Discurso de Lula da Silva (excerto)

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segunda-feira, 27 de setembro de 2010

António Damásio - A história da consciência como nunca a tínhamos ouvido contar

Ípsilon



António Damásio

A história da consciência como nunca a tínhamos ouvido contar

22.09.2010 - Ana Gerschenfeld

Há dez anos, em "O Sentimento de Si", o neurologista português António Damásio explicava pela primeira vez a sua visão de como o cérebro humano constrói a consciência. Agora, em "O Livro da Consciência", volta ao mesmo tema, mas com uma "receita" muito mais apurada e onde mistura ingredientes que até aqui tinham ficado esquecidos nas gavetas das neurociências. Com a vibrante prosa que o caracteriza e o profundo enraizamento das suas ideias na arquitectura e nas aflições cerebrais, conta-nos a emergência da consciência no cérebro humano como nunca a tínhamos ouvido contar. 
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"Fa franziu o sobrolho e olhou para a sua barriga, levou a mão direita à cabeça e disse: 'tenho uma imagem'. Abandonou a escarpa e apontou para o bosque e o mar: 'estou ao pé do mar e tenho uma imagem. É uma imagem de uma imagem. Estou - disse, levantando a cara e franzindo o sobrolho - a pensar."
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William Golding (mais conhecido como o autor do Senhor das Moscas) escreveu estas linhas em Os Herdeiros (The Inheritors, 1955), um romance onde imagina o encontro, há dezenas de milhares de anos, de duas espécies de seres humanos. Uma mais evoluída (nós?), os "cara de osso", imberbes, erguidos, magros, com rituais e ferramentas mais complexos; a outra mais primitiva (os Neandertais?), peluda, robusta e ágil a trepar às árvores.
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Uma das características mais salientes da estranha e maravilhosa narrativa de Golding é o número de vezes que recorre à palavra "imagem". Os Neandertais estão constantemente a "ter" imagens e a declarar que têm imagens (que portanto lhes pertencem) e a reflectir sobre essas imagens. Enquanto isso, as imagens, combinadas com o que vai acontecendo no mundo exterior e com a memória do passado, vão gerando emoções e sentimentos que geram outras imagens e orientam os seus actos, tanto exteriores como interiores. Estas personagens primitivas são seres perfeitamente conscientes do mundo e de si próprios, dotados de uma história pessoal e individual.
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Os hipotéticos neandertais têm contudo alguma dificuldade em manipular ideias complexas - talvez um sinal de que as suas capacidades de memória ainda não desabrocharam totalmente. A tribo mais evoluída, essa, tem muito mais jeito para todos esses exercícios mentais (algo que o autor talvez quisesse sugerir quando abandona o uso da palavra "imagem", mesmo no fim, mal o relato passa a ser do ponto de vista dos "cara de osso").
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Os humanos modernos tornaram-se mestres na produção de imagens mentais, na sua análise consciente e na análise, também consciente, dos sentimentos que elas provocam em nós. O nosso cérebro produ-las em contínuo e nem sequer quando dormimos conseguimos interromper o seu fluxo. Somos todos cineastas mentais natos.
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As imagens são "a principal moeda da nossa mente", explica António Damásio no seu novo livro, intitulado O Livro da Consciência. E a palavra não se esgota apenas nas imagens visuais, mas aplica-se aos padrões, aos "mapas" neuronais auditivos, viscerais, tácteis e por aí fora, que o cérebro constrói em permanência. Nem os sentimentos fogem à regra: são igualmente imagens. Mais ainda, o nosso cérebro que é "viciado" na criação de mapas, também mapeia o seu próprio funcionamento, gerando imagens totalmente abstractas. "Estou convencido", escreve Damásio, "que os matemáticos e os compositores sobressaem neste tipo de criação de imagens."
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Esse filme super-multimédia que vemos na nossa cabeça começa na nossa infância - e de facto, através das relações sociais, da cultura e da aprendizagem, remonta até muito mais longe no passado, quando ainda não tínhamos nascido. Mais ainda, conseguimos antecipar o futuro e agir sobre ele em nosso benefício, individual e colectivo. E mais mais ainda, sentimos que o filme é nosso e só nosso (e de facto, somos o público exclusivo do espectáculo da nossa mente).
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Mas como é que lá chegámos? O que aconteceu no nosso cérebro que tornou a consciência possível?
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Cérebro, mente, consciência
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Como já aconteceu nos seus livros anteriores, as respostas que Damásio se propõe dar a estas perguntas só podem ser válidas se forem firmemente ancoradas na biologia. Afinal de contas, os neurónios que suportam a mente e a consciência são células vivas como as outras; afinal de contas o cérebro, com as suas várias subdivisões e as ligações nervosas entre elas que suportam a mente e a consciência, é a mente e a consciência. Afinal de contas, tudo o que se passa na nossa mente passa-se na nossa cabeça e no nosso corpo (where else?). "De entre as ideias apresentadas neste livro, nenhuma é mais importante do que a noção de que o corpo é o alicerce da mente consciente" escreve Damásio.
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O Livro da Consciência é a mais recente incursão neste território do célebre neurologista português (radicado nos EUA desde 1975 e figura de primeiro plano não só da comunidade internacional das neurociências, mas também, desde o seu O Erro de Descartes, de 1995, junto do grande público). O título original em inglês do novo livro, Self Comes to Mind, talvez seja mais sugestivo do que o da versão portuguesa, editada pela Temas e Debates/ Círculo de Leitores, que vamos poder ler a partir de hoje (o original só será publicado nos EUA e na Europa em Novembro).
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Mas o que importa sublinhar é que o livro define um programa para a futura investigação nesta área. Damásio é o primeiro a admitir que ainda está longe de ter resolvido o mistério do que é a consciência humana (se é que alguma vez o poderá fazer), que está meramente a arranhar a superfície, que nem sequer tem uma teoria, mas apenas um "enquadramento" teórico da questão.
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Mas acha que, apesar de haver quem considere a tarefa impossível, ainda é muito cedo para os cientistas desistirem de explicar o que é a consciência em termos rigorosos e testáveis através da experimentação. Tanto mais quanto, nos últimos dez anos, os avanços das técnicas de imagens médicas têm permitido visualizar de forma cada vez mais sofisticada, ao vivo e em directo, o cérebro de pessoas (com e sem lesões neurológicas) a realizar diversas tarefas - para ver qual a região do cérebro que entra em acção a cada instante. Essas manchas de cor nas imagens poderão ser apenas um eco longínquo do filme na nossa cabeça, mas têm muito para nos contar.
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A quarta dimensão
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Toda essa massa de trabalho científico teve como consequência, para o pensador atento, metódico, profundo que é Damásio, uma mudança radical das premissas do empreendimento. O estudo do aparecimento da consciência humana, explica no livro, já não pode ser encarado da mesma maneira que há dez anos. Tornou-se preciso contar a história da consciência humana de outra maneira - e, por vezes, virada do avesso.
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Em primeiro lugar, acrescenta-lhe uma "quarta dimensão": a perspectiva da evolução das espécies. Para conseguir perceber como surge e como funciona a mente humana - e em particular a mente consciente - é preciso abandonar a ideia de que ela é única em todos os seus aspectos. É única nalguns, que não deixam de ser espectaculares (a cultura e as artes estão lá para o provar). Mas a mente nasceu nos organismos vivos muito antes de a espécie humana aparecer na Terra. A consciência não é o apanágio do cérebro humano.
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"A evolução brindou?nos com diferentes tipos de cérebro", lemos, "no que diz respeito à mente e à consciência. Temos o tipo de cérebro que produz comportamento mas que parece não ter mente nem consciência, como, por exemplo, o sistema nervoso do Aplysia californica, [um] caracol marinho (...). Existe o tipo de cérebro que produz toda uma vasta gama de fenómenos - comportamento, mente e consciência -, de que o cérebro humano é, claro está, o principal exemplo. Há ainda um terceiro tipo de cérebro que produz claramente comportamento, é provável que dê origem a uma mente, mas em que o grau de consciência é problemático. É o caso dos insectos."
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Há mesmo, segundo Damásio, uma série de animais que poderão, ao que tudo indica, possuir uma consciência rudimentar: "os lobos, os nossos primos os símios, os mamíferos marinhos, os elefantes, os felídeos e, claro está, aquela espécie especial chamada cão doméstico".
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O que lhe permitiu chegar a uma tal conclusão? "A organização dos seus cérebros e a sofisticação dos seus comportamentos sociais", responde-nos, numa troca de e-mail com o Ípsilon. E significa isso que esses animais são conscientes, tal como nós? Que sabem que existem? "Claro que a sua consciência não é tão abrangente como a nossa, mas penso que eles sentem as suas mentes e os seus comportamentos."
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Mas então, como imagina o autor a mente de um cão "desde o interior"?, perguntámos ainda. Como "um fluxo muito rico de imagens situadas no presente, com uma leve penumbra de passado e nem a mais mínima ideia de futuro". Mesmo assim, todos sabemos isso, uma mente capaz de amar, de sentir tristeza, medo ou ciúmes... mas não de reflectir sobre a sua condição, não de saber que sabe o que sente.
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Seja como for, uma consequência não trivial desta perspectiva evolutiva é que, desde os primórdios da vida na Terra, os cérebros, seja qual for sua sofisticação, sempre estiveram e permanecem dedicados em primeiro lugar à manutenção da integridade dos organismos que os contêm, humanos e não humanos. "A forma mais directa de explicar o motivo pelo qual a consciência prevaleceu na evolução é dizer que contribuiu de modo significativo para a sobrevivência das espécies com ela equipadas. A consciência chegou, viu e venceu", escreve Damásio no seu livro.
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Os andares da consciência
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Para o demonstrar, o cientista vai, por um lado, desmontar os diferentes sistemas e processos, de complexidade crescente, que culminam na consciência; e, por outro, especular de forma cientificamente informada sobre os locais no cérebro candidatos a ser o "lugar" onde cada um tem a sua sede principal (sem esquecer que o cérebro faz tudo de forma relativamente deslocalizada, o que também não significa que a totalidade do cérebro participe em todas as funções cerebrais; algumas estruturas são mais adequadas do que outras para o desempenho de uma dada função). A cada passo da construção (ou desconstrução), Damásio fornece uma profusão de provas baseadas na observação de doentes com problemas cerebrais muitas vezes trágicos - adultos com Alzheimer, epilepsia, coma, estado vegetativo, síndrome locked-in, crianças que nasceram sem córtex cerebral, a camada exterior do cérebro responsável por todas as funções cognitivas de alto nível a começar pela linguagem, lesões cerebrais maciças ou localizadas - e na de pessoas que não são doentes neurológicos. O seu conhecimento da anatomia do cérebro e a sua capacidade de interpretar sinteticamente os resultados da investigação (a própria e a dos outros), sempre em relação com essa anatomia, constitui um acto de autêntico virtuosismo. O que não significa que o seu livro seja de fácil leitura; antes pelo contrário. Seguir os meandros das explicações encadeadas de Damásio exige a concentração de um jogador de xadrez.
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A construção da consciência começa pela formação de um "proto-eu", seguido de um "eu nuclear" e coroado por um "eu autobiográfico". Estes três módulos foram sendo acrescentados um por cima do outro ao longo da evolução e nós humanos possuímos os três, simplesmente porque não podemos prescindir de nenhum deles.
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O proto-eu é uma semente, um germe primitivo do eu. A partir das imagens mentais que vêm do corpo, escreve Damásio, o proto-eu produz "sentimentos primordiais" (por exemplo, diversos níveis de dor e de prazer, o "sentir" de base), que são espontâneos e contínuos quando estamos acordados e que "garantem a experiência directa do nosso corpo vivo,
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sem palavras, sem adornos e sem qualquer outra ligação que não seja a própria existência". Ou seja, um primeiro sinal de que as nossas imagens mentais são nossas, ponto de partida indispensável da consciência.
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Cérebro arcaico
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A principal consequência disto, segundo Damásio, é que a existência da consciência humana é assegurada em parte por sistemas muito "arcaicos" do cérebro, tais como certas estruturas da parte superior do tronco cerebral (o tronco cerebral liga a espinal medula ao cérebro). Isto não fazia até agora parte dos "ingredientes" habituais da consciência. "São muito poucos os cientistas com trabalhos publicados a defender esta ideia", diz-nos Damásio. No livro, escreve: "O cérebro não começa a edificar a mente consciente ao nível do córtex cerebral, mas sim ao nível do tronco cerebral. Os sentimentos primordiais não só são as primeiras imagens geradas pelo cérebro, como também manifestações instantâneas de consciência. São o alicerce que o proto?eu prepara para a construção de níveis mais complexos do eu." E acrescenta: "estas ideias estão em conflito directo com os pontos de vista tradicionais sobre a consciência".
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Não é possível esgotar em poucas palavras a complexidade do pensamento de Damásio, mas podemos tentar alinhar os personagens e o enredo da peça da consciência. Além do proto-eu, existem mais dois participantes que completam o elenco da consciência: o eu nuclear (que se desenvolve "numa sequência de imagens que descrevem um objecto a interagir com o proto?eu e a modificá?lo") e o eu autobiográfico (que surge quando todas essas sequências de imagens de múltiplas origens, "cuja totalidade define uma biografia", geram por sua vez "impulsos de eu nuclear" e ligam o eu "ao passado bem como ao futuro antecipado"). O proto?eu, com os seus sentimentos primordiais, e o eu nuclear constituem um "eu material". O eu autobiográfico, que abrange todos os aspectos da pessoa social, constitui um "eu social" e um "eu espiritual".
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Mas para realizar o estado de consciência plena - aquele a que só os humanos temos acesso - ainda falta no palco da mente "um dono, um protagonista da existência, um eu que analisa o mundo interior e exterior, um agente que parece a postos para a acção. Falta o narrador que não apenas sabe, mas que sabe que sabe, o "conhecedor" que permite atingir o mais alto patamar da consciência tal como a conhecemos hoje. São o eu nuclear e o eu autobiográfico que vão "dotar?nos a mente [desta] outra variedade de subjectividade", escreve Damásio. "A consciência humana normal corresponde a um processo mental onde operam todos estes níveis do eu".
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Dez anos depois
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Onde é que as etapas finais da construção da consciência se operam no cérebro? Onde é que se concretiza a subtil e complexa coordenação dos processos que permitem a sua emergência?  Devido à sua posição no cérebro e as ligações nervosas que estabelecem com outras regiões, o tálamo, situado entre o tronco e o córtex cerebrais, e uma área do córtex chamada PMC (córtex postero-medial) recolhem o voto favorável de Damásio. Mas isso não significa que exista uma separação de funções: o cérebro não funciona assim. Cada uma dessas três principais "grandes divisões anatómicas" contribui para algum aspecto da "tríade directora" da consciência, formada pelo estado de vigília, a mente e o eu.
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Perguntámos a Damásio o que, ao longo desta década, tinha tornado necessária esta sua nova viagem à consciência humana. "Muitas, muitas coisas", diz-nos por e-mail. E especifica que "embora tenha sempre reconhecido o valor das estruturas subcorticais, a perspectiva d'O sentimento de Si era predominantemente centrada no córtex. A d'O Livro da Consciência não é; o subcórtex e o córtex partilham os papéis - e o papel principal vai mesmo para o tronco cerebral."
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"Embora [no primeiro livro] também tivesse chamado a atenção para o córtex postero-medial, considerei-o como principalmente relacionado com o eu nuclear. Dez anos volvidos, com base em todos os resultados de neuroanatomia e neurofisiologia (...), vejo o seu papel como principalmente ligado ao eu autobiográfico. (...) Fiz ainda alterações teóricas a partir da reavaliação do comportamento das criaturas 'pequenas', das bactérias e por aí fora - e mais geralmente, daquilo que no seu conjunto descrevo como a quarta perspectiva.
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E qual a maior novidade no novo livro? "É o que digo sobre o tronco cerebral e sobre a fusão, literalmente, do corpo e do cérebro, que são duas caras da mesma moeda. Este é sem dúvida um dos pontos centrais do livro - e talvez o mais original e o mais sujeito a controvérsia."

