Discurso de Lula da Silva (excerto)

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quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Hino à Maria da Fonte - Vitorino


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susanagardete | 6 de Outubro de 2009
Hino à Maria da Fonte, uma mulher das bandas da Póvoa de Lanhoso, que desempenhou um papel activo na revolução que rebentou no Minho, em Maio de 1846, contra o governo de Costa Cabral.
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http://www.youtube.com/watch?v=vQaxgLiW_ow


Viva a Maria da Fonte
Com as pistolas na mão
Para matar os cabrais
Que são falsos à nação

É avante Portugueses
É avante sem temer
Pela santa Liberdade
Triunfar ou perecer

Viva a Maria da Fonte
A cavalo e sem cair
Com as pistolas à cinta
A tocar a reunir

Já raiou a liberdade
Que a nação há-de aditar
Glória ao Minho que primeiro
O seu grito fez soar
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http://www.lyricstime.com/vitorino-maria-da-fonte-lyrics.html
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Maria da Fonte.

Assim se chamou a revolução que rebentou no Minho em Maio de 1846 contra o governo de Costa Cabral, mais tarde conde e marquês de Tomar. A causa imediata da revolta foram umas questões de recrutamento, e a proibição dos enterramentos feitos dentro das igrejas, em que desempenhou um papel irrequieto e activo uma desembaraçada mulher das bandas da Póvoa de Lanhoso, conhecida pelo nome de Maria da Fonte. Os tumultos multiplicaram-se, tomando afinal as proporções sérias duma insurreição, que lavrou em grande parte do reino. 
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A rainha D. Maria Il, assustada com esta insurreição verdadeiramente popular, viu-se obrigada a demitir o ministério cabralista, chamando ao poder o duque de Palmela e Mousinho de Albuquerque, mas, quando ,julgou que abrandara assim a revolução, e que o duque da Terceira, que nomeara seu lugar tenente nas províncias do norte do país, poderia reprimir as indignações do povo e estabelecer ali a paz, deu o golpe de Estado de 6 de Outubro de 1846, e sem nomear Costa Cabral, formou um ministério pronunciadamente cartista, presidido pelo marechal Saldanha. Esta notícia foi transmitida ao Porto pelo administrador de Vila Franca, e excitou a cólera dos portuenses. Rebentou então a revolta com espantosa energia, o duque da Terceira foi preso, e nomeou-se uma junta provisória, cuja presidência se deu ao conde das Antas e a vice-presidência a José da Silva Passos, que era a alma da revolta, e irmão do grande ministro progressista Manuel da Silva Passos. O visconde de Sá da Bandeira apareceu no Porto, aderindo à revolução. A Junta do Porto é verdade que legislava em nome da rainha, e fazia-lhe manifestações de dedicação, mas o espírito popular estava sendo nessa ocasião bem pouco simpático à soberana, que desta vez tomara a iniciativa da contra-revolução, dando o golpe de Estado de 6 de Outubro. O Espectro, jornal redigido por António Rodrigues Sampaio, e que se publicava em Lisboa, sem que a polícia conseguisse descobrir a imprensa que o imprimia nem os seus redactores, atacou pessoalmente a rainha pela sua intervenção nefasta na politica partidária. 
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A Junta do Porto, apesar de dispor de vastíssimos recursos, não era feliz, por causa da imperícia dos seus generais. Sá da Bandeira era batido em Vale Passos pelo barão do Casal; o conde de Bonfim era completamente batido em Torres Vedras pelo marechal Saldanha, em Dezembro de 1846, batalha em que foi morto o general Mousinho de Albuquerque; Celestino era destroçado em Viana do Castelo pelo general Schwalbach, o barão de Casal tomara Braga, os marinheiros de Soares Franco tomaram Valença e Viana do Castelo. Ainda assim a insurreição era tão forte, que, para se lhe pôr termo, foi precisa a intervenção estrangeira. Uma esquadra inglesa aprisionou a esquadra da Junta com a divisão do conde das Antas que ia a bordo, e um exército espanhol, do comando de D. Manuel Concha, foi ocupar o Porto. Ao mesmo tempo as tropas da Junta, comandadas pelo visconde de Sá da Bandeira, eram batidas no Alto do Viso pelo general Vinhais. A convenção de Gramido. de 30 de Junho de 1847, pôs fim a essa terrível insurreição, que tanto assustara a rainha, que nem sempre mostrou com os vencidos a clemência que se poderia esperar da sua generosidade. A revolução da Maria da Fonte é um dos episódios mais importantes da nossa história politica do século passado. Foi nesse movimento que muito se salientaram homens, que se tornaram muito populares, como os dois irmãos Passos, Rodrigo da Fonseca Magalhães, José Estêvão Coelho de Magalhães, Manuel de Jesus Coelho, etc. 
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O maestro Ângelo Frondoni compôs por essa ocasião um hino popular, que ficou conhecido pelo nome de Maria da Fonte ou do Minho, que respirava um certo entusiasmo belicoso; e por muito tempo foi o canto de guerra do partido progressista em Portugal. Camilo Castelo Branco escreveu um livro com o título Maria da Fonte, que trata minuciosamente deste assunto. São também interessantes os Apontamentos para a historia da Revolução do Minho em 1846 ou da Maria da Fonte, pelo padre Casimiro. Na Biblioteca do Povo e das Escolas, o n.º 167 é a história da Revolução da Maria da Fonte, pelo Sr. João Augusto Marques Gomes. Um dos primeiros trabalhos do romancista Sr. Rocha Martins intitula-se Maria da Fonte.
 
 
Transcrito por Manuel Amaral
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http://www.arqnet.pt/dicionario/mariafonte.html
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" Dia Maria da Fonte -15 de Abril "

Trabalho e Pesquisa de
 
Carlos Leite Ribeiro
 
 
 
 
 
 
 
AVISO:
Caso o som lhe incomode, clique no primeiro botão e pare a música



(Movimento popular que teve a sua origem na 
Póvoa do Lanhoso (Minho)
a 15 de 1846 e que se estendeu
depois a todo o Portugal)
 
 
HINO MARIA DA FONTE


Viva a Maria da Fonte
Com as pistolas na mão
Para matar os cabrais
Que são falsos à nação

É avante Portugueses
É avante não temer
Pela santa Liberdade
Triunfar ou perecer

É avante Portugueses
É avante não temer
Pela santa Liberdade
Triunfar ou perecer

Viva a Maria da Fonte
A cavalo e sem cair
Com as pistolas à cinta
A tocar a reunir

É avante Portugueses
É avante não temer
Pela santa Liberdade
Triunfar ou perecer

Lá raiou a liberdade
Que a nação há-de aditar
Glória ao Minho que primeiro
O seu grito fez soar

É avante Portugueses
É avante não temer
Pela santa Liberdade
Triunfar ou perecer

É avante Portugueses
É avante não temer
Pela santa Liberdade
Triunfar ou perecer
 

Ainda hoje, o Hino da Maria da Fonte continua a ser a música com que se saúdam os ministros portugueses, sendo utilizado em cerimónias cívicas e militares. (Mas não é o Hino Nacional Português). 0 maestro Ângelo Frondoni compôs por essa ocasião um hino popular, que ficou conhecido pelo nome de Maria da Fonte ou do Minho, que respirava um certo entusiasmo belicoso; e por muito tempo foi o canto de guerra do partido progressista em Portugal. Camilo Castelo Branco escreveu um livro com o título Maria da Fonte, que trata minuciosamente deste assunto. São também interessantes os Apontamentos para a historia da Revolução do Minho em 1846 ou da Maria da Fonte, pelo padre Casimiro. Na Biblioteca do Povo e das Escolas, o n.º 167 é a história da Revolução da Maria da Fonte, pelo Sr. João Augusto Marques Gomes. Um dos primeiros trabalhos do romancista Sr. Rocha Martins intitula-se Maria da Fonte.
 
