Discurso de Lula da Silva (excerto)

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segunda-feira, 9 de junho de 2008

Poesia - Álvaro de Campos (1) e Alberto Caeiro

Fernando Pessoa

Nome do autor: Fernando Pessoa
Tipo de Arquivos: Arquivos mp3

Interprete: Paulo Autran

Titulo dos Contos:

http://www.esnips.com/web/Ferando-Pessoa


Autopsicografia (513 KB)
Vem sentar-te comigo Lídia (2,11 MB)
O Guardador de Rebanho parte VIII (6,63 MB)
Cruz na Porta da Tabacaria (0,98 MB)
Aniversario (2,80 MB)
O Menino da Sua mãe (1,28 MB)
Poema em Linha Reta (2,15 MB)
Quero Ignorado (508 KB)
Se Te Queres Matar (4,23 MB)
Tenho dó das Estrelas (692 KB)
Esta Velha Angustia (1,76 MB)
Ah, um Soneto (725 KB)
Grandes são os Desertos (2,74 MB)
Vem, Noite (3,63 MB)
O Monstrengo (1,27 MB)
Ode Triunfal (10,4 MB)
Quando Era Jovem (628 KB)

Ah, um Soneto...

Ah, um Soneto...

Meu coração é um almirante louco
que abandonou a profissão do mar
e que a vai relembrando pouco a pouco
em casa a passear, a passear ...

No movimento (eu mesmo me desloco
nesta cadeira, só de o imaginar)
o mar abandonado fica em foco
nos músculos cansados de parar.

Há saudades nas pernas e nos braços.
Há saudades no cérebro por fora.
Há grandes raivas feitas de cansaços.

Álvaro de Campos

Aniversário

Aniversário

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

Álvaro de Campos

Autopsicografia

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira a entreter a razão,
Esse comboio de corda
que se chama o coração.

Fernando Pessoa

Cruz na porta da tabacaria!

Cruz na porta da tabacaria!

Cruz na porta da tabacaria!
Quem morreu? O próprio Alves? Dou
Ao diabo o bem-estar que trazia.
Desde ontem a cidade mudou.

Quem era? Ora, era quem eu via.
Todos os dias o via. Estou
Agora sem essa monotonia.
Desde ontem a cidade mudou.

Ele era o dono da tabacaria.
Um ponto de referência de quem sou
Eu passava ali de noite e de dia.
Desde ontem a cidade mudou.

Meu coração tem pouca alegria,
E isto diz que é morte aquilo onde estou.
Horror fechado da tabacaria!
Desde ontem a cidade mudou.

Mas ao menos a ele alguém o via,
Ele era fixo, eu, o que vou,
Se morrer, não falto, e ninguém diria.
Desde ontem a cidade mudou.

Álvaro de Campos

Esta Velha Angústia

Esta Velha Angústia

Esta velha angústia,
Esta angústia que trago há séculos em mim,
Transbordou da vasilha,
Em lágrimas, em grandes imaginações,
Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror,
Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum.

Transbordou.
Mal sei como conduzir-me na vida
Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma!
Se ao menos endoidecesse deveras!
Mas não: é este estar entre,
Este quase,
Este poder ser que...,
Isto.

Um internado num manicómio é, ao menos, alguém,
Eu sou um internado num manicómio sem manicómio.
Estou doido a frio,
Estou lúcido e louco,
Estou alheio a tudo e igual a todos:
Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura
Porque não são sonhos.
Estou assim...

Pobre velha casa da minha infância perdida!
Quem te diria que eu me desacolhesse tanto!
Que é do teu menino? Está maluco.
Que é de quem dormia sossegado sob o teu teto provinciano?
Está maluco.
Quem de quem fui? Está maluco. Hoje é quem eu sou.

Se ao menos eu tivesse uma religião qualquer!
Por exemplo, por aquele manipanso
Que havia em casa, lá nessa, trazido de África.
Era feiíssimo, era grotesco,
Mas havia nele a divindade de tudo em que se crê.
Se eu pudesse crer num manipanso qualquer —
Júpiter, Jeová, a Humanidade —
Qualquer serviria,
Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo?

Estala, coração de vidro pintado!

Álvaro de Campos

Grandes são os Desertos

Grandes são os Desertos

Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto
Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo.
Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes
Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas,
Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu.

Grandes são os desertos, minha alma!
Grandes são os desertos.

Não tirei bilhete para a vida,
Errei a porta do sentimento,
Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse.
Hoje não me resta, em vésperas de viagem,
Com a mala aberta esperando a arrumação adiada,
Sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem,
Hoje não me resta (à parte o incômodo de estar assim sentado)
Senão saber isto:
Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Grande é a vida, e não vale a pena haver vida,

Arrumo melhor a mala com os olhos de pensar em arrumar
Que com arrumação das mãos factícias (e creio que digo bem)
Acendo o cigarro para adiar a viagem,
Para adiar todas as viagens.
Para adiar o universo inteiro.

Volta amanhã, realidade!
Basta por hoje, gentes!
Adia-te, presente absoluto!
Mais vale não ser que ser assim.

Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro,
E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito.

Mas tenho que arrumar mala,
Tenho por força que arrumar a mala,
A mala.

Não posso levar as camisas na hipótese e a mala na razão.
Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala.
Mas também, toda a vida, tenho ficado sentado sobre o canto das camisas empilhadas,
A ruminar, como um boi que não chegou a Ápis, destino.

Tenho que arrumar a mala de ser.
Tenho que existir a arrumar malas.
A cinza do cigarro cai sobre a camisa de cima do monte.
Olho para o lado, verifico que estou a dormir.
Sei só que tenho que arrumar a mala,
E que os desertos são grandes e tudo é deserto,
E qualquer parábola a respeito disto, mas dessa é que já me esqueci.

Ergo-me de repente todos os Césares.
Vou definitivamente arrumar a mala.
Arre, hei de arrumá-la e fechá-la;
Hei de vê-la levar de aqui,
Hei de existir independentemente dela.

Grandes são os desertos e tudo é deserto,
Salvo erro, naturalmente.
Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado!

Mais vale arrumar a mala.
Fim.

Álvaro de Campos

O Guardador de Rebanhos parte VIII

O Guardador de Rebanhos parte VIII

Num meio-dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas...
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.

Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.

Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas.
Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.

Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou –
«Se é que ele as criou, do que duvido» –
«Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres.»
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo um universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.

Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?

O Menino de Sua Mãe

O Menino de Sua Mãe

No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece
De balas trespassado
- Duas de lado a lado -
Jaz morto, e arrefece...

Raia-lhe a farda o sangue
De braços estendidos,
Alvo, louro exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! Que jovem era!
(Agora... que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
"O Menino da sua mãe".

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lha a mãe. Está inteira
E boa, a cigarreira,
Ele é que já não serve.

Doutra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
"Que volte cedo e bem!"
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto e apodrece,
O menino da sua mãe.

O Monstrengo

IV. O MOSTRENGO

mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
A roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tetos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:
«El-Rei D. João Segundo!»

«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso.
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-Rei D. João Segundo!»

Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»

ODE TRIUNFAL

ODE TRIUNFAL

À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!

Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical -
Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força -
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro,
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas
Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,
Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem,
Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,
Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,
Fazendo-me um acesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.

Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
Ser completo como uma máquina!
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!
Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,
Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento
A todos os perfumes de óleos e calores e carvões
Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!

Fraternidade com todas as dinâmicas!
Promíscua fúria de ser parte-agente
Do rodar férreo e cosmopolita
Dos comboios estrénuos,
Da faina transportadora-de-cargas dos navios,
Do giro lúbrico e lento dos guindastes,
Do tumulto disciplinado das fábricas,
E do quase-silêncio ciciante e monótono das correias de transmissão!

Horas europeias, produtoras, entaladas
Entre maquinismos e afazeres úteis!
Grandes cidades paradas nos cafés,
Nos cafés - oásis de inutilidades ruidosas
Onde se cristalizam e se precipitam
Os rumores e os gestos do Útil
E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo!
Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares!
Novos entusiasmos de estatura do Momento!
Quilhas de chapas de ferro sorrindo encostadas às docas,
Ou a seco, erguidas, nos planos-inclinados dos portos!
Actividade internacional, transatlântica, Canadian-Pacific!
Luzes e febris perdas de tempo nos bares, nos hotéis,
Nos Longchamps e nos Derbies e nos Ascots,
E Piccadillies e Avenues de L'Opéra que entram
Pela minh'alma dentro!

Hé-lá as ruas, hé-lá as praças, hé-lá-hô la foule!
Tudo o que passa, tudo o que pára às montras!
Comerciantes; vários; escrocs exageradamente bem-vestidos;
Membros evidentes de clubes aristocráticos;
Esquálidas figuras dúbias; chefes de família vagamente felizes
E paternais até na corrente de oiro que atravessa o colete
De algibeira a algibeira!
Tudo o que passa, tudo o que passa e nunca passa!
Presença demasiadamente acentuada das cocotes
Banalidade interessante (e quem sabe o quê por dentro?)
Das burguesinhas, mãe e filha geralmente,
Que andam na rua com um fim qualquer;
A graça feminil e falsa dos pederastas que passam, lentos;
E toda a gente simplesmente elegante que passeia e se mostra
E afinal tem alma lá dentro!

(Ah, como eu desejaria ser o souteneur disto tudo!)

A maravilhosa beleza das corrupções políticas,
Deliciosos escândalos financeiros e diplomáticos,
Agressões políticas nas ruas,
E de vez em quando o cometa dum regicídio
Que ilumina de Prodígio e Fanfarra os céus
Usuais e lúcidos da Civilização quotidiana!

Notícias desmentidas dos jornais,
Artigos políticos insinceramente sinceros,
Notícias passez à-la-caisse, grandes crimes -
Duas colunas deles passando para a segunda página!
O cheiro fresco a tinta de tipografia!
Os cartazes postos há pouco, molhados!
Vients-de-paraître amarelos como uma cinta branca!
Como eu vos amo a todos, a todos, a todos,
Como eu vos amo de todas as maneiras,
Com os olhos e com os ouvidos e com o olfacto
E com o tacto (o que palpar-vos representa para mim!)
E com a inteligência como uma antena que fazeis vibrar!
Ah, como todos os meus sentidos têm cio de vós!

Adubos, debulhadoras a vapor, progressos da agricultura!
Química agrícola, e o comércio quase uma ciência!
Ó mostruários dos caixeiros-viajantes,
Dos caixeiros-viajantes, cavaleiros-andantes da Indústria,
Prolongamentos humanos das fábricas e dos calmos escritórios!

Ó fazendas nas montras! Ó manequins! Ó últimos figurinos!
Ó artigos inúteis que toda a gente quer comprar!
Olá grandes armazéns com várias secções!
Olá anúncios eléctricos que vêm e estão e desaparecem!
Olá tudo com que hoje se constrói, com que hoje se é diferente de ontem!
Eh, cimento armado, beton de cimento, novos processos!
Progressos dos armamentos gloriosamente mortíferos!
Couraças, canhões, metralhadoras, submarinos, aeroplanos!
Amo-vos a todos, a tudo, como uma fera.
Amo-vos carnivoramente.
Pervertidamente e enroscando a minha vista
Em vós, ó coisas grandes, banais, úteis, inúteis,
Ó coisas todas modernas,
Ó minhas contemporâneas, forma actual e próxima
Do sistema imediato do Universo!
Nova Revelação metálica e dinâmica de Deus!