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domingo, 26 de setembro de 2010

GOTAN PROJECT - La Gloria (2010)



Tango, House, Jazz e tudo o que a imaginação dos criadores quiser!!! — comVictor Nogueira e 30 outras pessoas.
2317 ·  · 

Bond - Big Love Adagio: Bella y Bestia Son [Video X Fan]


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BondOficialMexicoFan | 17 de Março de 2009
Video Echo por KriZtiaN
www.bondshine.es.tl
para mas informacion visite el foro de bondshine
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Enviado por E.B.
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Vinicius & Toquinho - Samba da Volta



V

Samba da volta

(Toquinho e Vinicius de Moraes)




Lyric:

Você voltou, meu amor
Alegria que me deu
Quando a porta abriu
Você sorriu
Você me olhou
Ah, você se derreteu
E se atirou
Me envolveu
Nem brincou
Conferiu o que era seu
É verdade eu reconheço eu tantas fiz
mas agora tanto faz
O perdão pediu seu preço meu amor
Eu te amo e Deus é mais
Você voltou, meu amor
Alegria que me deu
Quando a porta abriu
Você sorriu
Você me olhou
Ah, você se derreteu
E se atirou
Me envolveu
Nem brincou
Conferiu o que era seu
É verdade eu reconheço eu tantas fiz
mas agora tanto faz
O perdão pediu seu preço meu amor
Eu te amo e Deus é mais.
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.http://www2.uol.com.br/cante/lyrics/Toquinho_e_Vinicius_de_Moraes_-_Samba_da_volta.htm
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sábado, 25 de setembro de 2010

Edith Piaf - Autumn Leaves (Les Feuilles Mortes)


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wecaan | 24 de Dezembro de 2007
The falling leaves
Drift by the window
The autumn leaves
All red and gold
I see your lips
The summer kisses
The sunburned hands
I used to hold.