Revolta da Maria da Fonte

         (...)
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Maria da Fonte - por Mário Casa Nova Martins (Alameda Digital)
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A Revolução do Minho em 1846, mais conhecida pela Revolução da Maria da Fonte, pode ser inicialmente identificada como uma revolta contra as chamadas «Leis de Saúde», mais concretamente contra a lei que proibia os enterramentos nas Igrejas, obrigando que os defuntos fossem sepultados em cemitérios. Mas, a par da oposição às «Leis de Saúde» estava a luta contra o aumento dos impostos decretado pelo Governo, traduzido na destruição das «bilhetas», que eram os boletins das contribuições. Também, a oportunidade da Restauração de D. Miguel. E, com o alastrar da revolta a outros pontos do País, a união de Cartistas, Miguelistas e Setembristas leva a que os Cabrais se vejam obrigados a abandonar Portugal. A Revolução da Maria da Fonte teve, portanto, consequências políticas muito para além do que os seus promotores alguma vez pensaram.
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«Começara o ano de 1846 docemente reclinado nos fagueiros braços da mais bonançosa paz. A agricultura prosperava, o comércio desenvolvia-se, as artes floresciam, o crédito público aumentava, a viação começava os seus primeiros ensaios e as contribuições não escaldavam» (1). Mas o Minho profundo, aquele Minho mais conservador e mais tradicional, estava a movimentar-se, primeiro em surdina, e depois pelos actos contra a proibição de enterrarem os seus mortos nas Igrejas. Contra as autoridades vão fazê-lo, em Março na freguesia de Garfe, antes na freguesia de Travassós, concelho de Guimarães, nos primeiros dias de Abril na freguesia de Fonte Arcada, e, quase no fim desse mês, no lugar de Simões. Estes acontecimentos eram protagonizados por mulheres, armadas «umas de chuços, outras de ferrelhas e pás de enfonar, muitas com choupas e sacholas, algumas com forcados e espetos» (2), que levavam o esquife, não permitindo a presença de homens.
As autoridades participavam estes atropelos à lei ao Governo Civil, mas não obtinham resposta. Somente a seguir ao caso em Simões é que foi emitida voz de prisão para Maria da Fonte e suas sequazes, que foram presas, à excepção da cabecilha que conseguiu fugir. «Na sexta-feira próxima em que havia confessores para a desobriga» (3), o juiz de direito, o delegado, o oficial de diligências e os adjuntos dirigiram-se ao lugar, e o povo começa a tocar os sinos a rebate, tendo as autoridades que fugir. «Foi então que apareceu a Maria da Fonte de clavina empunhada e duas pistolas ao cinturão, gritando: Vamos à cadeia tirar as presas! Viva o Senhor Dom Miguel!» (4). Chegados à Póvoa, são as presas libertadas, regressando a suas casas como heroínas. Entretanto, as autoridades enviam um destacamento de cinquenta praças do Regimento “8” para a Póvoa, que nada faz. Pouco tempo depois ocorre outro enterro, na freguesia de Galegos, onde Maria da Fonte e as suas companheiras voltam a aparecer. Agora, a toda a gente é permitido assistir, participando o Clero plenamente na cerimónia. Desta ocorrência, são presos um homem e uma mulher, mas, «ao passarem na serra do Carvalho, lá vão tirá-los à escolta os moradores das próximas freguesias de Ferreiros e Geraz» (5). Entre 15 e 16 de Abril a revolta assume proporções inesperadas, com o ataque a Guimarães conduzido pelo Padre José das Caldas, e o ataque a Braga pelas gentes do Prado. Ao mesmo tempo são queimados todos os papeis dos arquivos da administração. Maria da Fonte participa em todos estes actos.
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É importante que uma qualquer altercação da ordem estabelecida tenha um nome, ou esteja personalizada numa pessoa que, por vezes, se torne de difícil identificação. O imaginário popular necessita destas personagens, com as quais se tenta identificar, transformando-as em mitos. E, esses mitos passam de geração em geração, através da tradição oral, passando a fazer parte da história alternativa, o mundo da Tradição, enunciado por Julius Evola. A palavra «tradição» não tem, evidentemente, a mesma ressonância ou a mesma significação para todos os espíritos. De entre aqueles que se lhe referem, alguns pretendem falar da tradição cristã, outros da tradição europeia, fazendo, assim, alusão a correntes que estiveram associadas durante séculos, depois de terem nascido separadas, e que hoje, de novo, tendem em separar-se. Outros falam, ainda, de uma Tradição esotérica, que não é mais do que o fruto da sua imaginação e da sua credibilidade. Tradição é a estrutura específica, reflexo de um esquema mental particular, no qual se foram inscrevendo, no decurso dos tempos, as diversas formas sócio-culturais da cultura dominante, e principalmente as tradições, isto é, o conjunto de hábitos e ritos consuetudinários característicos desta cultura (6). O mito, a lenda ou a saga estão desprovidos de verdade histórica e de força demonstrativa e adquirem, pelo contrário, por essa mesma razão, uma validade superior, tornando-se fonte de um conhecimento mais real e seguro (7).
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A Padeira de Aljubarrota, o Manuelinho de Évora e a Maria da Fonte são exemplos de personagens ligadas ao povo e que representam ainda hoje a simbologia contra o invasor, o despotismo fiscal, ou contra o poder central do Estado. Brites de Almeida, a Padeira de Aljubarrota, matou depois da batalha, sete castelhanos fugitivos com uma pá, cujos restos ainda existem, permitindo prolongar no tempo a ideia da bravura das mulheres portugueses contra os invasores castelhanos, e, mais tarde, franceses (8). A revolta do povo de Évora, em 1637, contra um novo imposto, durante a ocupação castelhana, conduziu à tomada da cidade, constituindo-se um poder efectivo, conquanto clandestino, de características perturbantes à face da lei e dos costumes, que endereçava a responsabilidade das suas proclamações e provisões ao Manuelinho, doido muito conhecido e popular em Évora (9).
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Maria da Fonte é nome de mulher, mas, terá realmente existido uma mulher com esse nome, ou será apenas fruto de uma lenda? Efectivamente, os seus contemporâneos distribuíram os atributos da personagem por diferentes mulheres, de diferentes lugares. Uma é apresentada como irmã de um sapateiro de Simões, da freguesia de Fonte Arcada, de nome Maria Angelina, a quem chamavam Maria da Fonte, e fora processada e pronunciada nos tumultos da Póvoa de Lanhoso (10). Outra, era uma doceira de Valbom, nas vizinhanças de Lanhoso, que andava pelas feiras e romarias inculcando-se a Maria da Fonte (11). O jornal «Comércio de Portugal», de Lisboa, de 15 de Março de 1883, identificava Ana Maria Esteves, que teria, então, cinquenta e seis anos, nascida em São Tiago de Oliveira, Póvoa de Lanhoso, e casada com António Joaquim Lopes da Silva, como a Maria da Fonte (12). Finalmente, Maria da Fonte terá sido uma criança abandonada à beira da Fonte do Vide, no lugar do Barreiro, da freguesia de Fonte Arcada, que foi criada por Josefa Antunes, e que, por morte desta, passou a viver no lugar de Valbom, onde, finda a revolta, regressou, tendo posteriormente casado e partido, sem que mais se soubesse notícias dela (13).
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O baixo Clero desempenhou um papel determinante na Revolução do Minho, não só na disseminação da ideia, como na arregimentação do Povo para a guerrilha. De pouca cultura, mas com um forte sentimento quanto ao Sobrenatural e à Tradição, o Clero minhoto tinha como pastores espirituais homens rudes, integralmente dedicados ao Trono e ao Altar, como, entre muitos outros, os Padres João do Cano, José das Caldas, José da Lage, Manuel da Agra, e, o mais popular de todos, o Padre Casimiro. Padre Casimiro José Vieira, «Defensor das Cinco Chagas e General Comandante das Forças Populares do Minho e Trás-os-Montes», nasceu no ano de 1817, em Vieira do Minho. Nas vésperas da Revolução da Maria da Fonte, «em Março de 1846 estudava retórica em Braga, habilitando-se para pregador. Era boa figura, tinha um lindo bigode preto, era muito pândego» (14). Profundo legitimista, de mero espectador da revolta popular, rapidamente passa à liderança daquelas gentes. «A força e a popularidade do Padre Casimiro residem, acima de tudo, na eficácia com que utilizou os parcos meios ao seu alcance. O principal desses meios foi, sem dúvida, o conhecimento do terreno. As subtilezas da psicologia não lhe são, também, desconhecidas. Totalmente consciente de que a sua guerra mais não poderia ser do que uma guerrilha de camponeses, mantém-lhe sempre o ritmo sincronizado pelo ritmo dos trabalhos agrícolas» (15). 
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A principal tarefa que atribuía a si próprio era a defesa do Trono, na pessoa do Rei legítimo, D. Miguel I, e do Altar. A Igreja vivia um época difícil no Portugal Liberal, e o sentimento profundamente religioso das gentes do Minho chocava-se com o que ia assistindo nas suas terras, e com as notícias que os almocreves e os pasquins lhes traziam das perseguições movidas pelos liberais. A propaganda liberal criou de D. Miguel I a imagem dos vencedores contra os vencidos, isto é, vencedores, atribuíram ao Rei legítimo um conjunto de adjectivos suezes, que não correspondiam à verdade daqueles tempos. O miguelista arquetípico definia-se, «depois da Convenção de Évora-Monte, simultaneamente saudoso do seu Rei e consciente dos erros e das imbecilidades dos poderosos que o cercavam e que o venderam como Cristo. Aí surge a figura de um outro D. Miguel I, bem diferente do usurpador caceteiro ou do campino da Vilafrancada, convencionalizados pela história, mas sim o Rei do povo miúdo, amado pelos soldados e pela arraia que se sacrifica na guerra sem saber perfeitamente o que era o liberalismo pedrista, a não ser uma vaga doutrina essencialmente anticatólica que os aterrava e punha em xeque todo um edifício de convicções multi-seculares» (16).