Ó fábricas, ó laboratórios, ó music-halls, ó Luna-Parks,
Ó couraçados, ó pontes, ó docas flutuantes -
Na minha mente turbulenta e encandescida
Possuo-vos como a uma mulher bela,
Completamente vos possuo como a uma mulher bela que não se ama,
Que se encontra casualmente e se acha interessantíssima.

Eh-lá-hô fachadas das grandes lojas!
Eh-lá-hô elevadores dos grandes edifícios!
Eh-lá-hô recomposições ministeriais!
Parlamentos, políticas, relatores de orçamentos,
Orçamentos falsificados!
(Um orçamento é tão natural como uma árvore
E um parlamento tão belo como uma borboleta).

Eh-lá o interesse por tudo na vida,
Porque tudo é a vida, desde os brilhantes nas montras
Até à noite ponte misteriosa entre os astros
E o mar antigo e solene, lavando as costas
E sendo misericordiosamente o mesmo
Que era quando Platão era realmente Platão
Na sua presença real e na sua carne com a alma dentro,
E falava com Aristóteles, que havia de não ser discípulo dele.

Eu podia morrer triturado por um motor
Com o sentimento de deliciosa entrega duma mulher possuída.
Atirem-me para dentro das fornalhas!
Metam-me debaixo dos comboios!
Espanquem-me a bordo de navios!
Masoquismo através de maquinismos!
Sadismo de não sei quê moderno e eu e barulho!

Up-lá hô jockey que ganhaste o Derby,
Morder entre dentes o teu cap de duas cores!

(Ser tão alto que não pudesse entrar por nenhuma porta!
Ah, olhar é em mim uma perversão sexual!)

Eh-lá, eh-lá, eh-lá, catedrais!
Deixai-me partir a cabeça de encontro às vossas esquinas.

E ser levado da rua cheio de sangue
Sem ninguém saber quem eu sou!

Ó tramways, funiculares, metropolitanos,
Roçai-vos por mim até ao espasmo!
Hilla! hilla! hilla-hô!
Dai-me gargalhadas em plena cara,
Ó automóveis apinhados de pândegos e de...,
Ó multidões quotidianas nem alegres nem tristes das ruas,
Rio multicolor anónimo e onde eu me posso banhar como quereria!
Ah, que vidas complexas, que coisas lá pelas casas de tudo isto!
Ah, saber-lhes as vidas a todos, as dificuldades de dinheiro,
As dissensões domésticas, os deboches que não se suspeitam,
Os pensamentos que cada um tem a sós consigo no seu quarto
E os gestos que faz quando ninguém pode ver!
Não saber tudo isto é ignorar tudo, ó raiva,
Ó raiva que como uma febre e um cio e uma fome
Me põe a magro o rosto e me agita às vezes as mãos
Em crispações absurdas em pleno meio das turbas
Nas ruas cheias de encontrões!

Ah, e a gente ordinária e suja, que parece sempre a mesma,
Que emprega palavrões como palavras usuais,
Cujos filhos roubam às portas das mercearias
E cujas filhas aos oito anos - e eu acho isto belo e amo-o! -
Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada.
A gentalha que anda pelos andaimes e que vai para casa
Por vielas quase irreais de estreiteza e podridão.
Maravilhosamente gente humana que vive como os cães
Que está abaixo de todos os sistemas morais,
Para quem nenhuma religião foi feita,
Nenhuma arte criada,
Nenhuma política destinada para eles!
Como eu vos amo a todos, porque sois assim,
Nem imorais de tão baixos que sois, nem bons nem maus,
Inatingíveis por todos os progressos,
Fauna maravilhosa do fundo do mar da vida!

(Na nora do quintal da minha casa
O burro anda à roda, anda à roda,
E o mistério do mundo é do tamanho disto.
Limpa o suor com o braço, trabalhador descontente.
A luz do sol abafa o silêncio das esferas
E havemos todos de morrer,
Ó pinheirais sombrios ao crepúsculo,
Pinheirais onde a minha infância era outra coisa
Do que eu sou hoje...)

Mas, ah outra vez a raiva mecânica constante!
Outra vez a obsessão movimentada dos ónibus.
E outra vez a fúria de estar indo ao mesmo tempo dentro de todos os comboios
De todas as partes do mundo,
De estar dizendo adeus de bordo de todos os navios,
Que a estas horas estão levantando ferro ou afastando-se das docas.
Ó ferro, ó aço, ó alumínio, ó chapas de ferro ondulado!
Ó cais, ó portos, ó comboios, ó guindastes, ó rebocadores!

Eh-lá grandes desastres de comboios!
Eh-lá desabamentos de galerias de minas!
Eh-lá naufrágios deliciosos dos grandes transatlânticos!
Eh-lá-hô revoluções aqui, ali, acolá,
Alterações de constituições, guerras, tratados, invasões,
Ruído, injustiças, violências, e talvez para breve o fim,
A grande invasão dos bárbaros amarelos pela Europa,
E outro Sol no novo Horizonte!

Que importa tudo isto, mas que importa tudo isto
Ao fúlgido e rubro ruído contemporâneo,
Ao ruído cruel e delicioso da civilização de hoje?
Tudo isso apaga tudo, salvo o Momento,
O Momento de tronco nu e quente como um fogueiro,
O Momento estridentemente ruidoso e mecânico,
O Momento dinâmico passagem de todas as bacantes
Do ferro e do bronze e da bebedeira dos metais.

Eia comboios, eia pontes, eia hotéis à hora do jantar,
Eia aparelhos de todas as espécies, férreos, brutos, mínimos,
Instrumentos de precisão, aparelhos de triturar, de cavar,
Engenhos brocas, máquinas rotativas!

Eia! eia! eia!
Eia electricidade, nervos doentes da Matéria!
Eia telegrafia-sem-fios, simpatia metálica do Inconsciente!
Eia túneis, eia canais, Panamá, Kiel, Suez!
Eia todo o passado dentro do presente!
Eia todo o futuro já dentro de nós! eia!
Eia! eia! eia!
Frutos de ferro e útil da árvore-fábrica cosmopolita!
Eia! eia! eia! eia-hô-ô-ô!
Nem sei que existo para dentro. Giro, rodeio, engenho-me.
Engatam-me em todos os comboios.
Içam-me em todos os cais.
Giro dentro das hélices de todos os navios.
Eia! eia-hô! eia!
Eia! sou o calor mecânico e a electricidade!

Eia! e os rails e as casas de máquinas e a Europa!
Eia e hurrah por mim-tudo e tudo, máquinas a trabalhar, eia!

Galgar com tudo por cima de tudo! Hup-lá!

Hup-lá, hup-lá, hup-lá-hô, hup-lá!
Hé-la! He-hô! H-o-o-o-o!
Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z!

Ah não ser eu toda a gente e toda a parte!

Álvaro de Campos

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http://br.geocities.com/xena_a/fernando_pessoa.htm

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Titulo dos Contos:

http://www.esnips.com/web/Ferando-Pessoa


Autopsicografia (513 KB)
Vem sentar-te comigo Lídia (2,11 MB)
O Guardador de Rebanho parte VIII (6,63 MB)
Cruz na Porta da Tabacaria (0,98 MB)
Aniversario (2,80 MB)
O Menino da Sua mãe (1,28 MB)
Poema em Linha Reta (2,15 MB)
Quero Ignorado (508 KB)
Se Te Queres Matar (4,23 MB)
Tenho dó das Estrelas (692 KB)
Esta Velha Angustia (1,76 MB)
Ah, um Soneto (725 KB)
Grandes são os Desertos (2,74 MB)
Vem, Noite (3,63 MB)
O Monstrengo (1,27 MB)
Ode Triunfal (10,4 MB)
Quando Era Jovem (628 KB)

Ah, um Soneto...


Ah, um Soneto...

Meu coração é um almirante louco
que abandonou a profissão do mar
e que a vai relembrando pouco a pouco
em casa a passear, a passear ...

No movimento (eu mesmo me desloco
nesta cadeira, só de o imaginar)
o mar abandonado fica em foco
nos músculos cansados de parar.

Há saudades nas pernas e nos braços.
Há saudades no cérebro por fora.
Há grandes raivas feitas de cansaços.

Álvaro de Campos

Aniversário


Aniversário

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

Álvaro de Campos

Autopsicografia


Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira a entreter a razão,
Esse comboio de corda
que se chama o coração.

Fernando Pessoa

Cruz na porta da tabacaria!


Cruz na porta da tabacaria!

Cruz na porta da tabacaria!
Quem morreu? O próprio Alves? Dou
Ao diabo o bem-estar que trazia.
Desde ontem a cidade mudou.

Quem era? Ora, era quem eu via.
Todos os dias o via. Estou
Agora sem essa monotonia.
Desde ontem a cidade mudou.

Ele era o dono da tabacaria.
Um ponto de referência de quem sou
Eu passava ali de noite e de dia.
Desde ontem a cidade mudou.

Meu coração tem pouca alegria,
E isto diz que é morte aquilo onde estou.
Horror fechado da tabacaria!
Desde ontem a cidade mudou.

Mas ao menos a ele alguém o via,
Ele era fixo, eu, o que vou,
Se morrer, não falto, e ninguém diria.
Desde ontem a cidade mudou.

Álvaro de Campos

Esta Velha Angústia


Esta Velha Angústia

Esta velha angústia,
Esta angústia que trago há séculos em mim,
Transbordou da vasilha,
Em lágrimas, em grandes imaginações,
Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror,
Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum.

Transbordou.
Mal sei como conduzir-me na vida
Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma!
Se ao menos endoidecesse deveras!
Mas não: é este estar entre,
Este quase,
Este poder ser que...,
Isto.

Um internado num manicómio é, ao menos, alguém,
Eu sou um internado num manicómio sem manicómio.
Estou doido a frio,
Estou lúcido e louco,
Estou alheio a tudo e igual a todos:
Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura
Porque não são sonhos.
Estou assim...

Pobre velha casa da minha infância perdida!
Quem te diria que eu me desacolhesse tanto!
Que é do teu menino? Está maluco.
Que é de quem dormia sossegado sob o teu teto provinciano?
Está maluco.
Quem de quem fui? Está maluco. Hoje é quem eu sou.

Se ao menos eu tivesse uma religião qualquer!
Por exemplo, por aquele manipanso
Que havia em casa, lá nessa, trazido de África.
Era feiíssimo, era grotesco,
Mas havia nele a divindade de tudo em que se crê.
Se eu pudesse crer num manipanso qualquer —
Júpiter, Jeová, a Humanidade —
Qualquer serviria,
Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo?

Estala, coração de vidro pintado!

Álvaro de Campos

Grandes são os Desertos


Grandes são os Desertos

Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto
Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo.
Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes
Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas,
Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu.

Grandes são os desertos, minha alma!
Grandes são os desertos.

Não tirei bilhete para a vida,
Errei a porta do sentimento,
Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse.
Hoje não me resta, em vésperas de viagem,
Com a mala aberta esperando a arrumação adiada,
Sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem,
Hoje não me resta (à parte o incômodo de estar assim sentado)
Senão saber isto:
Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Grande é a vida, e não vale a pena haver vida,

Arrumo melhor a mala com os olhos de pensar em arrumar
Que com arrumação das mãos factícias (e creio que digo bem)
Acendo o cigarro para adiar a viagem,
Para adiar todas as viagens.
Para adiar o universo inteiro.