Since you went away
The days grow long...
And soon I'll hear
Old winter songs
But I miss you most of all
My darling, when autumn leaves start to fall...

C'est un chanson
Qui nous ressemble
Toi qui m'aimais
Et je t'aimais
Nous vivions tous les deux ensemble
Tou qui m'aimais
Moi qui t'aimais

Mais la vie sépare
Ceux qui s'aiment
Tout doucement
Sans faire de bruit
Et la mer efface sur le sable
Les pas des amants désunis.

Since you went away
The days grow long...
And soon I'll hear
Old winter songs
But I miss you most of all
My darling, when autumn leaves start to fall...
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Boa noite! Bjos da Judite 
.24/Set 18:53
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Helmut Lotti - "Vecherni Zvon"


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lmj22 | 8 de Julho de 2007
Helmut Lotti - "Vecherni Zvon".
A man realizes how short life is, how fast time flies by. When he hears the evening bells, he automatically thinks back of the spring of his life. Every sound of the heavy bells reminds him of his youth, the home he grew up in and of so many supposedly forgotten memories. At the same time, he realizes that the bells now announce him the end of his life.
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Enviado por E.B.
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 "o vecherny zvon"  signífica  o som de sino  nocturno.
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Viagem entre a vida e a morte pelas entranhas de Lisboa

Ípsilon

Enric Vives-Rubio
Rui Cardoso Martins

Viagem entre a vida e a morte pelas entranhas de Lisboa

27.07.2009 - Alexandra Lucas Coelho

Há uma catástrofe em Lisboa. Um cego e uma criança caem num esgoto. Caminham por baixo da terra, a contar histórias um ao outro. Rui Cardoso Martins acredita que há palavras que salvam. Mas nós nunca mais vamos andar por Lisboa da mesma forma depois de ler "Deixem Passar o Homem Invisível".
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Igreja de S. Sebastião da Pedreira (sem o autor)
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Julho e, olá, que é isto? De repente o céu desce, Lisboa muda de cara, uma chuva fina como picos de água com gás, e flores de buganvília a rodopiarem na sarjeta, sopradas pelo vento. Pelo menos desde 1755 sabemos que todo o mal pode acontecer, e quando faz sol não se acredita. Até parece que temos os pés no chão. Mas o chão é só uma tampa entre nós e o fundo. E no fundo, basalto, vermes, ratos. Pedacinhos de ossos, diria Camilo Pessanha, se não fossem mesmo esqueletos inteiros.
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Por exemplo, aqui, em S. Sebastião da Pedreira, o Marquês de Pombal "mandou abrir uma sepultura para milhares de corpos", lembra Rui Cardoso Martins em "Deixem Passar o Homem Invisível", o seu segundo romance. "A zona que vai desde o Parque, ali acima, até debaixo dos armazéns espanhóis e provavelmente parte desta encosta, serviu de vala comum no Terramoto de 1755."
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Não se pode andar em Lisboa da mesma forma depois de ler este livro e o largo de S. Sebastião é só o princípio - da viagem entre a vida e a morte que é o livro, e da conversa peripatética que o Ípsilon propôs ao autor.
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O encontro ficou marcado para as 11h30 e agora são 11h15, o autor ainda não chegou. Dá para entrar na igreja e procurar aquele anjo azul com uns olhos raspados amarelo-gema, dois sóis no lugar dos olhos. Está na capa do livro.
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A igreja tem uma escada de cada lado e ao cimo uma varanda. Há um som de broca no ar, as cáries de Lisboa sempre em reparação. Mas quando se empurra a porta de vidro, a temperatura cai e a cidade desaparece. Fica aquele silêncio das igrejas que cheira a pedra fria e a lamparina.
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António, o cego do livro, também faz isto. Entra com a sua mulher na igreja para ver as cenas em azulejo. "Ver não é um verbo proibido entre os cegos, pelo contrário", aprendeu o autor.
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Fachada e escadarias enganam. A igreja de S. Sebastião é inesperadamente pequena. Altar em talha dourada, paredes cobertas com a vida do santo, três nucas de mulheres e uma nuca de homem entre os bancos corridos.
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Mas há outro homem de pé, agarrado às grades da capela baptismal, como faria um prisioneiro.
Quando ele sai é possível espreitar a imagem por cima da pia, presumivelmente João Baptista a baptizar um Jesus de mãos cruzadas sobre o seio, e Deus sobre ambos, sentado numa nuvem.
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Do céu à caixinha de "esmolas pelas almas do Purgatório", trata-se sempre e sem dúvida de fé. Mas ter fé é diferente de acreditar, aprendeu o autor à sua custa.
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Uma "piedosa matrona que extrae as setas ao mártir S. Sebastião" aparece na capela seguinte, e este S. Sebastião dá ares de Johnny Depp com sobrancelhas depiladas, cabelo em cachos, bíceps de Neptuno. Mirem-se no exemplo, já lá estava tudo.
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Várias figuras de azulejo têm os olhos raspados mas nenhuma se parece com o anjo da capa.
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De volta à varanda, ainda sopra aquela espécie de chuva. Passa um avião quase a aterrar no meio das casas. Mais um medo que Lisboa tem, e logo esquece.
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Uma camioneta de móveis do Redondo descarrega do outro lado da rua. A esquina dos "armazéns espanhóis" anuncia descontos de 70 por cento. O pátio ao lado da igreja tem três velhos bancos de madeira atados com cordas. Certamente já aqui se sentou alguém que acredite em milagres.
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Igreja de S. Sebastião da Pedreira (com o autor)
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Antes das 9h, o autor estava a deixar os filhos, Henrique e Sara, a seguir foi fazer exercício e portanto chega cheio de fome. Enquanto come uma sandes mista na esplanada mais próxima da igreja, passa um cavalheiro rechonchudo, que pára de repente, todo ele entusiasmo.
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- Bom dia! Tenho aqui umas colónias muito boas, quer ver?

Rui Cardoso Martins quase se engasga.

- Umas quê?

- Umas colónias!

- ...

- Perfumes!

Com a sua gentileza habitual, o autor declina, e acaba a sandes a matutar, enquanto o vendedor se afasta.

- Só me acontecem coisas malucas. Umas colónias! Daqui a pouco era o Mapa Cor-de-Rosa.

- Andei na igreja à procura do anjo da capa, mas não o encontrei.

- Esse não está lá. Está no Museu do Azulejo. Um amigo meu fotografou-o.

Aquilo dos olhos raspados foi uma epidemia vândala. Os azulejos começaram a aparecer por aí assim.

Subimos à igreja e Rui espreita o pátio com os velhos bancos.

- Os escuteiros são aqui.
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Isto é relevante para o livro, porque o companheiro de viagem do cego António é um escuteiro de oito anos chamado João. Agarram-se um ao outro durante uma enxurrada monumental em Lisboa que os apanha em frente a esta igreja. Até que o chão cede.
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"Deixem Passar o Homem Invisível" é, então, a odisseia de António e João por um antigo esgoto que desce pelas entranhas de Lisboa, de S. Sebastião ao Tejo. As autoridades salvadoras vão descrendo que eles possam estar vivos, mas há quem continue a acreditar, como o mágico Serip (Pires ao contrário), que vai gritando em italo-português pelas grades das sarjetas, enquanto faz o percurso à superfície.

Fora gritar, é isso que vamos fazer esta manhã.
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- Eu tinha a ideia de que seria possível atravessar Lisboa por baixo, a  descida ao Rio dos Infernos - diz Rui na varanda da igreja, a olhar para o chão onde no livro se abre o buraco.
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Nada que a realidade não tenha inventado. Aconteceu por exemplo a um autocarro de Lisboa.
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- Andei em investigações no Museu da Água, onde falei com o dr. Raul.
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Este dr. Raul também se chama dr. Raul no livro, tal como as investigações do livro, em busca dos mapas de velhos boqueirões, são as que o autor fez.
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- Eu queria partir de S. Sebastião por ser uma vala comum do Terramoto. Ali está a cidade nova, os armazéns espanhóis, aqui uma igreja muito bonita. Escavar o basalto para o metro nesta zona foi terrível, teve de ser com uma broca.
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Rui Cardoso Martins viu fotografias e leu os livros da construção do metro, um dos três subterrâneos de Lisboa (os outros são esgotos e águas limpas). E apesar da falta de mapas, porque muitos arderam nos vários incêndios da câmara, confirmou a existência de um boqueirão entre S. Sebastião e o rio, primeiro tão apertado que obriga a andar de gatas, e depois com mais de dois metros.

Perguntou ao dr. Raul:

- É possível entrar aqui e sair no Tejo?

O perito não viu razão para que não fosse.