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Padre Casimiro, tal como tantos outros Padres do Minho, é um convicto miguelista, e vai preparando as suas gentes e os seus guerrilheiros para a luta pela Restauração de D. Miguel I. «Decidido a restaurar D. Miguel I, adquiriu enorme prestígio entre as gentes simples dos campos e dos montes, foi incansável nos seus propósitos, fazendo frente aos destacamentos militares enviados de Braga para reduzirem à obediência os amotinados (17)». Chegou a controlar a área entre os rios Cávado e Ave, e a recrutar apoiantes em Trás-os-Montes. À facilidade com que enunciava os seus princípios, no Púlpito, ou aos povos que ia conquistando para a Causa, juntava-se a maneira popular, mas agradável, como escrevia nos diferentes periódicos do Norte, alimentando, com o exemplo e com a palavra, a missão a que se propusera, redentor de Portugal restaurando o Rei deposto.
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A ligação entre D. Miguel I e o mito do miguelismo surge logo após o primeiro desterro para a Áustria, no seguimento da Abrilada, em 1824, onde D. João VI, por intervenção do Corpo Diplomático e perante as ameaças deste em abandonar Lisboa, ordena a sua exoneração de generalíssimo dos exércitos (18). «A mentalidade mítica, ao contrário do pensamento racional, apreende a realidade sócio-histórica como o resultado de esforços e de lutas de potências, que nas culturas sacras têm natureza santa e nas secularizadas natureza misteriosa, isto é, algo que não só não é explicado, como também não pode ser explicado racionalmente (19). Durante o tempo em que esteve ausente de Portugal, a política do Duque de Palmela mais fez crescer a saudade que, principalmente, o povo sentia de D. Miguel I. «A morte do controverso D. João VI daria pretexto, entre outras coisas, a que se começasse a falar do Infante, “cativo” em Viena, como se fosse o “Desejado” e se exigisse o seu regresso» (20). Com o seu regresso, e durante o seu curto reinado, luzes, foguetes e festa rija foi o que mais houve em Portugal, além da profusão de procissões e de missas e Te Deum Laudamus em acção de graças (21). A principal característica do reinado de D. Miguel I foi a intensidade de actos religiosos, a pretexto de um qualquer acontecimento. Após Évora-Monte, e até à sua morte, o carácter religioso da sua vida evoluiu para um misticismo, no qual foi acompanhado pela Família Real no exílio. Em Portugal, em paralelo ao descalabro político-financeiro do País e ao aumento da repressão aos miguelistas, cresce o fervor e a saudade do «”Rei Exilado”, do “Rei Proscrito”, do “Rei Martyr”, ou, muito simplesmente, do “Desditoso”» (22). Ao tempo da Revolução do Minho, D. Miguel I era, para muitos, a última salvação para Portugal. Por todo o País se encontravam adeptos do Rei Legítimo, mas era, fundamentalmente, no Minho, berço da nacionalidade, que a saudade daqueles tempos se tornava mais aguda.
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A Carta Constitucional de 1826 foi reposta no seguimento do golpe militar de 27 de Janeiro de 1842, dirigido, do Porto, por António Bernardo da Costa Cabral. Era o início do Cabralismo, e a esperança de uma ordem melhor, de conciliação nacional e de progresso. Todavia, pouco tempo duraram as esperanças do povo, que, em breve, se viu com uma nova e gravosa política fiscal, traduzida em novos impostos e empréstimos, enquanto a própria economia nacional era posta perante novos tratados de comércio e navegação ruinosos. No campo político, como resposta à grave situação social e financeira, dá-se a união da oposição ao Ministro do Reino, Costa Cabral, através de alianças, porventura contra-natura, dos Setembristas, Miguelistas e Cartistas dissidentes. Apresentavam um discurso comum na censura à administração económica, política fiscal, à organização administrativa e à estrutura municipal (23).
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O Cartismo é a designação que se aplicou ao liberalismo moderado português, oposto ao extremismo Setembrista, triunfante em 1836. A doutrina política do Cartismo pretendia ser uma conciliação entre o poder real e a soberania da Nação, mas, sociologicamente, tinha a tendência para o imobilismo governativo e para o aristocratismo económico de tipo agrícola e comercial. A Carta Constitucional de 1826 foi outorgada ao País pelo Imperador do Brasil D. Pedro I, D. Pedro IV em Portugal, após a notícia da morte de D. João VI ter chegado ao Brasil (24). A Revolução de Setembro ocorre no dia 9 desse mês, com a chegada dos deputados oposicionistas nortenhos a Lisboa. À sua chegada foram recebidos, entusiasticamente, com «morras» à Carta e «vivas» à Constituição de 1822. O Governo Conservador do Duque da Terceira foi obrigado a demitir-se e a Rainha D. Maria II nomeia um Ministério favorável aos revoltosos, consumando-se a Revolução de Setembro. No aspecto ideológico, o Setembrismo teria sido a expressão política da tendência à inovação industrial contra as actividades nacionais rotineiras do alto comércio e dos grandes interesses agrícolas (25).
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O ano de 1844 marca um crescendo na repressão cabralista. É a partir deste ano que começam a ocorrer tentativas revolucionárias em diferentes pontos do País, como o pronunciamento de Torres Novas a Almeida, a sublevação do Regimento de Infantaria “12” de Castelo Branco, e a revolta de estudantes da Universidade de Coimbra (26). As acusações a Costa Cabral de poder discricionário, no desrespeito das leis e voz do Parlamento, do coartar das liberdades públicas, tornando-se mais centralizador e oligárquico, iam subindo de tom, e foi necessário recorrer a processos menos limpos para vencer a oposição. «Recorrendo a todos os meios ao seu alcance, desde a máquina governativa à compra de influências, a firmeza do ministro acabaria por se impor aos adversários» (27). E, nas eleições de 1845 a oposição elegeu para a Câmara dos Deputados um número destes, que não inquietava o Governo.
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O Decreto de 26 de Novembro de 1845, que reorganizava a saúde pública, curava dos serviços de sanidade no interior do Reino e dos portos de mar, ordenava que os enterros deviam fazer-se nos cemitérios, não era mais do que uma regulamentação do Decreto de 3 de Janeiro de 1837. Porém, veio acirrar mais o descontentamento contra Costa Cabral. É neste clima de protestos violentos, motins e agitação social, que se dão os acontecimentos de 19 de Março de 1846 na Aldeia de Santo André de Frades, Concelho de Póvoa de Lanhoso, marcando o início da Revolução do Minho. Para a combater «Costa Cabral nomeia seu irmão, José Bernardo da Silva Costa Cabral, ao tempo ministro da Justiça, comissário do Governo com “poderes extraordinários sobre todas as autoridades civis e militares da província do Minho, e as outras terras do Norte, em que possa rebentar a revolta, para exonerar de seus cargos e substituir como julgasse conveniente”» (28). Cognominado pela oposição como o «Rei do Norte», José Cabral instalou um regime de terror, onde as prisões arbitrárias, os fuzilamentos e a confiscação de bens particulares eram a prática corrente. Ao mesmo tempo que esse clima de terror ia alastrando a diversas partes do País, começam a aparecer, primeiro por todo o Norte, depois na Beira e na Estremadura, Juntas Provisionais que faziam a apologia do direito à Liberdade do Povo, contra a Tirania. No Parlamento Almeida Garrett pede a demissão de Costa Cabral, e a Rainha D. Maria II, certa da impossibilidade de lutar contra o povo exonera o ministro odiado, que juntamente com o irmão, emigra para Espanha, dando fim à ditadura dos Cabrais.
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A Revolução da Maria da Fonte foi uma revolução em que as Mulheres tiveram um papel fundamental no decorrer da acção. Os Miguelistas viram a sua crença ressuscitar, na esperança de um novo sebastianismo libertador. Os Cartistas livraram-se do ditador. Os Setembristas readquiriram forças para regressarem ao poder. O Povo continuou desiludido com o Liberalismo, que apenas favorecia a classe nova a que ele dera origem, os “barões” da alta burguesia.
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Bibliografia consultada
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[1] Branco, Camilo Castelo - Maria da Fonte, pg. 22
[2] Branco, Camilo Castelo - ibid., pg. 24
[3] Branco, Camilo Castelo - ibid., pg. 26
[4] Branco, Camilo Castelo - ibid., pg. 27
[5] Branco, Camilo Castelo - ibid., pg. 28
[6] Benoist, Alain - Les Idées à L’ Endroit, pg. 115
[7] Benoist, Alain de - Nova Direita Nova Cultura, pg. 436
[8] Peres, Damião - História de Portugal, vol. II, pg. 391
[9) Serrão, Joel - Dicionário de História de Portugal, vol. II, pg. 491
[10] Branco, Camilo Castelo - ibid., pg. 16
[11] Branco, Camilo Castelo - ibid., pg. 17
[12] Branco, Camilo Castelo - ibid., pg. 36
[13] Branco, Camilo Castelo - ibid., pg. 30
[14] Branco, Camilo Castelo - ibid., pg.48
[15] Casimiro, Padre - Apontamentos para a História da Revolução do Minho em 1846 ou da Maria da Fonte, pg. 11
[16] Costa, Francisco de Paula Ferreira da - Memórias de um Miguelista, pg. 14
[17] Dória, António Álvaro - Dicionário de História de Portugal, Vol. I, pg. 519
[18] Serrão, Joaquim Veríssimo - História de Portugal, vol. VII, pg. 395
[19] Pelayo, Manuel Garcia - Los Mitos Políticos, pg. 18
[20] Silva, Armando Barreiros Malheiro da - Miguelismo Ideologia e Mito, pg.264
[21] Silva, Armando Barreiros Malheiro da - ibid., pg. 265
[22] Silva, Armando Barreiros Malheiro da - ibid., pg. 286
[23] Mattoso, José - História de Portugal, vol. V, pg. 110
[24] Carvalho, Alberto Martins de - Dicionário de História de Portugal, vol. I, pg. 500
[25] Serrão, Joel - Dicionário de História de Portugal, vol. V, pg. 561
[26] Serrão, Joaquim Veríssimo - ibid., vol. VIII, pg. 104
[27] Serrão, Joaquim Veríssimo - ibid., vol. VIII, pg. 105
[28] Dória, António Álvaro - Dicionário de História de Portugal, vol. I, pg. 183
 