Volta amanhã, realidade!
Basta por hoje, gentes!
Adia-te, presente absoluto!
Mais vale não ser que ser assim.

Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro,
E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito.

Mas tenho que arrumar mala,
Tenho por força que arrumar a mala,
A mala.

Não posso levar as camisas na hipótese e a mala na razão.
Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala.
Mas também, toda a vida, tenho ficado sentado sobre o canto das camisas empilhadas,
A ruminar, como um boi que não chegou a Ápis, destino.

Tenho que arrumar a mala de ser.
Tenho que existir a arrumar malas.
A cinza do cigarro cai sobre a camisa de cima do monte.
Olho para o lado, verifico que estou a dormir.
Sei só que tenho que arrumar a mala,
E que os desertos são grandes e tudo é deserto,
E qualquer parábola a respeito disto, mas dessa é que já me esqueci.

Ergo-me de repente todos os Césares.
Vou definitivamente arrumar a mala.
Arre, hei de arrumá-la e fechá-la;
Hei de vê-la levar de aqui,
Hei de existir independentemente dela.

Grandes são os desertos e tudo é deserto,
Salvo erro, naturalmente.
Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado!

Mais vale arrumar a mala.
Fim.

Álvaro de Campos

O Guardador de Rebanhos parte VIII


O Guardador de Rebanhos parte VIII

Num meio-dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas...
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.

Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.

Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas.
Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.

Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou –
«Se é que ele as criou, do que duvido» –
«Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres.»
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo um universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.

Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?

O Menino de Sua Mãe


O Menino de Sua Mãe

No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece
De balas trespassado
- Duas de lado a lado -
Jaz morto, e arrefece...

Raia-lhe a farda o sangue
De braços estendidos,
Alvo, louro exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! Que jovem era!
(Agora... que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
"O Menino da sua mãe".

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lha a mãe. Está inteira
E boa, a cigarreira,
Ele é que já não serve.

Doutra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
"Que volte cedo e bem!"
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto e apodrece,
O menino da sua mãe.

O Monstrengo


IV. O MOSTRENGO

mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
A roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tetos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:
«El-Rei D. João Segundo!»

«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso.
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-Rei D. João Segundo!»

Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»

ODE TRIUNFAL


ODE TRIUNFAL

À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!

Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical -
Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força -
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro,
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas
Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,
Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem,
Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,
Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,
Fazendo-me um acesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.

Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
Ser completo como uma máquina!
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!
Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,
Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento
A todos os perfumes de óleos e calores e carvões
Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!

Fraternidade com todas as dinâmicas!
Promíscua fúria de ser parte-agente
Do rodar férreo e cosmopolita
Dos comboios estrénuos,
Da faina transportadora-de-cargas dos navios,
Do giro lúbrico e lento dos guindastes,
Do tumulto disciplinado das fábricas,
E do quase-silêncio ciciante e monótono das correias de transmissão!

Horas europeias, produtoras, entaladas
Entre maquinismos e afazeres úteis!
Grandes cidades paradas nos cafés,
Nos cafés - oásis de inutilidades ruidosas
Onde se cristalizam e se precipitam
Os rumores e os gestos do Útil
E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo!
Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares!
Novos entusiasmos de estatura do Momento!
Quilhas de chapas de ferro sorrindo encostadas às docas,
Ou a seco, erguidas, nos planos-inclinados dos portos!
Actividade internacional, transatlântica, Canadian-Pacific!
Luzes e febris perdas de tempo nos bares, nos hotéis,
Nos Longchamps e nos Derbies e nos Ascots,
E Piccadillies e Avenues de L'Opéra que entram
Pela minh'alma dentro!

Hé-lá as ruas, hé-lá as praças, hé-lá-hô la foule!
Tudo o que passa, tudo o que pára às montras!
Comerciantes; vários; escrocs exageradamente bem-vestidos;
Membros evidentes de clubes aristocráticos;
Esquálidas figuras dúbias; chefes de família vagamente felizes
E paternais até na corrente de oiro que atravessa o colete
De algibeira a algibeira!
Tudo o que passa, tudo o que passa e nunca passa!
Presença demasiadamente acentuada das cocotes
Banalidade interessante (e quem sabe o quê por dentro?)
Das burguesinhas, mãe e filha geralmente,
Que andam na rua com um fim qualquer;
A graça feminil e falsa dos pederastas que passam, lentos;
E toda a gente simplesmente elegante que passeia e se mostra
E afinal tem alma lá dentro!

(Ah, como eu desejaria ser o souteneur disto tudo!)

A maravilhosa beleza das corrupções políticas,
Deliciosos escândalos financeiros e diplomáticos,
Agressões políticas nas ruas,
E de vez em quando o cometa dum regicídio
Que ilumina de Prodígio e Fanfarra os céus
Usuais e lúcidos da Civilização quotidiana!

Notícias desmentidas dos jornais,
Artigos políticos insinceramente sinceros,
Notícias passez à-la-caisse, grandes crimes -
Duas colunas deles passando para a segunda página!
O cheiro fresco a tinta de tipografia!
Os cartazes postos há pouco, molhados!
Vients-de-paraître amarelos como uma cinta branca!
Como eu vos amo a todos, a todos, a todos,
Como eu vos amo de todas as maneiras,
Com os olhos e com os ouvidos e com o olfacto
E com o tacto (o que palpar-vos representa para mim!)
E com a inteligência como uma antena que fazeis vibrar!
Ah, como todos os meus sentidos têm cio de vós!

Adubos, debulhadoras a vapor, progressos da agricultura!
Química agrícola, e o comércio quase uma ciência!
Ó mostruários dos caixeiros-viajantes,
Dos caixeiros-viajantes, cavaleiros-andantes da Indústria,
Prolongamentos humanos das fábricas e dos calmos escritórios!

Ó fazendas nas montras! Ó manequins! Ó últimos figurinos!
Ó artigos inúteis que toda a gente quer comprar!
Olá grandes armazéns com várias secções!
Olá anúncios eléctricos que vêm e estão e desaparecem!
Olá tudo com que hoje se constrói, com que hoje se é diferente de ontem!
Eh, cimento armado, beton de cimento, novos processos!
Progressos dos armamentos gloriosamente mortíferos!
Couraças, canhões, metralhadoras, submarinos, aeroplanos!
Amo-vos a todos, a tudo, como uma fera.
Amo-vos carnivoramente.
Pervertidamente e enroscando a minha vista
Em vós, ó coisas grandes, banais, úteis, inúteis,
Ó coisas todas modernas,
Ó minhas contemporâneas, forma actual e próxima
Do sistema imediato do Universo!
Nova Revelação metálica e dinâmica de Deus!

Ó fábricas, ó laboratórios, ó music-halls, ó Luna-Parks,
Ó couraçados, ó pontes, ó docas flutuantes -
Na minha mente turbulenta e encandescida
Possuo-vos como a uma mulher bela,
Completamente vos possuo como a uma mulher bela que não se ama,
Que se encontra casualmente e se acha interessantíssima.

Eh-lá-hô fachadas das grandes lojas!
Eh-lá-hô elevadores dos grandes edifícios!
Eh-lá-hô recomposições ministeriais!
Parlamentos, políticas, relatores de orçamentos,
Orçamentos falsificados!
(Um orçamento é tão natural como uma árvore
E um parlamento tão belo como uma borboleta).

Eh-lá o interesse por tudo na vida,
Porque tudo é a vida, desde os brilhantes nas montras
Até à noite ponte misteriosa entre os astros
E o mar antigo e solene, lavando as costas
E sendo misericordiosamente o mesmo
Que era quando Platão era realmente Platão
Na sua presença real e na sua carne com a alma dentro,
E falava com Aristóteles, que havia de não ser discípulo dele.

Eu podia morrer triturado por um motor
Com o sentimento de deliciosa entrega duma mulher possuída.
Atirem-me para dentro das fornalhas!
Metam-me debaixo dos comboios!
Espanquem-me a bordo de navios!
Masoquismo através de maquinismos!
Sadismo de não sei quê moderno e eu e barulho!

Up-lá hô jockey que ganhaste o Derby,
Morder entre dentes o teu cap de duas cores!

(Ser tão alto que não pudesse entrar por nenhuma porta!
Ah, olhar é em mim uma perversão sexual!)

Eh-lá, eh-lá, eh-lá, catedrais!
Deixai-me partir a cabeça de encontro às vossas esquinas.

E ser levado da rua cheio de sangue
Sem ninguém saber quem eu sou!

Ó tramways, funiculares, metropolitanos,
Roçai-vos por mim até ao espasmo!
Hilla! hilla! hilla-hô!
Dai-me gargalhadas em plena cara,
Ó automóveis apinhados de pândegos e de...,
Ó multidões quotidianas nem alegres nem tristes das ruas,
Rio multicolor anónimo e onde eu me posso banhar como quereria!
Ah, que vidas complexas, que coisas lá pelas casas de tudo isto!
Ah, saber-lhes as vidas a todos, as dificuldades de dinheiro,
As dissensões domésticas, os deboches que não se suspeitam,
Os pensamentos que cada um tem a sós consigo no seu quarto
E os gestos que faz quando ninguém pode ver!
Não saber tudo isto é ignorar tudo, ó raiva,
Ó raiva que como uma febre e um cio e uma fome
Me põe a magro o rosto e me agita às vezes as mãos
Em crispações absurdas em pleno meio das turbas
Nas ruas cheias de encontrões!

Ah, e a gente ordinária e suja, que parece sempre a mesma,
Que emprega palavrões como palavras usuais,
Cujos filhos roubam às portas das mercearias
E cujas filhas aos oito anos - e eu acho isto belo e amo-o! -
Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada.
A gentalha que anda pelos andaimes e que vai para casa
Por vielas quase irreais de estreiteza e podridão.
Maravilhosamente gente humana que vive como os cães
Que está abaixo de todos os sistemas morais,
Para quem nenhuma religião foi feita,
Nenhuma arte criada,
Nenhuma política destinada para eles!
Como eu vos amo a todos, porque sois assim,
Nem imorais de tão baixos que sois, nem bons nem maus,
Inatingíveis por todos os progressos,
Fauna maravilhosa do fundo do mar da vida!

(Na nora do quintal da minha casa
O burro anda à roda, anda à roda,
E o mistério do mundo é do tamanho disto.
Limpa o suor com o braço, trabalhador descontente.
A luz do sol abafa o silêncio das esferas
E havemos todos de morrer,
Ó pinheirais sombrios ao crepúsculo,
Pinheirais onde a minha infância era outra coisa
Do que eu sou hoje...)

Mas, ah outra vez a raiva mecânica constante!
Outra vez a obsessão movimentada dos ónibus.
E outra vez a fúria de estar indo ao mesmo tempo dentro de todos os comboios
De todas as partes do mundo,
De estar dizendo adeus de bordo de todos os navios,
Que a estas horas estão levantando ferro ou afastando-se das docas.
Ó ferro, ó aço, ó alumínio, ó chapas de ferro ondulado!
Ó cais, ó portos, ó comboios, ó guindastes, ó rebocadores!

Eh-lá grandes desastres de comboios!
Eh-lá desabamentos de galerias de minas!
Eh-lá naufrágios deliciosos dos grandes transatlânticos!
Eh-lá-hô revoluções aqui, ali, acolá,
Alterações de constituições, guerras, tratados, invasões,
Ruído, injustiças, violências, e talvez para breve o fim,
A grande invasão dos bárbaros amarelos pela Europa,
E outro Sol no novo Horizonte!