- A partir daí podia começar a aventura.
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Debaixo do chão ser cego não é desvantagem, porque não se vê nada de qualquer forma, e a única coisa em que os cegos são diferentes das outras pessoas é nisso. "Cegos são pessoas que não vêem, na minha opinião", diz a epígrafe do livro. Ou seja, não são atrasados nem surdos.
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- Tive um amigo cego no liceu, lá em Portalegre, um tipo bestial. Sempre pensei fazer um livro que colocasse os cegos na sua dimensão humana. É o contrário de os transformar em metáfora e alegoria, ou do ensino do papel social de ceguinho, que tem de ser modesto, que não pode dizer que gosta de mulheres.
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António não é modesto e o que mais quer ver são mulheres bonitas.
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Mas a Rui Cardoso Martins também interessava a ideia do milagre, até que ponto se acredita, e fez uma viagem a Fátima de propósito.
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- Quando um cego cega, vai passando de milagre falhado em milagre falhado.
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Essas são as viagens em que "é preciso comer alguma coisa ou o Apocalipse cai-nos na fraqueza".
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Rua de S. Sebastião
Damos as costas à igreja, descendo a rua pelo meio da rua, uma sina lisboeta. Passeios curtos, persianas encardidas, molas sem roupa, A Lealdade Penhores, Lda.
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Tudo isto é a capital de que Rui aprendeu a gostar. Nascido em Portalegre em 1967, vive em Lisboa desde a universidade (Comunicação Social na Nova, fomos colegas de turma, já esclareci isto uma vez). De resto, talvez apenas um alentejano possa escrever que "o pão nunca se deita fora, só em último caso, bolor negro ou rato", e outras frases deste romance.
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A sua estreia tão forte, "E Se Eu Gostasse Muito de Morrer", teve mais de uma edição em Portugal, tradução em Espanha e vai sair agora na Hungria. Quem o tenha lido deixou Rui Cardoso Martins naquele sem-tempo da infância alentejana, e vai reencontrá-lo agora em Lisboa no tempo dos GPS.
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- Ainda o primeiro livro não tinha saído e eu já estava a pensar neste. Até fui ver "A Última Ceia". Eu preciso de ver.
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"A Última Ceia" está em Milão, e isso também está no livro, em "flashback". António, o cego, e Serip, o mágico, fazem um "trucco" para contornar as filas de espera e ver a obra-prima de Leonardo.
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E agora atenção, do lado direito da rua:
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- Sushi alentejano! - O autor aproxima-se do menu na porta, que diz "Eddy's Kitchen ®". - Marca registada! Gosto muito quando dois mundos colidem.
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De certa forma, é o que vai acontecer também um bocadinho mais à frente, no antigo bebedor de cavalos, agora abrigo de homens. Sacos de plástico, garrafas de água vazias, um carrinho de bebé podre, o cimo de uma cabeça a mexer-se do lado de lá do muro.
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- Está ali um sem-abrigo.
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A cabeça mostra a cara. É uma mulher de boné. Começa a grasnar como um corvo.
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Rui sabe de uma indignação monárquica, aqui. Quando um homem não levantou bem a bandeira à sua passagem, o rei D. Carlos exclamou: "Seu alarve!"
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- E a freguesia ficou a chamar-se dos Alarves.
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Uns metros mais e passamos por baixo da Rua Filipe Folque. As escadas que vêm de cima têm um "graffito" com cara de boneco japonês e asas de anjo.
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- Um dia vim fazer este caminho como estamos a fazer agora. Era um dia em que tinha de matar o tempo, o dia em que a Tereza fez a operação de quase nove horas, em Santa Maria.
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A Tereza é a mulher com quem Rui começou a namorar há 14 anos e casou há 10, mãe do Henrique e da Sara, jornalista, crítica de livros, editora, biógrafa, argumentista - Tereza Coelho. Quem leu jornais e livros em Portugal desde os anos 80, leu-a de certeza, e não se esquece. Escrevia sem esforço e fulminante, via-se logo que era dela, e escreveu muito, mas como se não tivesse importância, porque o que ela queria mesmo era ler. Não há muitos escritores assim.
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Foi a equipa do Santa Maria que pôs Rui a andar, no dia da operação. Acharam que ia dar em maluco se ficasse ali.
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- Fiz este caminho, voltei lá ao fim da tarde e tinha corrido muito bem.
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Um tumor fora da cabeça.
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Depois Rui começou a escrever "Deixem Passar o Homem Invisível"  no Natal de 2007.
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- E entreguei-o à Tereza um ano depois. Já estava lá a frase final.
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Leiam para crer. É o livro de um amor como no poema de Quevedo, "hão-de ser pó, mas pó enamorado", alguém duvida? No dia a seguir a Rui lhe entregar o livro, Tereza foi outra vez hospitalizada e morreu semanas depois, de uma septicémia.
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"Minha Olívia Palito, onde estás tu, querida, para te salvar?", pergunta António, dentro do esgoto quando pensa na mulher. "Queria dar-te mais um beijo, abraçar-te na nossa casa pequenina."
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Rui caminha pelo meio da rua vestido de preto, com os anéis de Tereza no dedo mindinho.
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S. Sebastião/Viriato/Andaluz
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Estamos na ponta final da Rua de S. Sebastião da Pedreira, quase à esquina da Rua do Viriato, onde fica o PÚBLICO, casa de Rui Cardoso Martins durante vários anos de grande jornalismo como repórter e cronista. E eis que sobe em sentido contrário um dos seus amigos de lá e até hoje, David Lopes Ramos. Mal nos vê, nem precisa de perguntar:
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- Já sei o que estão a fazer.
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Não só já leu o livro como até lá vem citado, a propósito desse petisco que é  a vida.
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E sobre isso tem o narrador muito a dizer: "Qualquer pessoa encontra nos santos algo que lhe diga respeito: a vida é dura." Ou: "O mundo é um lugar perigoso e vai piorar." Ou: "Também apendi a ser mau. Aprende-se num instante." Ou: "É simples: uma pessoa fica má porque quer fazer mal a alguém." Diz o narrador, e repete o autor: "Ainda bem que não sou pessoa para interrogar os desígnios de Deus, ou começava a desanimar."
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Entretanto já está à vista aquele "viaduto aéreo onde o metro respira dois segundos de ar livre". Por cima é a Avenida Fontes Pereira de Melo.
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- O processo que tento usar é juntar passado e presente. Pensar é uma acção. Enquanto escrevo está a acontecer qualquer coisa. Numa cidade tão antiga, com tantas camadas, podíamos ter um GPS para ligar com as histórias dos romanos.
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Pois Lisboa, mal se escava um bocadinho, é isto: "Até soldados do tempo dos mouros, com cota de malha, eles encontraram ao instalarem as novas linhas da TV Cabo." E o livro, que escava todo o seu caminho, vai encontrando o passado: "Fenícios, cartagineses, romanos, muçulmanos, cristãos nas margens do Tejo olhavam o sol a tocar a fortificação da colina, todas as manhãs de todos os séculos"
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Histórias, claro, mas são as histórias que nos mantêm vivos.
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"Deixem Passar o Homem Invisível" é uma odisseia e é as mil-e-uma-noites. Debaixo da terra, António conta histórias a João e João conta histórias a António. À superfície, Serip conta histórias à arqueóloga Madalena, e a arqueóloga Madalena retribui. Vale tudo, o Popeye, a Heidi e o Marco, sifões, sanitas e autoclismos, "truccos" com alternadeiras que depois palmam tudo, tentativas de suicídio por atropelamento e suicídios involuntários com areia da praia, cegos aldrabões que nunca pagam billhete, 15 mil descendentes de rato num ano, e até camaleões daltónicos.
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As histórias são o triunfo da vida.
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Escreve o narrador: "O que os podia salvar, na hipótese fraca de isso acontecer, o que os podia guiar no espaço e no tempo, e dar-lhes forças enormes e incomparáveis com qualquer desafio recente que se lhes colocara, era a narrativa. Era falarem e contarem coisas um ao outro, e histórias e livros, tudo o que aparecesse nas suas cabeças."
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E prestes a entrar no pequeno túnel escuro sobre o qual passa o metro, é de algo semelhante que o autor fala:
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- Não existe a palavra da salvação, mas existem palavras salvadoras, aquelas que nos fazem aguentar. Só percebi isso no meio de uma tragédia pessoal, quando comecei a receber sms a dizer "Sei que as minhas palavras não têm importância..." Claro que têm importância. Se não fossem essas palavras, o que seria?
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Rua de S. Marta
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A partir do Largo do Andaluz é a Rua de S. Marta.
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- Aqui fiz uma medição das tampas de esgoto. Estão de 100 em 100 metros, mais ou menos.
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Um carrito branco pisa uma delas, como se fosse a ilustração sonora, tlonc. Rui espreita por uma sarjeta. Vê-se a água escura reflectindo um pedaço trémulo de céu, beatas e restos a boiar.
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- O Serip grita, mas isto não tem passagem possível. Este pequeno laguinho é o sifão, para evitar cheiros e que a porcaria suba. O sifão é que destruiu a vida daqueles exploradores de esgotos que apanhavam moedas.
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E a caminho do céu, marquises de vidros opacos, fachadas com o sujo a escorrer, da última chuva.
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Há uma teoria sobre terramotos segundo a qual vamos levar com um de 250 em 250 anos. Rui pensou nisso.
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- Pensei: vão acontecer desgraças que nunca mais acabam. Os prémios de seguros aumentaram por causa desse ciclo.
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O "graffito" na esquina diz: "Vende-se ranço fresco e heroína."
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- Nunca tinha reparado nisto. A realidade está sempre a conspirar.
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É uma frase de Alexandre Melo, vem no livro.
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No passeio da esquerda alguém deixou um par de sapatos pretos bicudos, de atacadores. Podiam ser os sapatos do mágico Serip.
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- E o mágico, existe?
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- Partilhei casa com ele quando vim estudar para Lisboa.
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Mas não vamos por aí, porque as personagens nunca são só aquele ou aquela.
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- Juntei umas reais com outras que elaborei, criei algumas que não existiam.
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Foi não a uma mas a várias assembleias de cegos, onde o voto secreto, claro, é de braço no ar.
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E a propósito, se dois não-cegos vão pelo meio da rua a contornar os obstáculos, como nós, imaginem os cegos. Rui agarra na placa "Excepto cargas e descargas" espetada no passeio, mesmo à altura de fazer um lanho na cabeça.
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Logo à beira, o Manjar do Herculano oferece um "Menu Económico" manuscrito numa toalha de papel colada à montra. E a esquadra da polícia em frente.
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- Também quis mostrar a trapalhada do país quando se instala o caos, quem é que manda, a intervenção dos jornalistas.
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Lá estão, cheios de pica, atrás da catástrofe, enquanto os cidadãos-jornalistas enchem as televisões com fotografias de telemóvel. "Eram de fraca qualidade mas tinham a característica, muito apreciada, do homem no centro do perigo."
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Não saímos lá muito bem disto.
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- São os jornalistas da televisão, sempre obrigados a estar em constante "stress", e a repetir, a repetir. Lembras-te de Entre-os-Rios? A perguntarem dez vezes aos comandante dos bombeiros se havia novidades.
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Do lado esquerdo aparece agora a Universidade Autónoma de Lisboa, que foi o Palácio dos Conde Redondo.
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- Tem duas cisternas que tinham ligação directa ao Aqueduto das Águas Livres. Era aquela terrível diferença social entre quem tinha água limpa e quem não tinha.
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A cisterna grande está no pátio de entrada. A pequena está no pátio das traseiras, agora rodeada de uns edifícios tenebrosos e ninguém à vista.
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- Achas que eles se salvam? - pergunta de repente o autor às voltas no pátio, a pensar em António e João, os seus heróis.
