na sua evolução, o homem não se limita a adaptar-se ao meio; ele adapta o meio a si próprio. "[...] o homem — escreve Marxage em face da matéria natural como uma força natural. [...] age sobre a natureza exterior, modifica-a e modifica ao mesmo tempo a sua própria natureza."(76) Modificando o meio com um propósito consciente, o homem, na sua luta com a natureza, não se limita a combater e eliminar outras espécies. O homem povoa o mundo com espécies por ele próprio escolhidas e ajuda e orienta a sua selecção. A "luta pela existência" do homem não toma assim apenas o carácter da destruidora e implacável "luta pela vida" de Darwin e Malthus; ela toma, também, o carácter de uma luta construtiva e criadora.

Darwin, que partia da selecção pela domesticação para a selecção natural, que conhecia (como ninguém) as transformações pela selecção, que em alguns casos verificou terem sobrevivido espécies graças apenas à acção do homem, sem a qual soçobrariam na natureza, não soube aí descobrir a afirmação das características específicas da espécie humana. E, embora acreditando no poder seleccionador e transformador do homem sobre outras espécies, apenas considerava a capacidade humana "pelo grande efeito produzido pela acumulação de uma mesma direcção, durante gerações sucessivas, de diferenças absolutamente inapreciáveis para olhos inexperientes"(77). Esta ideia foi ultrapassada pela história. O campo da intervenção modificadora do homem na evolução das espécies animais e vegetais alarga-se dia a dia. Quando nos lembramos de que o visconde de Coruche, justificando o atraso da agricultura, julgou ter encontrado argumento irrespondível e definitivo ao referir que "não é possível produzir hoje cereais, linho, lã, uvas, batatas ou laranjas em menos tempo do que em outras eras"(78), não podemos deixar de sorrir, porque a vida deu já um desmentido literal à fraca ironia do visconde.

O poder do homem permite-lhe construir o seu próprio futuro. Não há qualquer lei natural, quaisquer razões biológicas ou técnicas que limitem o ritmo da produção das subsistências. Esse ritmo depende apenas da acção do homem. De há muito o homem dispõe de meios técnicos capazes de inverter as progressões nos dois termos da "lei" de Malthus.

Com métodos rudimentares, apenas à custa de trabalho e da sua imaginação criadora, pôde o povo português transformar, em vastas regiões, a fisionomia agrícola de Portugal. Nas encostas nuas do Douro ergueu essa monumental escadaria onde hoje se exibem os vinhedos que dão do melhor vinho do mundo. Nas íngremes vertentes e nos vales apertados do Minho, de Trás-os-Montes, da Beira, da Estremadura, foi também dispondo e segurando em socalcos terra trazida à força de braços e foi buscar às entranhas da terra água para fazer verdejar jardins. Desde o canteiro minúsculo ao retalho rendoso, solo fértil surgiu onde ontem existiam apenas penedias. Terras minhotas, naturalmente pobres, tornaram-se terras ricas pela rega e estrumagens. Nas areias safaras da Gafanha ou da Póvoa ou nas dunas das Caldas, com adubações intensas de caranguejo, de sargaços, de moliço, nasceram belas hortas. Nas serras mais pedregosas — na Estrela, na de Aire, em tantas outras — das fendas da pedra brotaram olivais ou, nos ásperos declives, manchas lavradas. Nas charnecas alentejanas e na borda do Tejo, os seareiros romperam os matagais e obrigaram a terra a dar pão. Nos "foros" de Almeirim, Mugem, Salvaterra, culturas viçosas surgiram como oásis em campos de areia. Na generalidade dos casos, todo esse esforço gigantesco, realizado com a miragem de uma vida desafogada, revelou-se uma ilusão para os seus autores. Uns semearam, outros colheram. Mas esse esforço evidencia o poder do homem, evidencia como o homem pode impor e impõe à natureza uma direcção, como pode arrancar e arranca da terra as subsistências que ela por si só recusa, como pode modificar e modifica a terra, as espécies vivas, a paisagem. E se isto pôde fazer o nosso povo à força de braço e de imaginação, mas apegado a recursos velhos de séculos, o que não poderá ele fazer ganhando para o seu serviço a ciência e a técnica modernas?

Quando nos dizem e repetem ser Portugal país pobre, de solo fraco, de terreno acidentado e pedregoso, de clima irregular, e quando assim pretendem amarrar o povo português a um irremediável destino de miséria — nós respondemos que não só o nosso país tem raras e favoráveis aptidões agrícolas, como pode o nosso povo transformá-lo num verdadeiro jardim da Europa à beira-mar, que só o é no entender dos poetas.

Centenas de milhares de hectares no Alentejo, nos incultos e nas terras áridas sem fim podem encher-se de campos vicejantes com águas levadas das bacias do Tejo e do Guadiana ou arrancadas aos lençóis subterrâneos. Os rios podem ser dominados e disciplinados, dando rega e energia, em vez de enxurradas e cheias devastadoras, alternando com secas. Grandes manchas de floresta podem levantar--se em montes descarnados, em areias nuas, em terrenos pantanosos, também junto às linhas de água, dando novos meios de vida, formando cortinas de protecção contra os ventos prejudiciais e contra as areias e torrentes, aumentando a capacidade de absorção de humidade pelos solos, diminuindo o escoamento e a evaporação, facilitando a condensação do vapor de água da atmosfera, defendendo o solo da erosão, dando até melhor ar para o homem respirar e paisagem mais bela para alegria dos olhos.