Que importa tudo isto, mas que importa tudo isto
Ao fúlgido e rubro ruído contemporâneo,
Ao ruído cruel e delicioso da civilização de hoje?
Tudo isso apaga tudo, salvo o Momento,
O Momento de tronco nu e quente como um fogueiro,
O Momento estridentemente ruidoso e mecânico,
O Momento dinâmico passagem de todas as bacantes
Do ferro e do bronze e da bebedeira dos metais.

Eia comboios, eia pontes, eia hotéis à hora do jantar,
Eia aparelhos de todas as espécies, férreos, brutos, mínimos,
Instrumentos de precisão, aparelhos de triturar, de cavar,
Engenhos brocas, máquinas rotativas!

Eia! eia! eia!
Eia electricidade, nervos doentes da Matéria!
Eia telegrafia-sem-fios, simpatia metálica do Inconsciente!
Eia túneis, eia canais, Panamá, Kiel, Suez!
Eia todo o passado dentro do presente!
Eia todo o futuro já dentro de nós! eia!
Eia! eia! eia!
Frutos de ferro e útil da árvore-fábrica cosmopolita!
Eia! eia! eia! eia-hô-ô-ô!
Nem sei que existo para dentro. Giro, rodeio, engenho-me.
Engatam-me em todos os comboios.
Içam-me em todos os cais.
Giro dentro das hélices de todos os navios.
Eia! eia-hô! eia!
Eia! sou o calor mecânico e a electricidade!

Eia! e os rails e as casas de máquinas e a Europa!
Eia e hurrah por mim-tudo e tudo, máquinas a trabalhar, eia!

Galgar com tudo por cima de tudo! Hup-lá!

Hup-lá, hup-lá, hup-lá-hô, hup-lá!
Hé-la! He-hô! H-o-o-o-o!
Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z!

Ah não ser eu toda a gente e toda a parte!

Álvaro de Campos

Titulo dos Contos:

http://www.esnips.com/web/Ferando-Pessoa


Autopsicografia (513 KB)
Vem sentar-te comigo Lídia (2,11 MB)
O Guardador de Rebanho parte VIII (6,63 MB)
Cruz na Porta da Tabacaria (0,98 MB)
Aniversario (2,80 MB)
O Menino da Sua mãe (1,28 MB)
Poema em Linha Reta (2,15 MB)
Quero Ignorado (508 KB)
Se Te Queres Matar (4,23 MB)
Tenho dó das Estrelas (692 KB)
Esta Velha Angustia (1,76 MB)
Ah, um Soneto (725 KB)
Grandes são os Desertos (2,74 MB)
Vem, Noite (3,63 MB)
O Monstrengo (1,27 MB)
Ode Triunfal (10,4 MB)
Quando Era Jovem (628 KB)

Ah, um Soneto...


Ah, um Soneto...

Meu coração é um almirante louco
que abandonou a profissão do mar
e que a vai relembrando pouco a pouco
em casa a passear, a passear ...

No movimento (eu mesmo me desloco
nesta cadeira, só de o imaginar)
o mar abandonado fica em foco
nos músculos cansados de parar.

Há saudades nas pernas e nos braços.
Há saudades no cérebro por fora.
Há grandes raivas feitas de cansaços.

Álvaro de Campos

Aniversário


Aniversário

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

Álvaro de Campos

Autopsicografia


Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira a entreter a razão,
Esse comboio de corda
que se chama o coração.

Fernando Pessoa

Cruz na porta da tabacaria!


Cruz na porta da tabacaria!

Cruz na porta da tabacaria!
Quem morreu? O próprio Alves? Dou
Ao diabo o bem-estar que trazia.
Desde ontem a cidade mudou.

Quem era? Ora, era quem eu via.
Todos os dias o via. Estou
Agora sem essa monotonia.
Desde ontem a cidade mudou.

Ele era o dono da tabacaria.
Um ponto de referência de quem sou
Eu passava ali de noite e de dia.
Desde ontem a cidade mudou.

Meu coração tem pouca alegria,
E isto diz que é morte aquilo onde estou.
Horror fechado da tabacaria!
Desde ontem a cidade mudou.

Mas ao menos a ele alguém o via,
Ele era fixo, eu, o que vou,
Se morrer, não falto, e ninguém diria.
Desde ontem a cidade mudou.

Álvaro de Campos

Esta Velha Angústia


Esta Velha Angústia

Esta velha angústia,
Esta angústia que trago há séculos em mim,
Transbordou da vasilha,
Em lágrimas, em grandes imaginações,
Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror,
Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum.

Transbordou.
Mal sei como conduzir-me na vida
Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma!
Se ao menos endoidecesse deveras!
Mas não: é este estar entre,
Este quase,
Este poder ser que...,
Isto.

Um internado num manicómio é, ao menos, alguém,
Eu sou um internado num manicómio sem manicómio.
Estou doido a frio,
Estou lúcido e louco,
Estou alheio a tudo e igual a todos:
Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura
Porque não são sonhos.
Estou assim...

Pobre velha casa da minha infância perdida!
Quem te diria que eu me desacolhesse tanto!
Que é do teu menino? Está maluco.
Que é de quem dormia sossegado sob o teu teto provinciano?
Está maluco.
Quem de quem fui? Está maluco. Hoje é quem eu sou.

Se ao menos eu tivesse uma religião qualquer!
Por exemplo, por aquele manipanso
Que havia em casa, lá nessa, trazido de África.
Era feiíssimo, era grotesco,
Mas havia nele a divindade de tudo em que se crê.
Se eu pudesse crer num manipanso qualquer —
Júpiter, Jeová, a Humanidade —
Qualquer serviria,
Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo?

Estala, coração de vidro pintado!

Álvaro de Campos

Grandes são os Desertos


Grandes são os Desertos

Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto
Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo.
Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes
Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas,
Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu.

Grandes são os desertos, minha alma!
Grandes são os desertos.

Não tirei bilhete para a vida,
Errei a porta do sentimento,
Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse.
Hoje não me resta, em vésperas de viagem,
Com a mala aberta esperando a arrumação adiada,
Sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem,
Hoje não me resta (à parte o incômodo de estar assim sentado)
Senão saber isto:
Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Grande é a vida, e não vale a pena haver vida,

Arrumo melhor a mala com os olhos de pensar em arrumar
Que com arrumação das mãos factícias (e creio que digo bem)
Acendo o cigarro para adiar a viagem,
Para adiar todas as viagens.
Para adiar o universo inteiro.

Volta amanhã, realidade!
Basta por hoje, gentes!
Adia-te, presente absoluto!
Mais vale não ser que ser assim.

Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro,
E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito.

Mas tenho que arrumar mala,
Tenho por força que arrumar a mala,
A mala.

Não posso levar as camisas na hipótese e a mala na razão.
Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala.
Mas também, toda a vida, tenho ficado sentado sobre o canto das camisas empilhadas,
A ruminar, como um boi que não chegou a Ápis, destino.

Tenho que arrumar a mala de ser.
Tenho que existir a arrumar malas.
A cinza do cigarro cai sobre a camisa de cima do monte.
Olho para o lado, verifico que estou a dormir.
Sei só que tenho que arrumar a mala,
E que os desertos são grandes e tudo é deserto,
E qualquer parábola a respeito disto, mas dessa é que já me esqueci.

Ergo-me de repente todos os Césares.
Vou definitivamente arrumar a mala.
Arre, hei de arrumá-la e fechá-la;
Hei de vê-la levar de aqui,
Hei de existir independentemente dela.

Grandes são os desertos e tudo é deserto,
Salvo erro, naturalmente.
Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado!

Mais vale arrumar a mala.
Fim.

Álvaro de Campos

O Guardador de Rebanhos parte VIII


O Guardador de Rebanhos parte VIII

Num meio-dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas...
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.

Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.

Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas.
Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.

Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou –
«Se é que ele as criou, do que duvido» –
«Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres.»
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo um universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.

Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?

O Menino de Sua Mãe


O Menino de Sua Mãe

No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece
De balas trespassado
- Duas de lado a lado -
Jaz morto, e arrefece...

Raia-lhe a farda o sangue
De braços estendidos,
Alvo, louro exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! Que jovem era!
(Agora... que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
"O Menino da sua mãe".

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lha a mãe. Está inteira
E boa, a cigarreira,
Ele é que já não serve.

Doutra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
"Que volte cedo e bem!"
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto e apodrece,
O menino da sua mãe.

O Monstrengo


IV. O MOSTRENGO

mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
A roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tetos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:
«El-Rei D. João Segundo!»

«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso.
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-Rei D. João Segundo!»

Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!

ODE TRIUNFAL


ODE TRIUNFAL

À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!

Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical -
Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força -
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro,
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas
Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,
Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem,
Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,
Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,
Fazendo-me um acesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.

Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
Ser completo como uma máquina!
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!
Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,
Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento
A todos os perfumes de óleos e calores e carvões
Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!

Fraternidade com todas as dinâmicas!
Promíscua fúria de ser parte-agente
Do rodar férreo e cosmopolita
Dos comboios estrénuos,
Da faina transportadora-de-cargas dos navios,
Do giro lúbrico e lento dos guindastes,
Do tumulto disciplinado das fábricas,
E do quase-silêncio ciciante e monótono das correias de transmissão!

Horas europeias, produtoras, entaladas
Entre maquinismos e afazeres úteis!
Grandes cidades paradas nos cafés,
Nos cafés - oásis de inutilidades ruidosas
Onde se cristalizam e se precipitam
Os rumores e os gestos do Útil
E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo!
Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares!
Novos entusiasmos de estatura do Momento!
Quilhas de chapas de ferro sorrindo encostadas às docas,
Ou a seco, erguidas, nos planos-inclinados dos portos!
Actividade internacional, transatlântica, Canadian-Pacific!
Luzes e febris perdas de tempo nos bares, nos hotéis,
Nos Longchamps e nos Derbies e nos Ascots,
E Piccadillies e Avenues de L'Opéra que entram
Pela minh'alma dentro!

Hé-lá as ruas, hé-lá as praças, hé-lá-hô la foule!
Tudo o que passa, tudo o que pára às montras!
Comerciantes; vários; escrocs exageradamente bem-vestidos;
Membros evidentes de clubes aristocráticos;
Esquálidas figuras dúbias; chefes de família vagamente felizes
E paternais até na corrente de oiro que atravessa o colete
De algibeira a algibeira!
Tudo o que passa, tudo o que passa e nunca passa!
Presença demasiadamente acentuada das cocotes
Banalidade interessante (e quem sabe o quê por dentro?)
Das burguesinhas, mãe e filha geralmente,
Que andam na rua com um fim qualquer;
A graça feminil e falsa dos pederastas que passam, lentos;
E toda a gente simplesmente elegante que passeia e se mostra
E afinal tem alma lá dentro!

(Ah, como eu desejaria ser o souteneur disto tudo!)

A maravilhosa beleza das corrupções políticas,
Deliciosos escândalos financeiros e diplomáticos,
Agressões políticas nas ruas,
E de vez em quando o cometa dum regicídio
Que ilumina de Prodígio e Fanfarra os céus
Usuais e lúcidos da Civilização quotidiana!