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- Para que é que havia de lá estar a última frase se não se salvassem?
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- Essa frase caiu-me na Igreja dos Mártires, ao Chiado, dois meses antes de acabar o livro.
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Caiu-me assim como está.
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Mas não pensem que a vamos dizer aqui.
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Rua de S. José
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A rua muda de santo, Santa Marta para S. José, mas continuamos sempre a eito, agora a falar de "Lillias Fraser", o romance de Hélia Correia em que uma menina atravessa o Terramoto, e isto a propósito dos ratos. Há um momento debaixo da terra em que Rui põe António a morder um rato.
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- Imaginei uma cena em que os ratos se juntam mas medem mal o inimigo e a última coisa de que estão à espera é de serem mordidos. Ah, e ele tem a sorte de morder o chefe.
Um "graffito" com Zeca Afonso. Manequins de plástico cor-de-galão com camisetas dos anos 70.
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- Parece tudo feito de "terylene".
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A seguir a Florista de Santa Marta.
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- Aqui comprei uma rosa para levar à Tereza naquele dia.
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Há prédios entaipados como se fosse para sempre, com varandins nobres de pedra.
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- Antes que me esqueça, quero falar do poder curativo da caminhada, que o Chatwin usa muito, e o Herzog também, e é o que as pessoas fazem quando vão a Fátima. É muito difícil estar quieto quando se está à espera de saber o resultado de algo que está na mão dos médicos. Ao menos podemos andar.
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Um autocolante numa porta: "Tem problemas com baratas?" Ah, a vida na cidade.
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Além dos livros, o que Rui faz no dia-a-dia é escrever as sátiras do Contra-Informação ("humor não é aligeirar, é aprofundar", diz o livro). Também já escreveu dois filmes e talvez não fique por aqui. Trabalha em casa e gosta.
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- Mas um dia penso ir viver para a Serra de S. Mamede.
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Onde os pais têm casa e terra.
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Livros da Primeira Classe e dançarinas de loiça na montra dos antiquários de S. José. Pequeno desvio à esquerda para ir espreitar, na Rua da Fé, o lugar das assembleias de cegos. Passamos o casarão onde nasceu "o glorioso artista Rafael Bordalo Pinheiro" e duas portas adiante está a Casa da Comarca de Arganil, agremiação regionalista. É aqui mesmo. Mas batemos, batemos e ninguém.
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- Gosto muito de Lisboa, sabes - revela, voltando a descer à Rua de S. José. - Tive um período complicado de adaptação. Perder seis vezes a carteira num mês. Entrar num autocarro e as pessoas não se cumprimentarem.. Mas com os anos aprendi a gostar. Gosto da luz, do cheiro, da comida, destas tascas, peixe fresco em qualquer sítio.
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- Um alentejano a dizer que se come bem em Lisboa?
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- Quer dizer, no Alentejo come-se melhor.
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Rua das Portas de Santo Antão
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Palácio e jardins dos CTT e entramos na Rua das Portas de Santo Antão. Solar dos Presuntos à esquerda, junto ao Elevador do Lavra.
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- Quando foi o lançamento do António Lobo Antunes, fui eu e o Gonçalo M. Tavares apresentar. Depois viemos aqui jantar e levei um baile dos dois. Eh pá, leram tanto. Iam passando de país em país.
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À direita, em cotovelo (lá estão os azulejos de Leonel Moura), o Pátio do Tronco, onde Camões esteve preso.
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- Outra coisa que percebi com este livro é que há palavras que só entendemos quando as atravessamos por dentro. E poemas: "Alma minha gentil, que te partiste / tão cedo desta vida, descontente / repousa lá no céu eternamente / e viva eu cá na terra sempre triste."
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Ainda está pesado o céu. Rui olha os telhados do pátio:
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- Há uma coisa que tens de escrever. É que a vida triunfa.
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Dá voltas, à procura de quem lhe diga onde era mesmo a prisão. Ao fundo aparece um homem.
- Penso que eles estavam aqui - O homem abarca o pátio com os braços.
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Eles, os condenados. Estariam amarrados ao tal tronco? Faz lembrar os suplícios do livro, como o daquela santa que foi pendurada pelos cabelos.
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- É a história do cristianismo - resume o autor. - Cada um a tentar encontrar o suplício mais horrível, como se isso desse alguma vantagem.
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Voltamos à rua. Do Politeama sai a voz da Piaf: "Balayés les amours / Et tous leurs trémolos / Balayés pour toujours / Je repars à zéro"
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- Ali ao pé do Gambrinus já cabe um homem de pé - No boqueirão, quer dizer.
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E a Piaf, seguindo-nos até ao Gambrinus: "Non! Rien de rien / Non! Je ne regrette rien / Ni le bien, qu'on m'a fait / Ni le mal, tout ça m'est bien égal!"
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Falamos de percebes, ou perceves. Também estão no livro. Isso e caracóis.
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- Só não gosto de kiwi - diz Rui.
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Cá estamos. E vamos entrar, porque foi o senhor Brito do balcão do Gambrinus que viu o tamanho do boqueirão aqui em frente durante umas obras e contou a Rui. Além disso, quem já comeu um preguinho do Gambrinus também entrava.
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- Eu venho aqui às vezes comemorar as vitórias do Benfica. Às  vezes... Poucas vezes.
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Rossio/Rua do Ouro/Cais das Colunas
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Desde S. Sebastião já vamos em vários quilómetros de santos. Lombo tenro sempre recompõe, acompanhado da sua imperial, mas não olhem agora, que à saída do Gambrinus há uma lagosta ainda viva fora de água.
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Onde é que íamos?
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- Estás a ver, o boqueirão passa por baixo do teatro - alerta Rui, apontado as traseiras do D. Maria.
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Sempre na peugada do boqueirão, ou seja de António e João, cruzamos o Rossio em diagonal até à Rua do Ouro. Se agora olharmos para a esquerda já vemos o castelo, com aquelas ameias de brincar do Estado Novo.
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- Tem para lá uns canhões que roubaram de Marvão - diz Rui, e olhem que ele é da zona.
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Rua do Ouro. Discoteca Amália do lado esquerdo.
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- Isto tem umas caves muito húmidas, já começa a apanhar a zona das estacas, embora a maré não suba até aqui.
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O autor sabe porque foi lá. Tanto trabalho de casa.
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- Aqui, o boqueirão já tem 2.70 por 2.20.
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E na mesma onda da Piaf, não é que a Amália canta: "Amor que o vento / Como um lamento / Levou consigo / Mas que ainda agora / E a toda a hora / Trago comigo / Ai Mouraria..." Lá está a realidade.
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- Algumas partes do livro foram escritas em macas de Santa Maria. Usava aqueles caderninhos...
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Abre a mochila e tira dois cadernos Flecha, da Papelaria Fernandes, capa dura.
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- Já não existem, os Moleskines mataram tudo - diz o autor, a olhar o meu Moleskine.
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Fez quatro cadernos para o primeiro romance e quatro para este. Notas, bocados de diálogos, desenhos. Abre um ao acaso e mostra.
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E além dos livros sobre o metro e o Terramoto, que leu mais?
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- O "Coração" [Edmundo de Amicis, está no livro]. "O Soldadinho de Chumbo" [Andersen, está no livro]. "Ardiente Oscuridad", peça de um espanhol que tem várias peças sobre cegos, Antonio Buero Vallejo.
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Estamos na esquina da Rua da Conceição. Rui vai mostrar o sítio onde às vezes se pode descer às termas romanas e retoma as leituras.
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- Li um romance do Hervé Guibert, "Aveugle". Estudos sobre o papel social do cego. Um cego aprende a ser cego para responder aos padrões.
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E desembocamos no Terreiro do Paço, entaipado, esburacado por várias brocas.
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Quando contornamos os tapumes, o vento sopra tão forte que passamos a gritar, com as roupas enfunadas como velas. Julho, que diabo, e o rio em vagas altas, "escuro como a pele dum rato".
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Rui Cardoso Martins tem mão para imagens, para diálogos, e para fazer do texto em geral uma experiência física: "... a atmosfera desembrulhava-se como um plástico barulhento, de bombom..." Ou: "... um gelo inundou[lhe] a espinha e a testa, na confluência superior do nariz, o sítio onde dói nas imperiais bem tiradas..." Ou ainda: "Chupou os dedos e souberam-lhe a sangue fresco, isto é a aço."
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Faz às frases o mesmo que faz entre a gente quando teme ser excessivo. Torce o rabo ao "grand final", dá-lhe uma volta de parafuso, sempre grande e nunca grandiloquente.
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Não é exactamente modéstia, é não saber ser mau, apesar de saber como isso é fácil.
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Espreitamos os buracos onde os operários estão a trabalhar.
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- Cinco metros? - calcula Rui. E o operário acena que sim.
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Há gente para saber de tudo, e o que corre nas entranhas é todo um mundo.
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- O dr. Raul disse-me que queria conhecer a Madalena.
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Mas a Madalena só existe no livro.
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- Ela tem os mesmos interesses dele, sanitas, lavatórios. Tem que haver alguém que goste desse assunto. Se não, como é que evitamos que os dejectos humanos vão parar ao Tejo?
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Atravessamos a passadeira para chegar ao Cais das Colunas. As ondas estalam nos degraus.
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- Sabes que o Tejo faz mesmo um vale de cento e tal metros?
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Se a água recuasse toda para trás como em 1755 íamos ver, mas é melhor não.
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- Mas dá tempo de fugir, entre 30 minutos a uma hora.
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Enric Vives-Rubio está à espera nos degraus, para fazer as fotografias. Rui posa com as ondas aos pés. O vento chia nas gruas.
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- Ali estão as taínhas a apanhar a porcaria - aponta o autor. - Elas gostam.
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Não se vê, porque a maré está  cheia, mas a porcaria vem do esgoto. Quer dizer, este é o fim do caminho.
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Epílogo com Camões
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Voltamos ao Pátio do Tronco para fotografar. Rui fica de pé no túnel, debaixo da cabeça de Camões.
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- Saímos à rua, podemos morrer de um dia para o outro, perdemos pessoas de quem gostamos, temos de encontrar um caminho de sobrevivência no meio da incompetência, dos maus serviços do Estado, e no entanto a vida triunfa.
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Estão a ver porque é que não há outro título para esta conversa?
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- A Tereza tinha uma frase extraordinária. Diz-se que quando Deus fecha uma porta abre uma janela. E ela dizia: "Pois, no 8º andar." Acredito na coragem física e na coragem moral. E contra a conspiração da realidade e o perigo do mundo é possível fazer alguma coisa, nem que seja contar uma história.
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Não é a fé das igrejas.
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- A fé é legítima, genuína, em muitos casos, e até saudável. Mas na minha opinião parte dos princípios errados. Se Deus me coloca perante a hipótese de um milagre e mo retira, então é má pessoa. A resposta mais simples é Deus não existir.
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A dedicatória é para a Tereza. E para Henrique e Sara. "Não sabias que as crianças podiam ser estas criaturas maravilhosas, não sabias mesmo", pensa António, na escuridão do esgoto, ao ouvir João. "Pensamos que elas são uma coisa, mas são outra, muito mais forte e atenta e inteligente.... e forte, já disse."
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Brasil se mobiliza contra exploração sexual e tráfico de pessoas