As Sete Mulheres do Minho (Popular/ José Afonso)

As sete mulheres do Minho
mulheres de grande valor
Armadas de fuso e roca
correram com o regedor
         
Essa mulher lá do Minho
que da foice fez espada
há-de ter na lusa história
uma página doirada
         
Viva a Maria da Fonte
com as pistolas na mão
para matar os Cabrais
que são falsos à nação

 
          O Cabral Fugiu para Espanha (Texto (discurso) de Hélder Costa -Letra Popular/ José Afonso)
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          Ele que só nos trouxe a maior miséria encontra-se a pagar a sua vilania num exílio vergonhoso em terra de Espanha.
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          Provou-se que o povo tinha razão. E provou-se também que a unidade de todos os cidadãos há-de levar de vencida essa corte corrupta e indigna.
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          Temos de exigir medidas revolucionárias ao nosso governo. Não podemos permitir que o Duque de Palmela, o nosso ministro, continue nas mesmas águas turvas do Costa Cabral. Se não é capaz de tomar medidas que sirvam o povo, que vá para lá outro.

          Aprende Rainha aprende
          Mede bem o teu poder
          Tu dum lado o povo d'outro
          Qual dos dois há-de vencer
          O Cabral fugiu p'ra Espanha
          Com uma carga de sardinha
          Com a pressa que levava
          Nem disse adeus à Rainha
          Viva a Maria da Fonte
          Ve com esporas de prata
          A cavalo na Rainha
          Com o Saldanha á arreata
          O Cabral queria ser rei
          A mulher quer ser rainha
          Foram-se os Cabrais embora
          Só ficou a Luisinha
          O Cabral fugiu para Espanha
          Já lá vai para a Galiza
          Com a pressa que levava
          Nem disse adeus à Luisa

         
D. MARIA II - A EDUCADORA

          Nasceu em 04 de Abril no Rio de Janeiro - Brasil, e reinou de 1834 a 1853. 
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          Neste reinado, a guerrilha mina Portugal e arruína-o. 
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          Para fazer face a compromissos inadiáveis são vendidos muitos bens nacionais, mas os homens que rodeavam D. Maria são de grande valor e honestidade. Têm preocupações no campo social, administrativo, educativo e desenvolvimento económico. 
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          É criada a Associação das Casas de Asilo da Infância Desvalida. Faz-se a Reforma Administrativa. O continente é dividido em 17 distritos e as ilhas em três. Entra em vigor o Código Comercial de Ferreira Torres. 
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          Em 1835 estabelece-se a obrigatoriedade escolar o que só veio a acontecer efectivamente no final do terceiro quartel do século XX. 
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          Casou em segundas núpcias com:
          Fernando II de Portugal
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          Fernando Augusto Francisco António de Saxe-Coburgo-Gota (29 de Outubro de 1819 - 15 de Dezembro de 1885) foi rei consorte de Portugal pelo casamento com a Rainha D. Maria II em 1836. Foi filho de Fernando, Duque de Saxe-Coburgo-Gotha e de Maria Antonia of Kohary. Passou à história como O Rei-Artista.
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          De acordo com as leis portuguesas, Fernando tornou-se rei de Portugal apenas após o nascimento do primeiro príncipe, que foi o futuro Pedro V de Portugal. Este é o motivo pelo qual Augusto, primeiro marido de Maria II, nunca foi considerado rei de Portugal. Embora fosse Maria a detentora do poder, Fernando foi sempre um figura presente na política portuguesa e conselheiro de confiança da monarca. Fernando foi regente do reino 4 vezes, durante as gravidezes de Maria, depois da sua morte em 1853 e quando D. Luís e D. Maria Pia se ausentaram de Portugal, para assistirem à Exposição de Paris em 1867.

Trabalho e pesquisa de Carlos Leite Ribeiro - Marinha Grande - Portugal
 
 
 
 
 


Fundo Musical: Hino a Maria da Fonte
Intérprete: Vitorino
Foto que ilustra a Página:
Estátua em homenagem a Maria da Fonte
em Lisboa - Portugal
Resolução do Ecrã: 1024 * 768
Webdesigner: Iara Melo
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http://www.caestamosnos.org/Pesquisas_Carlos_Leite_Ribeiro/Dia_Maria_Fonte.html
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terça-feira, 5 de outubro de 2010

A Revolução Republicana de 1910 – Marco na história da luta libertadora do povo português