Notícias desmentidas dos jornais,
Artigos políticos insinceramente sinceros,
Notícias passez à-la-caisse, grandes crimes -
Duas colunas deles passando para a segunda página!
O cheiro fresco a tinta de tipografia!
Os cartazes postos há pouco, molhados!
Vients-de-paraître amarelos como uma cinta branca!
Como eu vos amo a todos, a todos, a todos,
Como eu vos amo de todas as maneiras,
Com os olhos e com os ouvidos e com o olfacto
E com o tacto (o que palpar-vos representa para mim!)
E com a inteligência como uma antena que fazeis vibrar!
Ah, como todos os meus sentidos têm cio de vós!

Adubos, debulhadoras a vapor, progressos da agricultura!
Química agrícola, e o comércio quase uma ciência!
Ó mostruários dos caixeiros-viajantes,
Dos caixeiros-viajantes, cavaleiros-andantes da Indústria,
Prolongamentos humanos das fábricas e dos calmos escritórios!

Ó fazendas nas montras! Ó manequins! Ó últimos figurinos!
Ó artigos inúteis que toda a gente quer comprar!
Olá grandes armazéns com várias secções!
Olá anúncios eléctricos que vêm e estão e desaparecem!
Olá tudo com que hoje se constrói, com que hoje se é diferente de ontem!
Eh, cimento armado, beton de cimento, novos processos!
Progressos dos armamentos gloriosamente mortíferos!
Couraças, canhões, metralhadoras, submarinos, aeroplanos!
Amo-vos a todos, a tudo, como uma fera.
Amo-vos carnivoramente.
Pervertidamente e enroscando a minha vista
Em vós, ó coisas grandes, banais, úteis, inúteis,
Ó coisas todas modernas,
Ó minhas contemporâneas, forma actual e próxima
Do sistema imediato do Universo!
Nova Revelação metálica e dinâmica de Deus!

Ó fábricas, ó laboratórios, ó music-halls, ó Luna-Parks,
Ó couraçados, ó pontes, ó docas flutuantes -
Na minha mente turbulenta e encandescida
Possuo-vos como a uma mulher bela,
Completamente vos possuo como a uma mulher bela que não se ama,
Que se encontra casualmente e se acha interessantíssima.

Eh-lá-hô fachadas das grandes lojas!
Eh-lá-hô elevadores dos grandes edifícios!
Eh-lá-hô recomposições ministeriais!
Parlamentos, políticas, relatores de orçamentos,
Orçamentos falsificados!
(Um orçamento é tão natural como uma árvore
E um parlamento tão belo como uma borboleta).

Eh-lá o interesse por tudo na vida,
Porque tudo é a vida, desde os brilhantes nas montras
Até à noite ponte misteriosa entre os astros
E o mar antigo e solene, lavando as costas
E sendo misericordiosamente o mesmo
Que era quando Platão era realmente Platão
Na sua presença real e na sua carne com a alma dentro,
E falava com Aristóteles, que havia de não ser discípulo dele.

Eu podia morrer triturado por um motor
Com o sentimento de deliciosa entrega duma mulher possuída.
Atirem-me para dentro das fornalhas!
Metam-me debaixo dos comboios!
Espanquem-me a bordo de navios!
Masoquismo através de maquinismos!
Sadismo de não sei quê moderno e eu e barulho!

Up-lá hô jockey que ganhaste o Derby,
Morder entre dentes o teu cap de duas cores!

(Ser tão alto que não pudesse entrar por nenhuma porta!
Ah, olhar é em mim uma perversão sexual!)

Eh-lá, eh-lá, eh-lá, catedrais!
Deixai-me partir a cabeça de encontro às vossas esquinas.

E ser levado da rua cheio de sangue
Sem ninguém saber quem eu sou!

Ó tramways, funiculares, metropolitanos,
Roçai-vos por mim até ao espasmo!
Hilla! hilla! hilla-hô!
Dai-me gargalhadas em plena cara,
Ó automóveis apinhados de pândegos e de...,
Ó multidões quotidianas nem alegres nem tristes das ruas,
Rio multicolor anónimo e onde eu me posso banhar como quereria!
Ah, que vidas complexas, que coisas lá pelas casas de tudo isto!
Ah, saber-lhes as vidas a todos, as dificuldades de dinheiro,
As dissensões domésticas, os deboches que não se suspeitam,
Os pensamentos que cada um tem a sós consigo no seu quarto
E os gestos que faz quando ninguém pode ver!
Não saber tudo isto é ignorar tudo, ó raiva,
Ó raiva que como uma febre e um cio e uma fome
Me põe a magro o rosto e me agita às vezes as mãos
Em crispações absurdas em pleno meio das turbas
Nas ruas cheias de encontrões!

Ah, e a gente ordinária e suja, que parece sempre a mesma,
Que emprega palavrões como palavras usuais,
Cujos filhos roubam às portas das mercearias
E cujas filhas aos oito anos - e eu acho isto belo e amo-o! -
Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada.
A gentalha que anda pelos andaimes e que vai para casa
Por vielas quase irreais de estreiteza e podridão.
Maravilhosamente gente humana que vive como os cães
Que está abaixo de todos os sistemas morais,
Para quem nenhuma religião foi feita,
Nenhuma arte criada,
Nenhuma política destinada para eles!
Como eu vos amo a todos, porque sois assim,
Nem imorais de tão baixos que sois, nem bons nem maus,
Inatingíveis por todos os progressos,
Fauna maravilhosa do fundo do mar da vida!

(Na nora do quintal da minha casa
O burro anda à roda, anda à roda,
E o mistério do mundo é do tamanho disto.
Limpa o suor com o braço, trabalhador descontente.
A luz do sol abafa o silêncio das esferas
E havemos todos de morrer,
Ó pinheirais sombrios ao crepúsculo,
Pinheirais onde a minha infância era outra coisa
Do que eu sou hoje...)

Mas, ah outra vez a raiva mecânica constante!
Outra vez a obsessão movimentada dos ónibus.
E outra vez a fúria de estar indo ao mesmo tempo dentro de todos os comboios
De todas as partes do mundo,
De estar dizendo adeus de bordo de todos os navios,
Que a estas horas estão levantando ferro ou afastando-se das docas.
Ó ferro, ó aço, ó alumínio, ó chapas de ferro ondulado!
Ó cais, ó portos, ó comboios, ó guindastes, ó rebocadores!

Eh-lá grandes desastres de comboios!
Eh-lá desabamentos de galerias de minas!
Eh-lá naufrágios deliciosos dos grandes transatlânticos!
Eh-lá-hô revoluções aqui, ali, acolá,
Alterações de constituições, guerras, tratados, invasões,
Ruído, injustiças, violências, e talvez para breve o fim,
A grande invasão dos bárbaros amarelos pela Europa,
E outro Sol no novo Horizonte!

Que importa tudo isto, mas que importa tudo isto
Ao fúlgido e rubro ruído contemporâneo,
Ao ruído cruel e delicioso da civilização de hoje?
Tudo isso apaga tudo, salvo o Momento,
O Momento de tronco nu e quente como um fogueiro,
O Momento estridentemente ruidoso e mecânico,
O Momento dinâmico passagem de todas as bacantes
Do ferro e do bronze e da bebedeira dos metais.

Eia comboios, eia pontes, eia hotéis à hora do jantar,
Eia aparelhos de todas as espécies, férreos, brutos, mínimos,
Instrumentos de precisão, aparelhos de triturar, de cavar,
Engenhos brocas, máquinas rotativas!

Eia! eia! eia!
Eia electricidade, nervos doentes da Matéria!
Eia telegrafia-sem-fios, simpatia metálica do Inconsciente!
Eia túneis, eia canais, Panamá, Kiel, Suez!
Eia todo o passado dentro do presente!
Eia todo o futuro já dentro de nós! eia!
Eia! eia! eia!
Frutos de ferro e útil da árvore-fábrica cosmopolita!
Eia! eia! eia! eia-hô-ô-ô!
Nem sei que existo para dentro. Giro, rodeio, engenho-me.
Engatam-me em todos os comboios.
Içam-me em todos os cais.
Giro dentro das hélices de todos os navios.
Eia! eia-hô! eia!
Eia! sou o calor mecânico e a electricidade!

Eia! e os rails e as casas de máquinas e a Europa!
Eia e hurrah por mim-tudo e tudo, máquinas a trabalhar, eia!

Galgar com tudo por cima de tudo! Hup-lá!

Hup-lá, hup-lá, hup-lá-hô, hup-lá!
Hé-la! He-hô! H-o-o-o-o!
Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z!

Ah não ser eu toda a gente e toda a parte!

Álvaro de Campos

domingo, 8 de junho de 2008

BD - "O Sortilégio do Bosque das Brumas" de François Bourgeon

Os meus heróis de BD

"O Sortilégio do Bosque das Brumas"
de François Bourgeon


François Bourgeon nasceu em Paris em 1945.Faz os estudos clássicos, aperfeiçoa o seu desenho em diversos ateliers e faz exame de admissão à École dés Metiers d’Art de onde sai após três anos de estudos com um diploma de Mestre vidreiro.Bourgeon foi educado originalmente para ser um artista de vidro, mas as dificuldades em encontrar o emprego e uma paixão para o desenho alterou o seu curso que dirigiu para um rumo diferente.

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"A violência no século XIV"
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Nascido em 1333 e falecido por volta de 1400, Froissart tem exactamente a mesma idade de Mariotte. A descrição que ele faz da “Jacquerie” nas suas “Chroniques”, poderá ajudar a situar as acções do Cavaleiro no contexto da época.

Nota: A Jacquerie foi uma revolta camponesa que ocorreu no Norte de França, entre 28 de Maio e 24 de Junho de 1358 durante a Guerra dos Cem Anos. A designação deriva de Jacques Bonhomme, o nome com conotação paternalista dado genericamente a um camponês da região. A revolta iniciou-se de forma espontânea, reflectindo a sensação de desespero em que viviam as camadas mais pobres da sociedade, depois da Peste Negra, numa altura em que a França se encontrava num vazio de poder e à mercê das companhias livres, bandos de mercenários renegados que vagueavam pelo país.

"(…) E todos deziam: “He verdade” he verdade! Amaldiçoado seja aquelle por quem os gentis homéis da morte se escusé!” Entonces se reuniram e partiram, sem outro comselho e nenhumas armas, mais que nam fora que paos ferrados e facas pera a casa de um cavalleiro que a breve espaço dalli residia. De guisa que destruíram a morada e mataram ai cavalleiro, aa molher e filhos pequenos e grandes e cuidaram de queimar a casa. Depois foram a outro bello castelo e peor inda fezeram: pois tomaram o cavalleiro e o ataram a húa fforte estaca e violaram sua molher que estava prenha de hum filho e a filha e todallas creanças e depois o dito cavalleiro com gramdes martírios e queimaram e destroiram o castello. Assi fezeram cô muitos castellos e booas moradas. E tanto se multiplicaram que em breve eram seis mil, e por toda a parte onde hiam o seu numero crescia, pois todollos da sua laia hos seguiam. De guisa que todollos cavalleiros e escudeiros, suas molheres e filhos deante delles fugiam e levavam as damas e donzelas seus filhos pêra dez ou vinte légoas, pêra se garantirem, e deixavam suas moradas vazias e seus teres adentro; e aquella maa gente, reunida sem maioral nem armas, roubava e queimava tudo e matava e fforçava e violava todallas damas e mancebas sem doo nem merçee commo se cãaes raivosos forem. Nuúca fúria assi houvera entre Christans e Sarracenos… "
Extracto das Chroniques de Froissart

O texto que ficou escrito compõe a primeira página de "O Sortilégio do Bosque das Brumas", o primeiro volume de "Os Companheiros do Crepúsculo", de François Bourgeon.