A oliveira e a nogueira, os freixos e ulmos, o eucalipto e a acácia tornarão ricas e acolhedoras zonas hoje desérticas. A arborização de cumes rochosos de onde as torrentes trazem marés de areia salvará magníficos terrenos de aluvião da ameaça agora iminente da ruína e da esterilidade. A regulamentação do regime das águas abundantes das Beiras oferecerá prados onde se multiplicará o gado. A defesa das cheias, o enxugo, a drenagem, darão produtividade insuspeitada aos aluviões do Mondego e dos seus afluentes, às margens do Lis, às baixas dos afluentes do Tejo, particularmente do Sorraia, assim como aos "focos miasmáticos e palustres" do sul do Tejo. Os ricos fundos dos pauis e brejos numerosos podem ser roubados às águas estagnadas. Pela defesa das marés, o dessalgamento, a drenagem e a irrigação podem tornar-se fertilíssimos os aluviões marítimos e fluviais do Algarve e os vastos sapais do Ribatejo, ilhotas e esteiros no delta do Vouga e podem ser libertados da esterilidade.

Podem fabricar-se solos ricos das terras pobres. Podem escolher-se, seleccionar-se e criar-se os tipos de plantas mais apropriados ao meio português, ou, mais exactamente, aos diversos meios portugueses. Podem obter-se plantas mais rendosas e também animais mais rendosos: podem apressar-se os prazos de maturação das plantas e de desenvolvimento dos animais. Uma planificação da agricultura permitirá um melhor aproveitamento do solo nacional. Com as máquinas e a técnica ao seu serviço, o trabalho será menos penoso e renderá incomparavelmente mais.

Haverá mais fartura nos lares e sairá do que se produz para a compra do que se necessita.

Temos no nosso próprio país todo um novo país a conquistar, um país mais fértil e até mais belo. Temos todas as condições naturais para uma vida desafogada para todos os portugueses. Que se chame a isto um sonho: são legítimos os sonhos de quem dá a vida para realizá-los. Mas não, não é apenas um sonho. Acrescentando-se à simples consideração dos factos nacionais, o triunfo do socialismo em grande parte do mundo dá a certeza de que tal sonho será realizado.

Se já no século XIX alguém pôde dizer ter o homem modificado de tal forma a natureza que "os efeitos da sua actividade não podem desaparecer senão com a morte geral do planeta"(79), seguindo o mesmo pensamento os mitchurianos, seguros do carácter material da vida, puderam demonstrar no século XX ser possível "obrigar cada variedade de animais ou vegetais a desenvolver-se e a modificar--se mais rapidamente e no sentido favorável ao homem". Sendo o homem guiado pela máxima de que não podemos esperar as dádivas da natureza, antes é necessário arrancar-lhas, não é possível prever quaisquer limites a essa criadora intervenção humana.

Não há qualquer lei natural, quaisquer razões biológicas ou técnicas, qualquer fraqueza de espécie humana, que forcem a agricultura ao atraso. Apenas factores sociais a isso a obrigam.

Notas:

(67) The Origin of Species by Means of Natural Selection or the Preseruation of Favored Races in the Struggle for Life, Ed. The Modern Library, New York, III, p. 53.

(68) Ibid., VII, p. 182.

(69) Ibid., X, p. 249.

(70) Ibid., XV, p. 351.

(71) Ibid., IV, p. 64.

(72) Ibid., Conclusão, p. 373.

(73) The Descent of Man and Selection in Relation to Sex, Ed. The Modern Library, VI, p. 513.

(74) Ibid., III, pp. 467-468; VIII, pp. 570-571; XIII, p. 697; IV, pp. 480-481; V, p. 498; etc.

(75) Ibid., Conclusão, pp. 919-920.

(76) Marx, O Capital, t. 1, 3.ª secção, V, 1.

(77) The Origin of Species, 1, p. 30.

(78) Visconde de Coruche, A Agricultura e o País, p. 7.

(79) Engels, Dialéctica da Natureza, Introdução.

In «Contribuição para o Estudo da Questão Agrária», Edições «Avante!», 1976, Vol. 1, págª 125-132

Transcrito de AQUI

Para Ler:

adaptado de um e-mail enviado pelo Raimundo e pelo Jorge


sinto-me:

publicado por António Vilarigues às 13:45

1 comentário:

De João Valente Aguiar a 13 de Fevereiro de 2009 às 11:14
Este texto do Álvaro é extraordinário! Não o conhecia e é uma desmontagem genial e simples das teses biologistas (e hoje muito em voga por causa da descodificação do genoma humano) e geneticistas que atribuem os comportamentos humanos unicamente a características naturais e biológicas. Aliás, esse é um lado da luta ideológica que por vezes se descura e que tem um impacto imenso na reprodução da ideologia (e da classe) dominante.
.
in -
http://ocastendo.blogs.sapo.pt/565394.html
.
.