Nota da Comissão Política do Comité Central do PCP

1. Num momento em que passam cem anos sobre a Revolução Republicana de 1910, o PCP sublinha o significado desta data enquanto marco importante na longa caminhada do povo português pela sua libertação.
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A vitória da Revolução Republicana de 1910 pôs fim a um regime monárquico anacrónico e parasitário e realizou importantes progressos no plano das liberdades e direitos fundamentais, da educação e da cultura, da laicização do Estado e dotou o país de uma Constituição avançada para a época, a Constituição de 1911. 
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O PCP valoriza tudo quanto de democrático e progressista foi alcançado e combate com firmeza linhas de ataque reaccionárias, que visam justificar o golpe militar de 1926 e a instauração do fascismo e o branqueamento dos seus crimes. Não é por acaso que, sob a bandeira do 5 de Outubro, tiveram lugar importantes jornadas de unidade e resistência anti-fascista. Mas ao mesmo tempo rejeita as visões acríticas e idílicas do republicanismo e da República que predominam nas comemorações oficiais do centenário da Revolução de 1910, reconhecendo os limites desta revolução e do regime que implantou no país.
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É neste quadro que, ao longo do ano, o PCP vem assinalando este acontecimento com um variado conjunto de iniciativas orientadas para o esclarecimento sobre o que foi e o que efectivamente representou esta revolução; que circunstâncias históricas a determinaram; que problemas e contradições se propôs resolver e superar; que classes sociais nela se empenharam e aquelas que realmente beneficiaram com a implantação da República e as políticas do poder; o que tornou possível o avanço da forças mais reaccionárias e o triunfo, apenas 16 anos depois das jornadas históricas de 4 e 5 de Outubro, do golpe militar que abriu caminho a quase meio século de ditadura fascista; e como se projectam nos dias de hoje as lições e experiências da revolução.
2. A revolução de 1910 culminou num amplo movimento de descontentamento e protesto popular em que o ideário republicano, com as suas promessas de liberdade e justiça social, suscitou uma grande adesão de massas e o derrube da Monarquia e a implantação da República tornou-se um objectivo em que convergiram as aspirações da burguesia liberal, da pequena burguesia, da classe operária, das camadas intermédias da população urbana. 
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Portugal era, na viragem do século XX, um país economicamente atrasado, essencialmente agrário, com uma indústria incipiente, uma elevadíssima taxa de analfabetismo, um baixo nível de vida. No campo, a grande propriedade latifundiária e absentista do Sul coexistia com o predomínio da pequeníssima propriedade no Centro e Norte do país. Centenas de milhar de portugueses procuravam na emigração, sobretudo no Brasil, o que lhes era negado no seu país. País colonizador, Portugal era simultaneamente um país dependente, sujeito ao domínio estrangeiro, sobretudo da Inglaterra, factores que estrangulavam o seu desenvolvimento. As degradantes condições de vida do povo – salários baixos, longas jornadas de trabalho, ausência de políticas sociais – faziam realçar a decadência e o parasitismo do regime monárquico e a exigência do seu derrube. O significativo processo de industrialização que se verificou nos últimos anos da Monarquia, com o aumento de unidades fabris em Lisboa, Porto e outras regiões do país, e o crescimento correspondente da classe operária, foram acompanhados do desenvolvimento da luta social e contribuíram para a criação das condições que tornaram possível o triunfo da revolução.
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Crescentemente isolada e desacreditada, sobretudo após a vergonhosa abdicação que conduziu à revolta de 31 de Janeiro de 1891, e incapaz de enfrentar os graves problemas económicos e sociais do país, a Monarquia responde com a repressão ao desenvolvimento da luta dos trabalhadores e da oposição republicana que, por sua vez, opta pela conquista do poder pela força das armas. Com o decisivo apoio popular, a República é proclamada a 4 de Outubro em vários municípios da região de Lisboa e Margem Sul e a 5 de Outubro na capital. Portugal tornava-se, para honra do povo português, a terceira República da Europa.
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3. A Revolução Republicana de 1910 teve uma forte dimensão popular, triunfou graças à participação dos trabalhadores e das populações de Lisboa e Margem Sul, do Porto e outros centros urbanos, e suscitou grandes esperanças numa vida melhor. Os primeiros tempos da República ficaram marcados por um aumento da iniciativa popular e, em particular, por um ascenso do movimento operário e da luta reivindicativa dos trabalhadores da cidade e dos campos do Sul. Mas sucessivos governos não só esqueceram promessas feitas como responderam às legítimas reclamações dos trabalhadores com a repressão e um ataque violentíssimo ao movimento sindical, prendendo dirigentes, encerrando sindicatos e jornais operários, deportando milhares de activistas. Entrando rapidamente em rota de colisão com o movimento operário e sindical, a República cedo alienou o apoio popular indispensável para consolidar o regime democrático e enfrentar a reacção monárquica e fascista, que, depois de várias tentativas, sempre frustradas pela decisiva mobilização das massas populares, acabou por impor uma ditadura militar 16 anos apenas após o triunfo da revolução.
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4. A Revolução Republicana de 1910, quanto à sua natureza de classe, foi uma revolução democrático-burguesa que cumpriu tarefas que as revoluções liberais de 1820 e 1834 não haviam completado. Com ela as sobrevivências feudais foram fortemente golpeadas, a nobreza e o clero perderam a sua posição dominante, que passou para a burguesia liberal, removeram-se importantes obstáculos ao desenvolvimento capitalista, combateu-se a ignorância e o obscurantismo, implementaram-se reformas positivas em relação à família, aos direitos das mulheres (embora recusando-lhe o direito de voto), e outras. 
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Mas ao contrário da Revolução de Abril, que liquidou os monopólios e os latifúndios e pôs fim às guerras coloniais, a Revolução Republicana foi essencialmente uma revolução política, «por cima», que deixou praticamente intactas as estruturas económicas e sociais, prosseguiu uma política colonialista e de submissão ao imperialismo. A entrada de Portugal na I Guerra Mundial, que suscitou a oposição dos trabalhadores e as grandes manifestações «da fome», insere-se neste quadro de políticas de classe estranhas aos interesses do povo e do país. Por isso, o PCP sempre sublinhou que a liquidação do fascismo implicava não um «regresso à República» liberal burguesa implantada em 1910, mas a uma revolução democrática e nacional profunda. Por isso, o PCP opôs-se e opõe-se a quaisquer tentativas de, a pretexto da comemoração do centésimo aniversário da Revolução Republicana, desvalorizar e mesmo apagar a Revolução de Abril e o seu lugar cimeiro na História de Portugal, diminuir e atacar os seus valores e realizações, como está a acontecer com a Constituição da República Portuguesa.
5. O alcance da Revolução Republicana de 1910 foi à partida condicionado pelo atraso das estruturas sócio-económicas, a reduzida expressão da classe operária, a forte influência da ideologia pequeno-burguesa anarquista no movimento sindical, a inexistência do partido revolucionário do proletariado. 
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Com a fundação do Partido Comunista Português, em 6 de Março de 1921, inicia-se uma nova etapa do movimento operário português – a actuação da classe operária como força social autónoma. Criado sob a influência da Revolução de Outubro e no quadro do afluxo revolucionário na Europa, o PCP é uma criação da classe operária portuguesa, do desenvolvimento da sua luta corajosa, do amadurecimento da sua consciência de classe. Abrindo caminho através de grandes dificuldades, e forçado à clandestinidade apenas cinco anos após a sua criação, o PCP lançou raízes fundas nas massas trabalhadoras, resistiu à violência da repressão, conduziu poderosas lutas populares, tornou-se a grande força da Resistência, da Revolução de Abril, da defesa dos seus valores e conquistas. É esta a verdade histórica. Tentativas para promover o papel da burguesia republicana na luta antifascista e diminuir o papel da classe operária e do PCP não alteram esta realidade. 
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6. O centenário da Revolução Republicana de 1910 ocorre numa situação particularmente grave no plano nacional e internacional, em que os trabalhadores e o povo português enfrentam a mais violenta ofensiva contra os seus direitos e condições de vida desde o 25 de Abril, o que é inseparável da profunda crise, estrutural e sistémica, com que se debate o sistema capitalista que arrasta consigo o perigo de uma terrível regressão civilizacional.
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Uma tal situação – da total responsabilidade do PS, PSD e CDS e das suas políticas ao serviço dos grupos económicos – torna particularmente grave a instrumentalização de que têm sido alvo, por parte do Governo e do Presidente da República, as celebrações oficiais do centenário da República, nomeadamente como aconteceu com o 10 de Junho e está anunciado para 5 de Outubro, com a vergonhosa operação de «inauguração de cem escolas», depois de terem imposto o encerramento de quase 4000, num autêntico insulto à memória das medidas positivas da República no domínio da Escola Pública. 
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Uma operação que não poderá esconder nem o rumo profundamente negativo que as políticas ao serviço dos grupos económicos estão a impor ao país, nem a crescente dimensão do protesto, da indignação e da luta dos trabalhadores e do povo português por mudanças profundas. 
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O PCP, pela sua natureza de classe e pelo lugar que ocupa na história da luta dos trabalhadores e do povo português, é o herdeiro do que de mais avançado e libertador a Revolução Republicana de 1910 comporta. Ao evocar esta importante efeméride, o PCP fá-lo, não voltado para o passado mas para o presente e para o futuro de Portugal e do mundo, procurando tirar experiências e ensinamentos que dêem mais força e confiança à sua luta pela ruptura com as políticas de direita que têm arruinado o país, por uma política patriótica e de esquerda, em defesa do regime democrático consagrado na Constituição, pelo progresso social, a independência nacional, o socialismo.
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Bustos da República na Filatelia


Quarta-feira, 25 de Agosto de 2010


Lisboa, 26 Jan (Lusa) - Em Portugal o busto da República foi aprovado oficialmente em 1911 mas a Comissão para as comemorações do centenário desvaloriza qualquer intenção em alterar a escultura, como ocorreu em França.

Após a libertação de Paris, em 1944, durante a II Guerra Mundial, a Associação dos Autarcas Franceses decidiu mudar periodicamente o busto de "Mariana", adoptando como modelos artistas de cinema e da música francesas contemporâneas, sendo a manequim e actriz Laetitia Casta o modelo actual da escultura.

Em Portugal, a escultura não sofreu alterações e passado um século da Revolução de 05 de Outubro de 1910 a Comissão para as Comemorações do Centenário não prevê a modernização do símbolo.

Fernanda Rollo, Comissária das Comemorações do Centenário da República, disse à Lusa que, ao contrário de França, dificilmente a sociedade portuguesa iria aceitar a mudança e que o importante é conhecer o busto actual.

"Temos dinâmicas diferentes [de França]. Não está prevista pela Comissão qualquer iniciativa no sentido de mudar o busto da República. Estamos mais interessados em conhecer o busto actual e as várias manifestações artísticas que inspirou. Em relação a França, não temos de ter esse quadro de mimetização. Não sei se a sociedade portuguesa aderiria a este tipo de mudanças", disse a historiadora Fernanda Rollo.

António Reis, historiador e grão mestre do Grande Oriente Lusitano (GOL), também partilha da mesma opinião e sublinha que a mudança poderia significar a "folclorização" de um símbolo histórico.

"Podemos ser fiéis a este busto. Não vejo necessidade da sua modernização. Não sou muito sensível a essa mudança, seria a folclorização do busto. Trata-se de um símbolo histórico. Tenho respeito pelas iniciativas e pela República francesa mas gosto muito dos bustos da República aprovados em 1911 (em Portugal). Mantenho-me fiel a este busto republicano", disse António Reis à Lusa que não põe sequer a hipótese de pensar numa "inspiradora" que, à semelhança do caso francês, poderia servir de modelo a um eventual novo busto da República Portuguesa.