A capa do álbum "O Sortilégio do Bosque das Brumas"


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Mariotte e Anicet
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A selvajaria da "Jacquerie"

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Anicet, em maus lençóis, e Mariotte .
Anicet e a espada do "cavaleiro"
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Na página seguinte, Bourgeon refere-se a outros dados da História da Arqueologia aludindo a "O Animal de Tollund".
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"Datam de 1937 as primeiras descobertas feitas pelo arqueólogo Karl Heinrich Rubinstein, em Tollund. É dele a seguinte descrição:
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"À primeira vista Primata ou Lemuriano de uma raça desconhecida, é impossível classificá-lo numa destas famílias. O pequeno ser mede, em pé, 52 cm, e parece colocar-se verticalmente. O corpo é desprovido de pêlos, excepto no crânio. Os quatro membros são compridos comparados com o torso e desproporcionados entre o antebraço e o braço e entre a perna e a coxa. As patas dianteiras são dotadas de mãos com quatro dedos, sendo o polegar oponível; as patas traseiras terminam por um pé semelhante ao nosso, mas muito maior, com quatro dedos. A cabeça é pequena, do tamanho de um punho fechado de uma criança de dez anos e o alto do crânio está revestido de cabelos. O focinho é curto e largo, com narinas de grande mobilidade. Apresenta dois grandes incisivos e dois caninos aguçados. De cada lado da cabeça surge uma orelha de forma ovóide..."

Novas ossadas, descobertas em 1955 no coração da Floresta Negra e em 1973 na Bretanha, levam um matemático a compará-las à narração feita anteriormente. A conclusão é irrefutável: trata-se do mesmo animal!


É ainda na Bretanha que Pierre Cauteller traz à luz do dia um conjunto de estruturas de forma semiesférica, adquirindo a convicção de não se tratar de fornos mas sim de habitações a uma escala reduzida, possuindo uma chaminé central.


Teria, então, uma espécie de animal totalmente desconhecida existido na mais alta antiguidade, sobrevivido na Europa até ao fim da Idade Média, sem deixar vestígios nos textos e na memória das gentes?!!!


Graças à consulta de numerosos documentos relativos a este fenómeno, Bourgeon consegue fazer reviver, através da gente pequena do Bosque das Brumas,aquilo que poderá ter sido a vida destes pequenos habitantes."
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Uma "mulher" de Tollund

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As "estruturas semiesféricas" com uma chamié central
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Cemitério dos "Tollund" ou uma carnificina?
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É o toque do "despontar do dia"...Estás a ouvir, Mariotte?!
Vão cortar-nos em postas!


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Maldito seja aquele cavaleiro! Maldita seja a ruiva! Malditos os jovenzitos portadores da desgraça!
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Publicada por João de Castelo Branco 7/25/2007 08:15:00 AM
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François Bourgeon - Wikipédia


Principales œuvres:


Le Cycle de Cyann


Les Compagnons du crépuscule


Les Passagers du vent


Brunelle et Colin

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quinta-feira, 5 de junho de 2008

António Aleixo - poeta popular

Retrato do poeta por TÒSSAN




Há 65 anos
O primeiro livro de António Aleixo
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Acaba de fazer sessenta e cinco anos que o primeiro livro da António Aleixo – Quando Começo a Cantar – começou a ser vendido, pelo próprio, nas ruas e estabelecimentos de Loulé.
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Era um domingo. Domingo de Páscoa – que, nesse ano de 1943, aconteceu a 25 de Abril - último dia do ano em que pode calhar.
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Para o poeta, aquele dia foi também de festa e de ressurreição. Ressurreição da esperança numa vida melhor e numa assistência cuidada para a filha que, em casa, agonizava tuberculosa.
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Assim esse livro se vendesse – como se esperava..., E muitas das suas aflições quotidianas poderiam ser ultrapassadas, pelo menos temporariamente, Embora o seu amargo realismo o levasse, depois, a desabafar:

Se o meu livro se consome,
pode-me cobrir de glória;
mas depois a minha história
dirá que morri de fome.


O livrinho, de sessenta e poucas páginas, nascera de uma ideia do dr. Joaquim Magalhães, desde logo acatada pelo autor, e era, mui justamente, dedicado à memória de José Rosa Madeira, o arqueólogo e relojoeiro de Ameixial, estabelecido em Loulé – e entretanto falecido – a quem António Aleixo ficara a dever a sua participação nos Jogos Florais promovidos pelo Ginásio Clube de Faro, em 1937, onde conhecera aquele (1) de quem diria depois:

Por me ver ao abandono,
e ouvindo a minha poesia,
disse-me que eu era dono
de coisas que não sabia.


José Rosa Madeira tinha sido também o primeiro coleccionador de quadras de António Aleixo, e fora ele quem fornecera umas folhas dactilografadas com duas ou três dezenas dessas composições, as quais vieram a constituir o núcleo primitivo do Quando Começo a Cantar.
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Este abria com um pequeno prefácio de Joaquim Magalhães, no qual, o já «secretário» do poeta conseguira encaixar a quadra:

Quem nada tem, nada come;
e ao pé de quem tem comer,
se alguém disser que tem fome,
comete um crime sem querer.


- quadra que, prudentemente, não tinha sido inserida no corpo principal; e fechava com outra que, mais tarde, daria o título à Obra Completa do nosso poeta:

ESTE LIVRO QUE VOS DEIXO
E QUE A MINHA ALMA DITOU
VOS DIRÁ COMO O ALEIXO
VIVEU, SENTIU E PENSOU.


Contando com as duas já referidas, o primeiro livro de António Aleixo era constituído por 113 (cento e treze) quadras (distribuídas três a três por cada página), quatro quintilhas, cinco sextilhas e duas composições em décimas, subordinadas a motes, sendo o primeiro do próprio Aleixo, dedicado à prisão de Manuel Domingos Louzeiro, o «quadrilheiro» de Salir, capturado, não havia muito tempo:

Já lá vai preso o ladrão
que em toda a parte apar’cia;
contam-se mais de um milhão
de roubos que ele fazia. (2)


O segundo era um mote alheio (3) – «Nunca amanhece em meu peito, / e eu ando nesta cegueira. / Acorda-me, ó meu amor, / senão sonho a vida inteira!» – que António Aleixo glosou em quatro décimas, como as demais, de estrutura tradicional, mas onde já utiliza uma linguagem e desenvolve conceitos completamente inusitados em poetas da sua estirpe.
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Quando, naquele dia 25 de Abril, o livrinho do poeta-cauteleiro começou a circular em Loulé, ainda cheirava a tinta do prelo, pois tinha «acabado de ser impresso na Tipografia União, de Faro, aos 14 de Abril de 1943.
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A edição era do Circulo Cultural do Algarve e custara 1600$00 (mil e seiscentos escudos), quantia conseguida graças ao apoio financeiro da Junta de Província, presidida pelo Dr. José do Nascimento, colega do Dr. Joaquim Magalhães, no Liceu de Faro. A tiragem foi de 1100 exemplares.
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Contava-se, certamente, com a venda de mil, destinando-se os restantes a ofertas pessoais e à Imprensa. Esta – do Algarve ao Porto, passando pelo Alentejo, Lisboa e Coimbra – não podia ter sido mais prestante do que foi, reconhecendo a qualidade da obra e o mérito do autor, em notas de simpática referência, aliás, mais do que merecidas. Julião Quintinha por exemplo, no Diário do Alentejo, asseverava que (o autor do livro) «era certamente muito mais poeta filosófico que «poeta popular» e que no «livro agora editado (…) encontro algumas das mais perfeitas quadras que tenho lido nos últimos tempos».
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O livrinho foi assim, desde a primeira hora, um êxito, tanto de crítica, como de público. Em Loulé, onde Aleixo era uma figura popular, admirado e estimado por quase toda a gente, e contava com verdadeiros amigos, as vendas ultrapassaram as expectativas. Em poucos dias, vendeu para cima de 300 exemplares.
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O preço de cada um (não impresso na capa) era de 7$50 (sete escudos e cinquenta centavos, ou seja um pouco menos que quatro cêntimos actuais). Mas raros compradores – se é que algum o fez – se limitaram a pagar essa quantia que, diga-se em abono da verdade, naquele tempo não era de pequena monta, pois dava para comprar três pães de quilo e era igual ou superior a metade de um dia de salário dum trabalhador comum.
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Dez e vinte escudos foram os valores que a maior parte dos compradores deram pelo livrinho; com 50$00, também alguns pagaram, recusando a demasia…e houve mesmo quem pagasse 100$00 por um exemplar.
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Em Faro, foi também António Aleixo quem começou a venda do seu livro, mas só no dia 2 de Maio, ou seja, no domingo seguinte, aquando da inauguração de uma exposição de pintura e desenho de artistas algarvios, no Circulo Cultural do Algarve, onde estava representado outro artista louletano, o arquitecto e caricaturista Manuel Maria Laginha. Mas aí é de registar que os livreiros da cidade – os únicos, além do autor, que se encarregaram da venda do livro – prescindiram da sua comissão, em benefício do poeta, de resto o mais necessitado.
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Um mês depois, António Aleixo não cabia em si de contente: «Até me parece que vivo noutro planeta» – declarou numa entrevista. Já tinha, entretanto, conseguido vestir os filhos; também conseguira pagar «umas dívidas de aflição – que me pesavam» - segundo disse. Sempre eram «nove bocas lá em casa» e às vezes, «o pão é necessidade que pode mais que o resto». Felizmente «tenho tido amigos que me têm valido» - acrescentou, com visível gratidão. Mas temendo já as consequências de tamanha felicidade, logo acrescentou:

Traz-me num desassossego
o alívio à minha cruz;
ando tal qual o morcego
ao deparar com a luz.


Dois meses bastaram para se esgotar a edição desse primeiro livrinho do popular poeta louletano. E dois anos se passaram até surgir a segunda obra do autor – “Intencionais” – também editada pelo Circulo Cultural do Algarve, em 1945.
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Agora, volvidos sessenta e cinco anos, é de toda a justiça recordar o dia e as circunstâncias em que António Aleixo apresentou na «sua terra» o seu primeiro livro – QUANDO COMEÇO A CANTAR – e lembrar a razão que poeta apresentou para o título que escolheu:

Quando começo a cantar,
eu bem quisera agradar;
mas nem sempre sou capaz:
só quando o coração canta,
a minha pobre garganta
faz o que nem sempre faz.


(1) Professor Joaquim Magalhães.

(2) Este tema foi depois, no princípio dos anos 70, musicado, cantado e gravado (ainda existem os discos) por dois cantores de intervenção bem conhecidos: José Manuel Osório e Adriano Correia de Oliveira.