Movimentos

Vermelho - 23 de Setembro de 2010 - 15h10

O Brasil realiza, nesta quinta (23) e sexta-feira (24), ações de mobilização em vários estados para chamar a atenção das autoridades e da sociedade para o crime de tráfico de pessoas. Os eventos - reuniões, seminários e atos públicos - que acontecem nos estados de São Paulo, Ceará, Bahia, Pernambuco, Pará e Distrito Federal, marcam o Dia Internacional contra a Exploração Sexual e o Tráfico de Mulheres e Crianças, celebrado nesta quinta-feira (23).

"Esta modalidade criminosa (tráfico de pessoas) tem forte relação, no Nordeste, com o setor de serviços, especialmente em atividades ligadas - direta ou indiretamente - ao turismo", afirmou a vice-presidente do Instituto de Estudos, Direito e Cidadania (IEDC), Inês Soares, que está à frente das mobilizações no Ceará.

Em Fortaleza, capital do Ceará, 120 pessoas participam do Curso de Formação para Agentes Multiplicadores na Prevenção e Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas. O objetivo é dar visibilidade à realidade do crime de Tráfico de Seres e alertar o setor econômico sobre os danos do tráfico para a economia da região Nordeste.

A formação dos agentes visa contribuir na prevenção das vítimas em potencial, que são, geralmente, mulheres, crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social.

Crime peculiar


Inês Soares destaca que "há uma peculiaridade no enfrentamento ao tráfico de pessoas: embora esse crime seja bastante praticado, muitos ainda não veem essas ações como ações criminosas. Há um olhar de que a vítima não é vítima, pois há uma aparência de liberdade nas ações da vítima, que passa a ser vista como beneficiária da ação dos criminosos", esclareceu, acrescentando que "as vítimas do tráfico de pessoas não podem mais ficar invisíveis".

Em São Paulo, no município de São Sebastião, acontece o “Seminário sobre o Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas: Desafios e Possibilidades”. Já em Guarulhos, a Prefeitura Municipal promove um Seminário para discutir e articular diferentes atores no enfrentamento a esta prática, bem como rearticular o Comitê Municipal de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas.

Em Belém (PA), houve mobilização contra a Exploração Sexual e o Tráfico de Mulheres e Crianças no Aeroporto e Terminais Rodoviário e Hidroviário, das 8 às 18 horas desta quinta. Também nesta quinta, houve mobilização contra a Exploração Sexual e Tráfico de Mulheres e Crianças no Pelourinho, em Salvador (BA); o 1o Encontro Municipal de Enfrentamento à Violência, Tráfico e Exploração Sexual, em Jaboatão dos Guararapes (PE) e Oficina Comunitária sobre Tráfico de Pessoas, em Sobradinho (DF)

As ações são articuladas pelos Núcleos de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas e Postos Avançados do Ministério da Justiça.

Exemplo da Argentina

O Dia Internacional contra a Exploração Sexual e o Tráfico de Mulheres e Crianças foi criado a partir da promulgação da Lei Palácios, há 95 anos, exatamente no dia 23 de setembro de 1913, na Argentina. A lei foi criada para punir quem promovesse ou facilitasse a prostituição e corrupção de menores de idade e inspirou outros países a protegerem sua população, sobretudo mulheres e crianças, contra a exploração sexual e o tráfico de pessoas.

Guiado pelo exemplo argentino, no dia 23 de setembro de 1999, os países participantes da Conferência Mundial de Coligação contra o Tráfico de Mulheres escolheram a data como o “Dia Internacional Contra a Exploração Sexual e o Tráfico de Mulheres e Crianças”.
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Chico Buarque dominou homenagem a Saramago

Cultura

Vermelho - 23 de Setembro de 2010 - 17h05

Chico Buarque de Holanda ocupou o palco do Sesc Vila Mariana apenas por alguns minutos da noite de ontem, mas o suficiente para dominar a Homenagem a Saramago, evento que lembrou a vida e a obra do escritor português, morto em junho. Chico encerrou a programação com a leitura de um trecho do livro O Ano da Morte de Ricardo Reis. Fiel ao seu estilo esquivo, ele chegou momentos antes de iniciar sua participação e foi embora minutos depois.