"Uma inspiradora? Nem ponho essa hipótese", acrescentou António Reis.

Também António Arnaut, antigo grão mestre do GOL, considera que alterar o busto da República seria deturpar os símbolos originais da República Portuguesa.

"Os símbolos são representações perpétuas da ideia. Mudar o busto seria um absurdo. Uma profanação", disse António Arnaut à Lusa.

Para o antigo grão mestre do GOL a "imagem, o busto da República, foi a corporização dos republicanos da altura. Foi criada uma bandeira, um hino e um busto. Símbolos que não podem ser alterados sob pena de alterar os valores da República: Liberdade, Igualdade e Fraternidade, herdados da Maçonaria".

Segundo António Arnaut a figura deve manter-se inalterável, tal como a bandeira e o hino nacionais.

"Assim como não se pode alterar a bandeira e o hino, não se pode alterar o busto da República. Mudar? O penteado? Tirávamos o barrete frígio à República ? Esta é que é a República e, apesar de ter 100 anos, está jovem, e não ainda verdadeiramente realizada", clonclui Arnaut.

Por seu lado, Joaquim Pulga, descendente da mulher natural de Arraiolos, que serviu de modelo à escultura da República Portuguesa, afirma não ter "renitências à adopção do modelo francês" em Portugal, desde que "se conserver a base estética do busto original"

Para o sobrinho bisneto de Ilda Pulga seria possível conseguir um equilíbrio entre o passado e o presente.

"Por princípio, penso que a evolução harmoniosa das sociedades está num equilíbrio entre a tradição e a inovação".

http://noticias.sapo.pt/lusa/artigo/10591652.html

Lançamento Tinta-Da-China: As Caricaturas da Primeira República




Segunda-feira, 4 de Outubro de 2010



Osvaldo Macedo de Sousa lança, por ocasião do centenário da República Portuguesa, uma compilação de caricaturas/cartunes do início da primeira República. O livro já está nas bancas desde o dia 17, mas terá um lançamento oficial no dia 6 na FNAC do Centro Comercial Colombo (CCC) pelas 19h.
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Este autor "limpou" o melhor possível as caricaturas da época de maneira a aproximar o trabalho final do seu original.
Este álbum está inserido na colecção dos "Álbuns da República" e tenta retratar a revolução primeiro, e depois as principais criticas à República até ao seu fim com o golpe militar de 1926. As caricaturas/cartunes são acompanhadas por um texto de maneira a que o leitor se possa ambientar ao "calor" da época.
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Ficam uma série de páginas que o autor gentilmente cedeu para este post!
Boas leituras!


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The Republic Cartoons
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Osvaldo Macedo de Sousa, on the occasion of the centenary of the Portuguese Republic, release a compilation of caricatures/cartoons from the beginning of the first Republic. The book is already on newsstands since the 17th, but will have an official release on October 6th in the FNAC library of Colombo Shopping Center (CCC) by 19h.
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This author had "cleaned" the best possible way the caricatures of the early days of the Republic, approaching his work to the original.

This album is booked in the collection of "Albuns of the Republic" and tries to portray the revolution first, then the main criticisms of the Republic to its end with the military coup of 1926. The caricatures/cartoons are explained by a text so that the reader can feel the "heat" of the age.
You can see some of pages of the book, that the author kindly provided for this post!
Happy reading!

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Cantata da Paz - Sophia de Mello Breyner - Francisco Fanhais


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ptxokr | 13 de Março de 2009
http://1001_musicas_pt.blogs.sapo.pt/

Mil & Uma Músicas de Portugal
Neste Blog será feito o quadro de honra á música portuguesa! 1001 Canções emblemáticas, com artistas e compositores inesquecíveis. Há coisas que não devem morrer! E nunca morreram enquanto forem lembradas!

Geração de 70
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Cantata da Paz - Sophia de Mello Breyner
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Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar
Vemos, ouvimos e lemos
Não podemos ignorar

Vemos, ouvimos e lemos
Relatórios da fome
O caminho da injustiça
A linguagem do terror.

A bomba de Hiroshima
Vergonha de nós todos
Reduziu a cinzas
A carne das crianças

D'África e Vietname
Sobe a lamentação
Dos povos destruídos
Dos povos destroçados

Nada pode apagar
O concerto dos gritos
O nosso tempo é
Pecado organizado

You are currently viewing Francisco Fanhais Cantata Da Paz 

http://www.lipwalklyrics.com/lyrics/673492-franciscofanhais-cantatadapaz.html

 This song is performed by Francisco Fanhais and appears on the album Canções Da Cidade Nova (1970).

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Credits

  • Composer: Rui Paz
  • Lyrics by: Sophia de Mello-Breyner Andresen 
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domingo, 3 de outubro de 2010

Menina Estás à janela - 6 visões


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PORTUGALMETAL | 12 de Novembro de 2007
Vitorino - Menina Que Estas À Janela Videoclip de 1994 do album "As Mais Bonitas"
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grull18 | 7 de Julho de 2006 
Menina estás à janela - UHF
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Mr6santana | 4 de Outubro de 2009
Xutos & Pontapés - Menina estás à janela
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lilipala | 16 de Junho de 2010
grande concerto -Rio Grande- Rui Veloso & Tim - Menina estas à janela
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olidisk | 17 de Agosto de 2008
Tema interpretado por Luis Represas e Vitorino ao vivo no programa "A musica dos outros"
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ppdourado | 16 de Setembro de 2009
Portuguese singer Vitorino and Redondo's Singers Group singing Menina estás à janela @ Festa do Avante 2009
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Menina estás a janela lyrics
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Menina estás à janela
com o teu cabelo à lua
não me vou daqui embora
sem levar uma prenda tua

sem levar uma prenda tua
sem levar uma prenda dela
com o teu cabelo à lua
menina estás à janela

Os olhos requerem olhos
e os corações corações
e os meus requerem os teus
em todas as ocasiões

Menina estás à janela
com o teu cabelo à lua
não me vou daqui embora
sem levar uma prenda tua

sem levar uma prenda tua
sem levar uma prenda dela
com o teu cabelo à lua
menina estás à janela

Menina estás à janela
com o teu cabelo à lua
não me vou daqui embora
sem levar uma prenda tua

sem levar uma prenda tua
sem levar uma prenda dela
com o teu cabelo à lua
menina estás à janela.
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http://xutos-e-pontapes.musicas.mus.br/letras/1137283/
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Paula Rego - crivelli's garden, 1990

Fotos de Carmen Montesino - Fotos do Mural

Foto 125


Paula Rego - crivelli's garden, 1990
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Victor Nogueira Gosto muito da Paula Rego e da Helena Vieira da Silva: a primeira pelos seus quadros de menina mal comportada, a segunda pela beleza do seu abstraccionismo. Bjo ao de leve :-)
há 11 horas
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(...)
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Victor Nogueira Em tempo - no hi5 encontras as crianças voando" no meu album " A Paleta Simplesmente. " No meu blog Galeria e Photomaton encontras a Paula Rego em http://galeriaphotomaton.blogspot.com/search/label/Paula%20Rego?updated-max=2008-07-12T00%3A55%3A00%2B01%3A00&max-results=20 e na minha biblioteca um catálogo duma exposição que fez em Setúbal e vários livros. Quanto às Crianças voando encontra-las aqui http://galeriaphotomaton.blogspot.com/2008/04/abril-em-maio-aps-novembro-1.html Bjo do Kant_O
há 2 segundos
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Nana Mouskouri - Je Chante Avec Toi Liberté - Berlin 14 juillet 1982


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bellecourse | 4 de Julho de 2009
Nana Mouskouri - Je Chante Avec Toi Liberté - Berlin 14 juillet 1982
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"Je chante avec Toi Liberté"
"Choeurs des esclaves" de l'Opéra "Nabucco" de G.Verdi
G.Verdi / C.Lemesle - P.Delanoë
Arrgts. A.Goraguer
Nana Mouskouri - images d'actualitées 14 juillet 1982
A Berlin : "Je Chante avec Toi Liberté" le 14 juillet 1982
Nana Mouskouri Autobiographie,mémoires
"La fille de la chauve-soiris" cité pages 340-341
Voir revue : Jours de France No 1438 du
24au30 juillet 1982 ,reportage-photos (4 pages)
Voir Vidéo : Nana Mouskouri - images d'actualitées 1982
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Quand tu chantes Je Chante Avec Toi Liberté
Quand tu pleures je pleure aussi ta peine
Quand tu trembles je prie pour toi Liberté
Dans la joie ou les larmes je t'aime
Souviens-toi des jours de ta misère
Mon pays tes bateaux étaient tes galères
Quand tu chantes Je Chante Avec Toi Liberté
Et quand tu es absente j'espère

Qui es-tu? Religion ou bien réalité
Une idée de révolutionnaire
Moi je crois que tu es la seule vérité
La noblesse de notre humanité