(3) Da autoria do poeta algarvio, Victor Castela.
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in
Nº 1799 Avante - 21.Maio.2008






Outros Títulos:
Governo quer destruir o Alfeite
A Amadora precisa de indústria
Contra as áreas metropolitanas
O novo projecto de RDM
decorre da natureza da política deste Governo

Mais perto dos militantes
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Humberto Delgado - As eleições de 1958 em Angola

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Sexta-feira, 30 de Maio de 2008
Humberto Delgado - As eleições de 1958 em Angola

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João Garcia

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Há 50 anos decorria nesta altura a campanha eleitoral para a presidência da República. Esta campanha que durou menos de um mês e antecedeu as eleições do dia 8 de Junho de 1958, veio demonstrar que o regime salazarento tinha os pés de barro. Não tanto pelos resultados eleitorais (a manipulação foi total) mas pela mobilização popular que gerou e que evidenciou a incapacidade do regime para uma disputa eleitoral livre, leal e democrática.
“Salazar fez esta eleição porque não gosta que o considerem um ditador, por isso mostra à América e à Inglaterra que também tem eleições. Mas estão a ver: disparando, arrombando … três vezes entrou a polícia no meu quartel-general, roubando os meus papéis. É um escândalo! Infame. E eu ando sempre num carro descoberto, a mostrar-me! Não tenho medo de ser assassinado!” (…)
Humberto Delgado
(Daily Express, 3 de Junho 1958)
Pretendo com a abertura deste post recordar factos históricos relacionados com estas eleições e, em particular, com a sua expressão no território angolano.
De facto a candidatura do General Humberto Delgado motivou uma forte mobilização da Oposição Portuguesa em Angola tendo-se aqui registado a única vitória distrital do general em todo o espaço eleitoral.
Os textos que colocarei serão baseados, por vezes com transcrições directas (assinaladas), nos seguintes livros:
(1) - Bittencourt, Marcelo – “ Dos Jornais às Armas, Trajectórias da Contestação Angolana”;
(2) - Carvalho, Américo de – “Angola, Anos de Esperança”;
(3) - Delgado, Iva; Pacheco, Carlos; Faria, Telmo – “Humberto Delgado, as eleições de 58”;
(4) - Garcia, João Nogueira – Quitexe -61, Uma Tragédia Anunciada
(5) - Pacheco, Carlos – “MPLA, Um Nascimento Polémico”;
(6) - Pimenta, Fernando Tavares – “Os Brancos de Angola, Autonomismo e Nacionalismo”;
(7) - Rocha, Edmundo – “Génese do Nacionalismo Moderno Angolano”.
(8) – Delgado, Humberto – “A Tirania Portuguesa”
(9) – Novais, José António e Romero-Robledo, Mariano Robles – “Humberto Delgado – Assassinato de um Herói”
(10) – Vilaça, Alberto –“Tempos de Munda e do Mondego”
O regime tinha, à partida, garantidas todas as condições para uma vitória:
- A censura impedia a divulgação das acções de campanha. As fotografias dos comícios eram proibidas (depois da recepção no Porto, onde mais de 200 000 pessoas saudaram o General) e até os protestos contra a censura, eram censurados;
- Os cadernos eleitorais eram organizados pelas juntas de Freguesia (dominadas pela União Nacional) que podiam rejeitar eleitores considerados suspeitos. Os boletins de voto (diferentes para cada candidato) tinham que ser entregues aos eleitores pelos candidatos, mas não eram fornecidas as listas com os nomes e moradas dos eleitores inscritos (as listas tinham que ser copiadas à mão);
- Muitos apoiantes do general foram presos e a campanha intimidatória subiu de tom;
Mas, se todas estas falhassem (e falharam!) havia a mais eficaz: a fraude na contagem dos votos! A fiscalização era proibida e, portanto todas as chapeladas foram possíveis.
O relatório deste agente da Pide evidencia o tamanho da fraude (3):
Para os efeitos julgados por convenientes tenho a honra de informar V. Exa. que o acto eleitoral da secção de voto da freguesia de Eiras decorreu sem acidente.
Eleitores inscritos eram 638. Destes foram dados como votando a favor do Senhor Contra Almirante Américo Tomás 364 e 83 a favor do candidato da oposição General Delgado.
Na realidade a votação foi bastante diferente, pois entraram nas urnas 263 votos a favor do General e somente 101 a favor do Senhor Contra Almirante.
Baseados na nota oficiosa a mesa resolveu que, depois de terem votado, os eleitores saíssem dando assim origem a momentos que na sala só estes se encontrassem.
Com carácter oficial não apareceu qualquer indivíduo a fiscalizar as eleições nem foram pedidos quaisquer certificados das mesmas.
Coimbra, 8 de Junho de 1958
O agente
A) Geraldo
Interessante é o relatório do pide de Brasfemes, uns dias antes das eleições:
(…) Os mais católicos vão todavia com o senhor prior e, as mulheres viúvas… vão com a professora! Porém posso afirmar com convicção absoluta que a manter-se este estado de coisas, a União Nacional e o candidato situacionista sairão largamente derrotados naquela freguesia! (…)
Coimbra, 2 de Junho de 1958
O agente
Marques
Esta referência às mulheres viúvas é pertinente uma vez que só podiam votar os “chefes de família”, logo a maioria das mulheres estava excluída, só adquirindo este estatuto depois da morte dos maridos.
“Escrevi-lhe sob a impressão de mais uma grande ignomínia do regime político vigente – o roubo descarado de umas eleições feito sem comedimento nem pudor. Assim como Cristo conseguiu gerar o milagre da multiplicação dos pães, esta gentinha, que nos governa ou desgoverna, supõe-se ditada da capacidade milagreira de multiplicar os votos da sua gente. E fazem-no com artimanhas de ilusionista de meia tigela. Isto destrambelha-me os nervos.” - Carta de Cunha Leal para Neves Anacleto - 9/06/58 (3)
Regressemos a Angola
Comecemos por analisar o universo eleitoral.
Em Portugal residiam 8.100.000 indivíduos e, desses, apenas estavam recenseados 1.198.322 (14,6%), tendo votado, segundo os dados oficiais, 850.188 eleitores (11% da população total).
Ora, nas colónias, este desfasamento residentes/eleitores era muito maior.
Pelo censo de 1960 a população angolana estava avaliada em 4.830.449 pessoas assim distribuídas:
Negros - 4.604.362 - 95,3%
Brancos – 172.529 - 3.5%
Mestiços – 53.392 - 1,10%
Do grupo de negros e mestiços só os assimilados eram recenseáveis, como eleitores, na condição de saberem ler e escrever. Em 1960 foram referenciados 37.873 assimilados.
O universo eleitoral restringia-se, assim, a uma população de pouco mais de 200.000 residentes, dos quais haveria que excluir os sem idade para votar.
Em conclusão, estavam recenseados, para estas eleições, 56.298 pessoas, tendo sido o número de votantes de 32.654 (0.7% da população total).
Estas eleições eram, assim, consideradas para a maioria dos nacionalistas negros como eleições de brancos para brancos. Testemunho disso é o Manifesto Africano distribuído nos musseques de Luanda pelo Movimento de Independência de Angola (MIA):
A última campanha eleitoral mostrou-nos que somos considerados animais, porquanto existindo os nossos problemas – HUMANOS – chegaram a afirmar que o problema número um é o das estradas (na nossa terra), para permitir a continuidade de importação de brancos colonizadores!
A última campanha eleitoral mostrou-nos a existência de um malévolo acordo para não serem focados os nossos problemas, em virtude de não existir em Angola homogeneidade de raças e o mesmo nível de civilização! Não podemos esquecer tanta patifaria! (…)(3)
Mas seriam, efectivamente, oposição e regime a cara e coroa do mesmo colonialismo? Seria indiferente a eleição de Humberto Delgado, para o futuro de Angola?
Consideramos que foi, de facto, uma oportunidade perdida, e os acontecimentos dos anos seguintes vieram-no provar.
Não há dúvida que a diversidade de interesses entre aqueles que votaram Delgado era grande. Isto porque, ao lado dos anti colonialistas, estavam a burguesia branca, preocupada em obter maior liberdade económica, e os brancos pobres, lutando pela promulgação de novas leis que melhorassem os salários e, de preferência, que aumentassem os obstáculos à participação de mestiços e negros na disputa pelo mercado de trabalho.
Também é evidente que a “Proclamação” do General ao país pouco nos diz quanto a uma real mudança nas relações com as colónias. Refere-se apenas à falta de política para os vários territórios portugueses, à ausência de um plano de fomento e autonomia, baseado nas potencialidades energéticas, técnicas, demográficas e económicas sem o que, era impossível estruturar solidamente a unidade nacional dos territórios portugueses. No parágrafo 5º afirma-se: “actualizar praticamente a integridade tradicional ultramarina, cujos fundamentos são: a unidade espiritual, política e económica da comunidade da população portuguesa de aquém e além-mar, e a igualdade de direitos de todos os seus constituintes.”
Apresentavam-se, assim, em termos vagos e consensuais, do ponto de vista político-ideológico, os objectivos programáticos da sua candidatura.
No entanto, na década anterior o mundo afro-asiático tinha entrado em profunda convulsão política: a independência da Índia, a revolta anti-britânica dos Mau-Mau, no Quénia, a derrota francesa no Vietname, a guerra na Argélia, assinalaram a entrada dos povos colonizados na cena política internacional, como agentes do seu próprio destino, anunciando grandes transformações no continente africano. (6)
Apesar disso, pouco mudara na mentalidade de quem governava, mantendo-se alheios às transformações da história. Só o tom era diferente, com laivos de paternalismo. No fundo, as relações com o ultramar continuavam a basear-se em duas premissas. No plano humano, superioridade biológica do colonizador. No económico, clássica troca de matérias-primas contra produtos manufacturados. Nada de abrir mais escolas ou algumas fábricas. Falar de ensino ou de indústria nas colónias era tabu. Ameaçava o monopólio da metrópole, a única a deter a inteligência e a dispor da riqueza.
Ora a textura social havia mudado, em Angola. Primeiro descobridores, exploradores, colonizadores, os brancos acabaram mais tarde por ser filhos de colonos. Filhos e netos de colonos. Nados e criados em solo angolano. Afeiçoados à terra, a quererem que fosse ouvida a sua voz. A eles se juntavam os que, embora não sendo filhos de colonos, ali haviam crescido e trabalhado e sentiam a magia do novo país que lhes abria o futuro. “Ubi bene, ibi pátria”, onde o homem se sente bem, aí a sua pátria.(2)
A consciência das transformações políticas internacionais conduziu as elites brancas angolanas (e mesmo uma parte das elites nativas moderadas) a pressionar Lisboa para descentralizar o poder e a administração, sob a forma de uma autonomia efectiva para Angola. Neste sentido, os colonos procuraram favorecer uma mudança de regime, em Portugal, pelo apoio vigoroso à candidatura do General Humberto Delgado. As eleições presidenciais foram, portanto, um momento de forte debate político, que teve o dom de despertar as consciências adormecidas de muitos angolanos brancos.(6)
De facto, quando em Luanda se levantaram as primeiras vozes a falar de negociações sobre o futuro de Angola, muitos brancos as apoiaram. Queriam construir um país, não como dominadores, apoiando-se na força para perpetuar privilégios, mas como iguais aos outros homens, partilhando os mesmos direitos.
A atitude era legítima e exprimiram-na sem reservas nem ambiguidades. Mas o poder nem sequer se deu ao trabalho de analisar a ideia e as suas promessas. A resposta foi a repressão imediata, brutal, com prisões em massa. As esquadras ficaram cheias, e também a casa de reclusão e o comando da polícia. Era a primeira vaga do “processo dos cinquenta”, em 59 e outras se lhe seguiram. O poder, na sua cegueira, só conhecia a violência como modo de governar. Estava dentro da sua lógica. Ele, que na Europa negava aos portugueses o direito de se exprimirem, poderia porventura consentir esse direito aos cidadãos de segunda classe que eram os brancos de Angola? E àqueles que ainda designava por “indígenas” ou, no melhor dos casos, por “assimilados”?
Fácil ser profeta do tempo já passado. A realidade, porém, não pode ser desmentida. Foi porque sentiam a rebelião no ar que José Luciano Meireles, Julieta Granda, Calazans Duarte e tantos outros, lançaram aviso de tormenta. Era preciso chegar a entendimento quanto antes com as forças nacionalistas nascentes. Só assim se podia evitar a tragédia que a todos iria atingir e ferir a alma ao longo dos anos.
O poder, esse, orgulhoso na sua miopia, hermético à esperança, intratável na insolência, esmerou-se em contorções de propaganda, a escamotear os factos. Imóvel num mundo em que não cessa de se transformar, recusava as novas dimensões da realidade. “Angola é Portugal!”. Punha os pretinhos da sanzala a dançar o vira do Minho com trajes de Viana do Castelo. Ao mesmo tempo, fazia seguir para África as primeiras tropas para uma guerra inútil, perdida antes de começar.(2)
Resultados apurados nos Distritos de Angola
DISTRITO AMÉRICO TOMÁS HUMBERTO DELGADO
Cabinda 477 109
Congo 2 189 100
Cuanza-Norte 1 602 321
Luanda 3 066 2 998
Malange 1 379 428
Lunda 992 1
Cuanza-Sul 2 469 583
Moxico 598 163
Bié 2 168 304
Huambo 3 532 1 040
Benguela 1296 2 599
Huíla 1 738 1 049
Moçâmedes 790 665
Total 22 294 10 360
Analisando estes resultados constata-se a forte adesão à oposição nos centros urbanos do litoral – Benguela/Lobito, Moçâmedes, Luanda, Huíla. Em Benguela o candidato da oposição duplicou os votos do candidato do regime e em Luanda ficou a uns escassos 68 votos da vitória. Denota-se, também, a importância da fiscalização do acto eleitoral, onde esta foi possível. Por exemplo, em Luanda votaram 40% dos inscritos enquanto em anteriores eleições não fiscalizadas os números oficialmente apresentados eram de 80 e 99% de votantes.
No interior a fiscalização era escassa, dando azo a resultados inconcebíveis, como na Lunda (992 – 1) !
Resultados apurados no distrito de Benguela
AMÉRICO TOMÁS HUMBERTO DELGADO
Benguela----------------------- 485------------------------- 1234
Lobito -------------------------- 408---------------------------986
Concelho da Ganda----------244--------------------------- 294
Concelho do Balombo-------159--------------------------- -85
TOTAL ----------------------1 296-------------------------2 599
Benguela, por natureza e características muito particulares, sempre assumiu uma posição de rebeldia e contestação. Não poucas vezes se opôs ao poder de Luanda, assim como ao poder central da Metrópole. Em 1822-23 recusou prestar contas a Luanda sobre assuntos considerados da sua jurisdição, exigindo que lhe fosse garantida maior autonomia. À revelia da capital, elegeu os seus próprios deputados às Cortes Constituintes. Já em 1940, e apesar da sua desistência, votaria esmagadoramente no candidato da oposição, o General Norton de Matos. Não admira, portanto que esta cidade tenha sido o bastião da oposição.
Paulo Jorge relata o cenário ocorrido em 1958: - A oposição conseguiu introduzir dois elementos anónimos dentro da Comissão Eleitoral para observarem a votação. E quando se fez a contagem, verificou-se que cerca de 98% dos votos eram favoráveis ao General Humberto Delgado”.
“Gastão Vinagre, director do jornal “O Intransigente”, ao ser informado dos resultados, decidiu publicá-los na primeira página do jornal. O então governador de Benguela mandou chamar o director do jornal para que informasse quem lhe fornecera tais resultados e para que o jornal publicasse que aquela percentagem de votos era do Almirante Américo Tomás”.
Vinagre não revela as suas fontes e publica, na primeira página do seu jornal:
Por determinação de Sua Excelência o senhor governador de Benguela, os 98% dos votos favoráveis ao General Humberto Delgado, passam a ser do Almirante Américo Tomás.
O que lhe custa a prisão e suspensão do jornal, ordenadas pelo governador, o qual não contou com a reacção da população, saída à rua para exigir a anulação da sua determinação, não lhe restando outra alternativa”.
Curiosa é a descrição do acto eleitoral no Quitexe, feita por João Nogueira, no seu livro Quitexe-61, Uma Tragédia Anunciada:
Corre o ano de 1958 e há eleições para a Presidência da República. Três concorrentes: Almirante Américo Tomaz, Dr. Arlindo Vicente e General Humberto Delgado. O Dr. Arlindo Vicente desiste a favor do General que congrega o apoio de toda a oposição ao regime.
Eu e os meus irmãos, descendentes de republicanos e democratas bem cedo abraçamos os ideais da liberdade e democracia. No entanto, o espaço de manobra para divulgar estes ideais era estreito e repleto de ameaças de toda a espécie. Havia que aproveitar as pequenas aberturas do regime no período eleitoral, embora a derrota já fosse anunciada pois os arautos do fascismo proclamavam publicamente não sair nem a votos nem a tiros. Mesmo assim o meu irmão Alfredo e eu, conscientes desses perigos, recebemos, em nome do General Humberto Delgado uma procuração para o representar no acto eleitoral no Posto Administrativo do Quitexe. Procuração esta subestabelecida por um advogado de Luanda, Dr. Lima.
Naquele ano de 1958 havia no Quitexe uma relação fraternal entre as pessoas brancas. Todos se davam bem e a política não era o assunto que mais as motivava; os temas de conversa eram os problemas locais como o preço do café, as estradas esburacadas, a chuva que não vem, o Chefe do Posto, o Administrador, o Governador que não aparece, etc, etc. Aliás os Portugueses já estavam habituados a não falar de política, pois só nas eleições havia uma ligeira abertura, mais para efeitos de propaganda exterior do que propriamente para os chamados oposicionistas que viviam espartilhados entre o poder do Estado e o terror da Pide.
As eleições aproximam-se e o Chefe do Posto, o Barreiros, tem conhecimento que o meu irmão Alfredo, ele mais do que eu, encabeça a oposição, e que nos preparamos para fiscalizar a mesa de voto. O Chefe do Posto entra em pânico, pois prevê que se as eleições não forem uma chapelada de 99% a sua permanência no Quitexe estará em risco. Para ele, pessoalmente, diz que tanto lhe faz que ganhe o General como o Almirante. Então, somos pressionados para desistirmos da fiscalização oficial das eleições. Ele até nem se importa que nós os dois votemos no General... Nós contestamos dizendo que entre 15 a 20 eleitores vão votar Humberto Delgado. Ele não acredita e até é feita uma aposta de uma caixa de Whisky: se nós tivéssemos mais de 10 votos ele perdia a caixa, caso contrário, pagávamos nós. Nestas terras não é de boa política dizer não ao poder administrativo, mas nós éramos amigos e ele, sobretudo, o que queria era não ser transferido para outro lugar.
Entretanto, eu já havia colocado um grande póster do General na parede da casa. O póster era encimado com as palavras – “General Humberto Delgado candidato à Presidência da República”, seguia-se a sua fotografia com a farda militar de general da Força Aérea e, logo a seguir, em letras bem grandes o slogan:
EM NOME DA PÁTRIA ME PEDIRAM, EM NOME DA PÁTRIA ACEITEI
Este cartaz manteve-se afixado para lá das eleições, até que o sol e a chuva o destruíram. Era a presença do farol da luta pela democracia bem no interior de Angola.
As eleições lá se realizaram: o Pinto Antunes, da Firma Matos Vaz era o presidente da mesa e foi acordado que só contavam os votos dos eleitores que pessoalmente se apresentassem à votação. Não foi permitida a chapelada e, em vez dos 105 votos previsíveis para o Almirante Tomás (tantos quanto os eleitores inscritos), foram escrutinados 60 votos, 40 para o Almirante e 20 para o General. As listas, por imposição do Dr. Assoreira foram queimadas para evitar que, através das impressões digitais, se pudesse vir a saber o sentido de cada votante.
Moral da história: perdemos as eleições, ganhamos a aposta e ficamos marcados pelos governantes que daí para diante só nos criaram entraves. A Pide, essa, nunca mais nos perdoou...
O Chefe do Posto Manuel da Silva Barreiros, felizmente, não foi transferido.
Da análise dos mapas dos resultados e tendo em conta os números aqui relatados, verificamos que dos 100 votos apurados oficialmente para o General Humberto Delgado em todo o Distrito do Congo, 20 foram escrutinados nesta pequena povoação!
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Humberto Delgado, o filme