"Procuramos valorizar o maior bem deixado por Saramago, que é a sua escrita", afirmou a atriz Denise Weinberg que, revezando-se com Lígia Cortez e Bete Coelho, leu trechos de Ensaio Sobre a Cegueira. Foi dela também a leitura de um texto inédito do autor, sobre Maria Madalena. A homenagem contou ainda com a presença da espanhola Pilar Del Río, última mulher de Saramago.

O texto com pouca ou nenhuma pontuação foi o principal desafio enfrentado pelas atrizes, que foram dirigidas por Daniela Thomas. "Por conta disso, ensaiamos a tarde toda", completou Denise, confessando ainda que as atrizes colocaram a pontuação em seu texto, para evitar atropelos na leitura.

Entre os trechos lidos, foram projetadas cenas filmadas pelo cineasta português Miguel Gonçalves Mendes e que compõem o material bruto do documentário José e Pilar, que deve estrear no dia 4 de novembro - antes, será exibido sábado no Festival do Rio e, em outubro, na Mostra de Cinema de São Paulo.
 
"São imagens que não estão no filme, mas deverão constar como extra em um futuro DVD", disse o também diretor Fernando Meireles, que produziu o documentário a partir de sua empresa, a O2. "Trata-se de um material maravilhoso, em que Saramago revela sua franqueza, pela qual foi muitas vezes injustamente criticado."

Meireles estreitou relações com o escritor a partir da versão cinematográfica de Ensaio Sobre a Cegueira, rodada boa parte em São Paulo. "A última vez que nos encontramos foi em 2008, quando ele veio lançar aqui A Viagem do Elefante."

O momento também marcou o editor Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras, que edita a obra de Saramago no Brasil. "Ele deveria saber que seria sua última visita ao Brasil", comentou ele, que costumava hospedar o escritor em sua casa. "Dessa vez, quando Pilar entrou pela primeira vez sem o José, ficou admirando o jardim, pensativa."


Fonte: O Estado de S.Paulo

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sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Mapa da Grande Lisboa

Portugal Grande Lisboa Grande Lisboa
 
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Portugal Grande Lisboa Península de Setúbal


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quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Ingyen ölelés/Free Hugs Saját videótáramba teszem ezt!


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leírás:
A felvétel egy olasz városkában készült, ahol egy,
a világ több városában indított mozgalom szemtanúi
lehetünk.
A táblákra angolul és olaszul az van
írva: ingyen ölelés ]
A többi már
önmagáért beszél!
A dal Leonard Cohen
szerzeménye. ...(Italy/2010)

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Enviado por E.B
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República Como se conta esta história?