Je comprends qu'on meure pour te défendre
Que l'on passe sa vie à t'attendre
Quand tu chantes Je Chante Avec Toi Liberté
Dans la joie ou les larmes je t'aime
Les chansons de l'espoir ont ton nom et ta voix
Le chemin de l'histoire nous conduira vers toi
Liberté! Liberté
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Enviado por E.B.
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sábado, 2 de outubro de 2010

O Tribunal da Inquisição no Brasil - Evandro Domingues

>> Geografia e História

O Tribunal da Inquisição no Brasil
Por Evandro Domingues      Atualizado em 11/10/2005 3:37:34 PM 
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O Tribunal da Santa Inquisição foi instrumento fundamental da Contra-Reforma, ao lado da Companhia de Jesus, tratando de reforçar os dogmas da Igreja Católica e combater as dissidências protestantes.
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Também conhecido como tribunal do Santo Ofício, a inquisição foi estabelecida na Espanha (1478) e em Portugal (1536) antes, porém, do Concílio de Trento, marco da Contra-Reforma: o concílio (1545-1563), convocado pelo papa Paulo III para assegurar a unidade de fé e a disciplina eclesiástica, reforçaria, na verdade, a ação dos novos tribunais, que seguiam a maneira de atuar das inquisições medievais, mas tinham já um caráter diferente. Enquanto no período medieval, os inquisidores eram nomeados pelo Papa para combater movimentos contestadores da Igreja, considerados heresias, na época moderna, os inquisidores são nomeados pelos reis e atuam por intermédio dos tribunais estabelecidos nos reinos, com a autorização do Papa.
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Os novos tribunais da Inquisição surgem no contexto da Reconquista e retomada dos territórios espanhóis sobre influência e domínio dos mouros pelos Reis Católicos, em fins do século XV. Nesse momento, a Inquisição assume um papel fundamental no processo conflituoso de constituição do Estado moderno espanhol, pautado pela idéia de unidade em torno da fé católica, determinando a perseguição dos marranos e mouriscos (judeus e mouros convertidos ao cristianismo) e a emigração em massa das famílias judaicas para Portugal.
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Um processo conturbado envolveu a autorização para o estabelecimento do Tribunal da Inquisição em Portugal, em 1536. Inicialmente, o rei D. Manuel determinou a conversão em massa dos judeus em 1496-97, incluindo os judeus espanhóis que haviam se fixado no reino, sob pena de expulsão. O rei português procurou, com isso, evitar a emigração dos judeus (muitos se dirigiam a Amsterdã e aos estados italianos sob a autoridade do Papa) diante da pressão de setores do clero e da nobreza que insistiam em estabelecer a Inquisição em Portugal, apoiados pelo rei da Espanha, Carlos V. 
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A relutância inicial da Coroa portuguesa e as punições impostas àqueles que hostilizassem os cristãos-novos (judeus convertidos ao cristianismo) deram lugar, no reinado seguinte, a um empenho pessoal do rei D. João III, junto à Cúria romana, para a nomeação de inquisidores em algumas dioceses em 1536. 
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Estandarte utilizado nas procissões da Inquisição  portuguesa, mostrando os símbolos e o lema da Inquisição: “misericórdia e justiça”
Embora a atividade da Inquisição em Portugal somente seja plenamente autorizada pelo Papa em 1747, através de subornos e favorecimentos de indivíduos ligados à Cúria romana, e da pressão do rei da Espanha, as primeiras condenações ocorrem em 1540. Desde o início, os cristãos-novos, suspeitos de manter o judaísmo em segredo, figuram como o principal alvo dos inquisidores portugueses. 
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Alguns dos tribunais distritais instalados nesse período estiveram ativos até a extinção da Inquisição portuguesa, em 1821. Funcionaram em regiões onde a circulação de idéias podia favorecer o aparecimento de heresias, no entender dos inquisidores, e onde havia concentração de cristãos-novos ligados à administração central, em Évora (presença da Corte), à burguesia comerciante e marítima de caráter internacional, em Lisboa (domínio sobre o mundo atlântico), e aos centros de formação intelectual e profissional, em Coimbra (reduto cultural). 
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Ao contrário da Inquisição espanhola, que criou vários tribunais nos domínios coloniais da América, a Inquisição portuguesa criou apenas um tribunal fora do reino: o Tribunal de Goa, na Índia (1560), encarregado de zelar pela prática religiosa católica nas conquistas orientais portuguesas e territórios da costa oriental da África. O Brasil e demais possessões portuguesas no Atlântico permaneceram sob a vigilância do tribunal da Inquisição de Lisboa. 
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Representação de auto de fé, cerimônias públicas em que eram condenados os réus da Inquisição
Era grande a concentração de cristãos-novos nas atividades associadas à burguesia mercantil, neste período, e a perseguição da Inquisição em Portugal determinou a fuga desses indivíduos para locais de maior tolerância, fossem na Europa, ou nas áreas de colonização do “além-mar”.
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A presença de cristãos-novos nas áreas coloniais portuguesas foi importante no período. Itinerantes, atuando como agentes de casas comerciais, ligados à Antuérpia, Amsterdã e Hamburgo (sustentando e intermediando o tráfico de açúcar, especiarias e pedras preciosas), ou estabelecidos como fazendeiros e comerciantes (fornecendo escravos e escoando a produção colonial), os cristãos-novos exerciam posição de relevo no comércio das rotas atlânticas e nas conexões financeiras com a Europa. 
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Perseguidos no reino, muitos cristãos-novos encontraram refúgio no Brasil, fixando-se na Bahia, Pernambuco e, posteriormente, no Rio de Janeiro, como senhores de engenho, comerciantes de grosso trato e contratadores.

Atuação do Tribunal da Inquisição no Brasil

No período inicial da ocupação e colonização dos territórios portugueses, a autoridade inquisitorial foi confiada aos bispos, com a criação da diocese da Bahia, em 1551. No entanto, foi muito pouco efetiva a atuação dos bispos nas questões de heresia, por não existir ainda, no Brasil, uma estrutura eclesiástica necessária às demandas da Inquisição. 
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A atuação da Inquisição no Brasil aconteceu por meio das visitações, inicialmente, até o aparecimento progressivo de uma estrutura de funcionários a serviço do tribunal, expressiva somente a partir da segunda metade do século XVII, e consolidada no século XVIII. As visitações foram utilizadas também nos primeiros anos de atuação do tribunal em Portugal: ligadas à administração eclesiástica das localidades, funcionavam como uma “inquisição volante”, inspecionando e ouvindo confissões, denúncias e rumores sobre os “crimes” que interessavam ao Santo Ofício, associados à heresia.
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De certa maneira, as visitações guardariam semelhanças com as inquisições medievais, na medida em que os inquisidores portugueses foram enviados à Colônia para investigar práticas, comportamentos e costumes associados à heresia em determinadas localidades. 
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A primeira visita de um inquisidor ao Brasil ocorreu no final do século XVI, estendendo-se às regiões da Bahia, Pernambuco, Itamaracá e Paraíba (1591-1594). Existem interpretações divergentes dos motivos da visitação. Fosse a perseguição aos cristãos-novos e confisco dos seus bens, dada a prosperidade açucareira do nordeste colonial (muitos dos senhores de engenho e comerciantes eram cristãos-novos), ou a necessidade de “integrar o Brasil no mundo cristão” e “investigar sobre quais estruturas calcava-se a fé” dos colonos, a razão da vinda do inquisidor esteve inserida na expansão da vigilância do tribunal da Inquisição de Lisboa sobre os territórios portugueses no Atlântico Sul. 
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A chegada do inquisidor Heitor Furtado de Mendonça causou grande impacto nas regiões visitadas. Recebido com grande autoridade e ostentação, com juramento de fidelidade e obediência por parte do bispo, da câmara municipal e demais autoridades coloniais, o visitador introduziu as formalidades características da prática inquisitorial: a afixação do edital da fé, obrigando todos a delatar ou confessar as heresias sabidas ou praticadas, e a leitura do monitório, uma lista dos crimes ou indícios que interessavam ao Santo Ofício
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Ilustrações de “sambenitos”, vestimentas que distinguiam os condenados da Inquisição
Nesse período, o domínio do tribunal ia além dos suspeitos de judaísmo: inserindo também os cristãos-velhos no rol de condenados, a Inquisição assumira as inquietações da Contra-Reforma com o avanço protestante e a tentativa de disciplinar o clero e os fiéis. O crime de heresia passa a incorporar, na altura, os desvios da fé, costumes e comportamentos, morais e sexuais, que contrariavam a ortodoxia da religião cristã. Afirmar que não havia pecado na fornicação, contestar a existência do purgatório, seguir a “seita de Lutero”, a prática da sodomia, a bigamia, a blasfêmia, a feitiçaria e o pacto com o diabo, ou mesmo contestar a pureza da Virgem Maria, a virtude dos Santos e da Santíssima Trindade eram “crimes” passíveis de serem julgados pelos inquisidores. 
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Durante a visitação, foram instaurados processos contra bígamos, feiticeiras, blasfemos e sodomitas, com a prisão e o envio de réus para Lisboa. O inquisidor enviado tinha por incumbência visitar também as “capitanias do sul” do Brasil e os bispados de Cabo Verde e São Tomé, o que não pôde cumprir por tardar tempo demais na Bahia.
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A segunda visitação do Santo Ofício enviada ao Brasil esteve a cargo do visitador Marcos Teixeira entre os anos de 1618 a 1621, ficando restrita à Bahia. O inquisidor foi incumbido de investigar a prática de heresias, sobretudo as suspeitas de que os cristãos-novos mantinham as práticas judaicas. Novos réus foram enviados presos a Lisboa. Uma possível motivação política distingue o caráter dessa visitação: a desconfiança de que os cristãos-novos, por suas ligações com os judeus de Amsterdã, poderiam auxiliar a esperada invasão holandesa ao Brasil, consumada em 1630, em Pernambuco, com visíveis indícios da cooperação de cristãos-novos. No período de ocupação holandesa, os judeus sefarditas seriam autorizados a imigrar, integrando-se à economia açucareira como mercadores e senhores de engenho, marcando um “renascimento” do judaísmo no Brasil (surgimento da “rua dos judeus” e fundação de sinagogas no Recife).
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As duas primeiras visitações inquisitoriais ao Brasil ocorreram no período da União Ibérica (1580-1640), de domínio da Coroa espanhola sobre Portugal. Por conseqüência, a Inquisição portuguesa seguiu, à época, uma orientação próxima da Inquisição espanhola, a ponto do rei espanhol determinar, em 1623, a instalação de um tribunal da Inquisição no Brasil, sediado no bispado da Bahia. O projeto, adiado pela tentativa de invasão holandesa na Bahia (1624-25) e pelo clima de instabilidade decorrente das invasões e expansão holandesa no nordeste do Brasil, iniciada em Pernambuco (1630), jamais se concretizaria. 
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A atuação do Santo Ofício no Brasil não ficou restrita, todavia, às visitações esporádicas. A partir da segunda metade do século XVI e durante todo o século XVIII, cria-se uma verdadeira “engrenagem inquisitorial” nos núcleos mais prósperos de colonização portuguesa. Essa “engrenagem” era composta de agentes da Inquisição, inseridos nas capitanias e auxiliados por visitadores nomeados pelas dioceses, encarregados de encaminhar os suspeitos de heresia para o Tribunal de Lisboa. Um grande número de réus teve seu infortúnio iniciado nas visitas ordenadas pelas novas dioceses, inquiridos depois pelos agentes da Inquisição e enviados a Lisboa, onde seriam processados e condenados a ouvir suas sentenças nos autos-de-fé (cerimônias públicas realizadas nas praças centrais ou no claustro dos conventos). 
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Representação de uma procissão de auto-de-fé, em que os condenados da Inquisição recebiam suas sentenças diante da multidão presente.
Dentre os agentes da Inquisição, presentes no Brasil colonial, destacavam-se os “familiares” e “comissários”. Os primeiros eram indivíduos letrados, encarregados de executar a prisão dos acusados e apreender os bens dos suspeitos nos crimes que implicassem confisco. Tratava-se de colaboradores leigos: mercadores, homens de negócio, militares, funcionários da administração da Coroa, navegantes, senhores de engenho, médicos, cirurgiões, estudantes, boticários etc.
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Os “comissários”, por sua vez, eram membros do clero, encarregados de instruir processos, proceder aos inquéritos e ordenar a prisão de réus suspeitos de heresia, enviando-os a Portugal para julgamento no Tribunal de Lisboa. 
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Uma terceira visitação do Santo Ofício foi ainda enviada ao Estado do Grão-Pará e Maranhão entre 1763 e 1772. Essa visita esteve a cargo do inquisidor Giraldo José de Abranches, que anteriormente havia ocupado funções de vigário-geral no bispado de São Paulo e arcediago em Mariana, diferente, portanto, dos primeiros visitadores, que não conheciam o Brasil antes do período das visitas. Trata-se de uma visitação inserida no cenário político das reformas conduzidas pelo marquês de Pombal, durante o reinado de D. José I (1750-1777). 
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Marquês de Pombal e os planos de reconstrução de Lisboa após o  terremoto de 1755
A Inquisição atuara como instrumento de perseguição política aos jesuítas através do processo inquisitorial sofrido pelo jesuíta italiano Gabriel Malagrida, importante missionário e pregador no Maranhão e Grão-Pará, responsável pela fundação de seminários e recolhimentos em Belém, São Luís e Salvador. Com grande influência na Corte portuguesa, Malagrida opusera-se às reformas pombalinas até ser acusado de envolvimento na tentativa de assassinato sofrida pelo rei D. José I em 1758. Preso por conspiração, juntamente com outros jesuítas, Malagrida foi, em seguida, denunciado ao Tribunal da Inquisição por crime de heresia pelo marquês de Pombal, na condição de “familiar” do Santo Ofício. A condenação de Gabriel Malagrida, que manteve as vestes de jesuíta durante a cerimônia do auto-de-fé, contra o costume da Inquisição, representou uma condenação simbólica de todo o corpo da Companhia de Jesus.
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A região do Grão-Pará e Maranhão, que recebeu a última visitação, adquiriu importância estratégica durante a administração pombalina, e depois da expulsão dos jesuítas interessava à Coroa substituir o modelo de catolicismo dos missionários, dominante na região, por um modelo de catolicismo em que as prerrogativas do Estado prevalecesses sobre os interesses particularistas da Igreja. São interessantes, no caso dessa visitação, a convergência de elementos culturais indígenas, africanos e europeus nas práticas investigadas pelo inquisidor Giraldo José de Abranches e o abandono das “causas de judaísmo”, precedendo a abolição da diferença entre cristãos-novos e cristãos-velhos (1773). 
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As reformas pombalinas atingiram a Inquisição a partir da atuação de Paulo de Carvalho, irmão de Pombal, na administração do tribunal, desde 1760, determinando uma progressiva alteração e diminuição da autonomia do tribunal que culminaria com a transformação da Inquisição em tribunal régio, em 1768, e a atribuição da censura à Mesa Real Censória, criada em 1769.
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Nesse período, realizam-se os últimos grandes autos-de-fé públicos feitos nas praças e recintos das igrejas e conventos de Lisboa (1765 e 1767), onde se liam as sentenças dos réus condenados pela Inquisição. A prática do tribunal português foi definitivamente reformada em 1774, por intermédio do marquês de Pombal, com o fim dos autos-de-fé e das listas impressas de sentenciados pela Inquisição, evidenciando uma mudança de postura diante da opinião negativa sobre as atividades do Santo Ofício corrente em toda a Europa. A atividade dos inquisidores portugueses e a perseguição efetuada pelo tribunal declinariam sensivelmente até sua extinção ser decretada pelas Cortes Liberais de 1821.

Para saber mais

Francisco Bethencourt. História das inquisições: Portugal, Espanha e Itália: séculos XV-XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
Ronaldo Vainfas (direção). Dicionário do Brasil Colonial: 1500-1808. Rio de Janeiro: Objetiva, 2000.
Geraldo Pieroni. Vadios e ciganos, heréticos e bruxas: os degredados no Brasil-colônia. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000.
Anita Waingort Novinsky. A Inquisição. São Paulo: Brasiliense, 1986 (Coleção Tudo é história).
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Laura de Mello e Souza. O diabo e a terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade popular no Brasil colonial. São Paulo: Cia das Letras, 1995..

Como aplicar esta matéria em sala de aula

Nesta matéria, o especialista da Unicamp, Evandro Domingues, discute o tema da Inquisição e sua presença na América portuguesa. A matéria pode ser utilizada para atualizar e complementar as informações disponíveis nos livros didáticos sobre o assunto, além de inserir o Brasil no cenário das questões religiosas que permeiam a história moderna da Europa. Além disso, a temática permite propor questões atuais relacionadas à intolerância e aos conflitos entre culturas diversas, assim como a utilização política destes conflitos, decorrente da imposição de posturas e pensamentos unilaterais. 
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Clair De Lune - Debussy


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TepidShark | 15 de Julho de 2007
This is a deleted scene from Walt Disney's Fantasia. It is a really nice calm mood piece. (May get taken down, F.Y.I.)
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♥ﻉ♥Feяmina - Boa Noite

Assunto: RE: LINDA NOITE DE PAZ
Data: 31/Ago 18:58
--- MARINEUZA wrote: UAUUUUUUUUUUUUUUUUUU, VOCE PENSOU QUE EU NÃO PASSARIA HOJE A LHE DESEJAR UMA LINDA E FELIZ NOITE.... BEIJOSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSSS


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