Enric Vives-Rubio
Exposição
 
08.09.2010 - Alexandra Prado Coelho
Ípsilon

A I República durou apenas 16 anos, mas são 16 anos cheios de protagonistas, golpes e contra-golpes, grupos, partidos, associações, ideias novas, novos protagonistas, mudanças históricas. Na Cordoaria, em Lisboa. há cabines de aviões, praças do Rossio e trincheiras da I guerra para tornar curta uma longa história. 
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Entramos, e na primeira sala Portugal asfixia.
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"Asfixiava-se", conta-nos o texto na parede. Era desta forma que, em 1909, Raul Proença resumia o estado de espírito do país num texto publicado no jornal "A Vanguarda". "O Governo de João Franco, esse execrável criminoso político, esse nevropata perigoso, sem uma ideia nem um afecto, tinha atingido o cúmulo do despotismo. Pairava sobre a pátria portuguesa uma aflição, que oprimia e que sufocava. A vontade de rir fora-se. Sob este céu clemente e azul só ficara a vontade das lágrimas ou a vontade da revolta."
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Começa assim, ainda no estrebuchar da monarquia, a contar-se a história da república no enorme espaço da Cordoaria Nacional, em "Viva a República!", exposição inserida nas comemorações do Centenário da República, comissariada pelo historiador Luís Farinha e com design de Henrique Cayatte.
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Figuras de homens e rapazes saídos de uma fotografia de Joshua Benoliel de um comício republicano cresceram e encavalitaram-se no topo de uma divisória em tamanho natural feita de tábuas de madeira, onde cartazes publicitários aos licores da Fábrica Âncora ou à "lexívia hygiénica" se misturam com panfletos apelando ao voto nas eleições municipais. Numa parede negra destaca-se: "A Revolução é matemática e fatal". Disse-o Bernardino Machado em Julho de 1908. A mudança aproximava-se.
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Num ecrã côncavo rodam à nossa volta imagens que marcam o fim de um regime: o ultimato inglês, as tentativas de D. Carlos para recuperar legitimidade política, as dívidas da monarquia. A sucessão de acontecimentos conduz-nos a outra parede com letras brancas salpicadas de sangue: 1 de Fevereiro de 1908, 17h10, Praça do Comércio. O regicídio.
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E a história prossegue pelas longuíssimas naves da Cordoaria. O crescendo de apoio aos republicanos, sobretudo depois da conquista da Câmara de Lisboa em 1908. Fotografias, textos, filmes que estavam esquecidos nos arquivos da Cinemateca e foram agora recuperados, um mapa de Lisboa no chão com focos de luz indicando os sítios dos confrontos na noite de 4 para 5 de Outubro de 1910. A implantação da república. Uma imagem pouco nítida da família real a fugir na praia da Ericeira.
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E depois... o Rossio dentro da Cordoaria. À nossa frente ergue-se a fachada do Teatro Nacional D. Maria II, atrás de nós uma fonte. E novas salas, paredes cheias de informação - a luta contra o clero, as jovens retiradas dos conventos e restituídas às famílias, as novas escolas, os banhos às crianças pobres na Trafaria, o novo culto da educação física.
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E a guerra. As trincheiras. África. A frente europeia. Os mortos de La Lys. As divisões entre os republicanos. Sidónio Pais. A gripe espanhola. A morte de Sidónio - a foto, a toda a altura da parede, manchada de sangue. A "noite sangrenta" de 19 de Outubro de 1921 (ouvem-se tiros, cavalos relincham nas ruas), mortes, assassínios, ajustes de contas. E já faltava pouco para os anos 20, os "anos loucos", as festas e os banhistas, o modernismo, Pessoa e Almada Negreiros. E para Gago Coutinho e Sacadura Cabral se lançarem na aventura de atravessarem de avião o Atlântico Sul (temos aqui cabines com jogos de vídeo em que podemos pilotar aviões).
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E falta pouco também para a república ser derrubada - não sem resistência, é certo - e para chegar Salazar, o "mago das Finanças". O fim da aventura.
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Menos é mais
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Durou apenas 16 anos a I República portuguesa. Mas esta não é uma história fácil de contar. Foram 16 anos intensos, cheios de nomes, heróis, anti-heróis, grupos e grupúsculos, instabilidade e mudanças históricas. Nasceu aí muito do que ainda somos hoje. Mas como se conta esta história?
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Henrique Cayatte resume o dilema: "É um período complexo, os historiadores têm sempre toneladas de informação - como é que se torna isso numa coisa legível, interessante e compreensível para o cidadão comum, que não sabe nada do assunto?" Primeira preocupação: "Transformar em curta uma longa história". Mas "sem ferir, nunca, a pesquisa que foi feita".
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Para o designer, "o resultado deve obedecer à máxima 'menos é mais' - menos informação para mais atenção e inteligibilidade", o que significa sacrificar muita da informação recolhida, muita da pesquisa, muitas imagens. Muito do que fica de fora pode ser aproveitado no catálogo ou no site, mas não deve sobrecarregar a exposição.
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Depois é preciso criar ritmo. "Cores, sons, espacialidades, disposição de textos, ecrãs e outros elementos avulsos têm de contribuir para criar ciclos de emoção e atenção, para tentar contrariar um discurso 'plano' e sem 'chama'." Um momento de maior informação, e de seguida um espaço aberto, como a Praça do Rossio.
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Uma coisa é evidente: não é fácil resumir a república. "Podemos falar dela pelos aspectos de mais fácil abordagem, como se fez com o Corpo ou o Turismo [as duas exposições também integradas no Centenário e que estão nos dois torreões do Terreiro do Paço], e poderíamos fazer o mesmo com a Cultura ou o Desporto. Com estas abordagens simplificadas teríamos mais facilidade em chegar ao grande público", diz o comissário Luís Farinha. "Mas uma exposição sobre a parte política não é fácil porque foi um período complexo. Foi complexo antes e durante a guerra e particularmente complexo depois da guerra, numa altura em que se estava a tentar encontrar outras soluções político-partidárias e não se conseguia. Tornar estas ideias acessíveis ao público não é fácil."
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Outro problema é que, numa exposição como esta, para um público geral, é preciso contar a história do princípio. "O estudo da história de Portugal [nas escolas] não é assim tão intenso sobre este período que permita que as pessoas tenham um conhecimento efectivo do que foi a I República", explica Fernanda Rollo, comissária executiva da comissão para as comemorações.
Houve nos últimos anos muita investigação, "mas ainda não passou em larga medida para os manuais do ensino básico e secundário", lamenta Luís Farinha. "Os manuais do 9º e do 12º ano, que são os que mais tratam a república, tratam-na muitíssimo mal. Para o 12º ano há manuais que têm três ou quatro páginas. Passa-se normalmente da implantação da república para a queda da república."
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Isto leva a que "olhemos para este período com um certo olhar crítico, deformado pela leitura que foi feita pela historiografia do regime que veio a seguir [o Estado Novo]", constata o comissário. "Há um conjunto de estereótipos e mitos que por vezes são difíceis de contrariar."
Um exemplo: a ideia de que a I República "não passou de um regime que utilizou de forma constante a violência, e em que os motins e as greves eram permanentes". É preciso contextualizar, defende Farinha. "Se olharmos para o sindicalismo a seguir à guerra e o virmos como uma resposta a uma sociedade onde havia falta de emprego, inflação galopante, a pneumónica, onde os conflitos sociais eram fortíssimos, estamos a ter uma perspectiva diferente das coisas. Há projectos políticos diferentes em confronto, o que vai desencadear períodos intermitentes de guerra civil. Isso é um facto indesmentível. Mas é uma primeira tentativa, falhada, de democratização da sociedade. Resumindo tudo à violência, estamos a dar uma ideia completamente deformada."
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O que é importante mostrar, defende Fernanda Rollo, é que "estamos a comemorar cem anos de uma alteração radical no modo de vida político de Portugal". Para compreendermos o que somos hoje temos que conhecer esse período histórico. "É nesse quadro que vivemos hoje, com o mesmo hino, a mesma bandeira, e, no fundo, sem nunca ter sido posto em causa o regime republicano." A I República "traz uma marca forte de modernidade e introduz uma série de propostas, algumas das quais não se chegaram a efectivar, mas que são valores e princípios determinantes até aos dias de hoje."
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Referência para uma geração
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O historiador Fernando Rosas (que não está ligado à exposição da Cordoaria, mas é um estudioso deste período) tenta explicar isso mesmo nas palestras e colóquios em que tem participado pelo país - "sinto-me quase em campanha eleitoral", brinca - neste ano de centenário da república. Confrontado com o mesmo problema de tornar curta uma história (muito) longa, chegou a uma fórmula em que tenta responder a três perguntas: Porque vence a república? O que ficou da república? Porque cai a república?
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Centremo-nos na obra que a república deixa e no que ela ainda pode significar para nós hoje. "Foi uma referência para uma geração inteira", diz Rosas. "Os constitucionalistas de 1976 aprenderam muito com a I República. O nosso regime é semi-presidencial para evitar os erros do parlamentarismo puro dessa altura. A república deixou coisas em que hoje ninguém repara mas que são definitivas: a separação do Estado e das igrejas (nem Salazar conseguiu mexer nisso); o registo civil (é preciso lembrar que todo os actos de nascimento, casamento e morte eram monopólio das paróquias católicas, e uma das batalhas mais violentas da república foi para nacionalizar o registo civil); e a obra simbólica, que é a mais importante de todos os regimes do século XX. A república vai direita ao assunto, muda o hino, a bandeira, a moeda. E faz uma revolução total na toponímia. Em todo o lado há uma Praça da República, uma avenida Almirante Reis ou Miguel Bombarda."
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Rosas é "neto de um velho republicano" e aprendeu a história da república a ouvir o avô durante os almoços das quartas-feiras em casa da mãe. "Contou-me coisas que são testemunhos irrecuperáveis. Por exemplo, a relação dos republicanos com o assassínio de Sidónio. Não há documentos nenhuns, mas lembro-me muito bem de ele me falar nisso."
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Mas se para algumas gerações, a república é a referência - "o Partido Socialista de Mário Soares vem da esquerda republicana que surge no pós-guerra", sublinha Rosas - e se há "um grupo de jovens intelectuais oriundos desse republicanismo radical que vai marcar profundamente a política portuguesa toda", as gerações mais novas já não têm esta referência tão presente. E é isso que exige que a exposição da Cordoaria seja didáctica.
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"Tínhamos como ponto de partida um período histórico extenso e muito atribulado, que podia ser exposto de muitas formas, um espaço especial - a Cordoaria Nacional - um orçamento que não podíamos ultrapassar e um calendário muito apertado", recorda Cayatte. Houve uma preocupação essencial: "Procurar ser isento e não adjectivar nem positiva nem negativamente este ou aquele período, político ou acontecimento". E "se isso é crítico no que diz respeito ao conjunto da investigação também o deve ser no design."
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Ou seja, não fazer uma leitura maniqueísta da história, não cair na tentação de apresentar heróis e anti-heróis. "Tentámos não esconder nada do que se passou - tanto quanto é possível dentro dos 400 metros da Cordoaria", afirma Luís Farinha. Uma das preocupações foi mostrar rostos. Se o rei D. Carlos é facilmente identificável, já os muitos protagonistas da república são menos conhecidos. "Quisemos que a exposição tivesse rostos. Se há época no século XX em que há grandes movimentos de massas, em que muita coisa se passa na rua, é na república. Toda essa movimentação traz milhares de rostos anónimos, traz uma mudança grande das elites. Em 1911 não está nos órgãos políticos praticamente ninguém que estava nos anos anteriores. Desse ponto de vista podemos compará-la ao 25 de Abril."
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A opção foi, em cada um dos núcleos em que se divide a exposição, destacar "uma personalidade que pudesse ser a mais significativa." Na sala que conta a noite de 4 para 5 de Outubro, por exemplo, "só podia ser o rosto de Machado dos Santos, é indiscutível, não há mais ninguém na Rotunda a não ser ele" (o militar que não desistiu quando os outros achavam que a revolução estava perdida).
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Material gráfico não faltou. "Há fotografias excelentes", continua o comissário. "Um terço da exposição é do [Joshua] Benoliel, um fotógrafo fantástico. Havia na época um fotojornalismo de grande qualidade. E a imprensa vai trazer novidades ao nível do tratamento gráfico". Tudo isto inspirou a equipa que montou a exposição. "O taipal que está no início [com os homens empoleirados] foi inspirado numa fotografia de Benoliel de um comício na avenida D. Amélia, onde hoje começa a Almirante Reis, a zona onde na altura havia todos os comícios."
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O mais complicado foi o último núcleo, que conta o confuso período que se seguiu à queda da república em 28 de Maio de 1926. Foram anos de golpes e contra-golpes, durante os quais a república tentou resistir. "Aí tivemos o cuidado de pôr em confronto sempre um projecto de esquerda e um de direita, de um lado os seareiros [da revista Seara Nova], e do outro os nacionalistas, exactamente com o mesmo peso."
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Mas não passou ainda o tempo suficiente para que o olhar sobre a república possa ser consensual. Para Rosas, um dos "cinco pecados capitais" que levaram à queda do regime foi a decisão de entrar na I Guerra. "Foi inteiramente suicidária, uma loucura total. Ainda hoje tenho a maior das dificuldades em entender como é que políticos responsáveis lançaram um país rural, quase sem indústria, naquilo que era o conflito tecnologicamente mais sofisticado que a humanidade tinha conhecido."
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Luís Farinha tem outro olhar. "Interessa-me compreender aquele projecto, que é nacionalista, colonialista. Os republicanos têm uma estratégia clara que é a de ancorar o desenvolvimento do país em três margens do Atlântico: Portugal, Angola e o Brasil. E é a partir das colónias que se acende a ideia de que estas se vão perder se Portugal não entrar no conflito europeu. A república encara o projecto ultramarino como central para a existência do país: Portugal só é possível com as colónias."
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Mas se o grafismo e a estética da república foram uma influência da exposição, houve outras características daquele período determinantes para o olhar dos que nela trabalharam. "O mais importante é a liberdade", diz Cayatte. "De se pensar e de se debater, de se trocar pontos de vista, muitas vezes contraditórios, e de se perceber que afinal este é um tema que apaixona as pessoas. Umas a favor e outras contra. Umas contra tudo e outras a favor de tudo. Outras nem por isso."
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Esta, sublinha o designer, não é uma exposição "panfletária". "Procura perceber o que se passou e como se passou. O design tem que secundar essa preocupação. Seria um erro que tivesse resultado numa exposição 'pirotécnica' de efeitos que tivesse subjugado o que é, de facto, importante: contar a história."
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quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Eine kleine Nachtmusik (Wolfgang Amadeus Mozart)


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BPanther | 2 de Fevereiro de 2007
Hier sehen sie Nachtimpressionen aus den Städten Weingarten und Ravensburg in Oberschwaben. Das ganze ist mit Mozart´s kleiner Nachtmusik unterlegt.
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Für die Musik habe ich eine Lizenz !
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Ich besitze eine Genehmigung vom Staatl. Liegenschaftsamt Ravensburg für die Veröffentlichung der Bilder aus der Basilika Weingarten.
Ausserdem auf meinem Kanal : Donauwalzer,Wienerblut,Kaiserwalzer,An
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