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Maio 07, 2008

Humberto Delgado, o filme

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10 de Maio de 1958. Café Chave de Ouro em Lisboa. Este é o primeiro acto público do candidato à presidência da República, Humberto Delgado. O espaço está cheio de personalidades dos mais diversos quadrantes políticos. São todos contra o regime de Oliveira Salazar. Depois da apresentação feita por Vieira de Almeida, o general Humberto Delgado apresenta-se como um candidato sem compromissos. Está pronto a receber os apoios de grupos políticos e de todas as pessoas que acreditem no seu programa. Humberto Delgado sabe os riscos que corre, mas não deixa de criticar duramente Salazar e a União Nacional. Questionado pelo correspondente da France Press sobre o que faria a Salazar se fosse eleito, a resposta foi rápida:
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-"Obviamente, demito-o".
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32 anos antes, Humberto Delgado tinha participado no golpe militar do 28 de Maio de 1926, que derrubou o regime republicano. Poucos anos depois deu lugar ao Estado Novo. Na altura era um entusiasta de Salazar. Mas progressivamente foi-se afastando do presidente do Conselho de Ministros. Pouco antes da sua candidatura, exerce funções militares nos Estados Unidos, o que lhe dá uma nova visão do mundo e percebe a importância da democracia. Agora como candidato à presidência começa a ser conhecido como o General sem medo. As manifestações de apoio vêem de vários sectores e desafiam o regime. No Porto e em Lisboa os apoios aumentam o que leva a uma subida da repressão policial. Américo Thomaz anuncia a sua candidatura e os comícios de Humberto Delgado alargam-se a todo o país. A 8 de Junho têm lugar as eleições presidenciais. É a primeira vez que um candidato da oposição chega até ao fim. Perante uma votação viciada e os resultados manipulados, Humberto Delgado perde. Para continuar a acção política, cria o Movimento Nacional Independente, mas pouco pode fazer. O regime de Salazar demite-o de todos os cargos. Perante a perspectiva de ser preso, Humberto Delgado refugia-se na Embaixada do Brasil em Lisboa. A 21 de Abril de 1959 parte para o Rio de Janeiro. Nunca mais volta a Portuga (1)l. Morre assassinado pela PIDE a 13 de Fevereiro de 1965.
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A não ser clandestinamente, para participar em vários putchs militares. (VN)
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quarta-feira, 4 de junho de 2008

Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra

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* Álvaro de Campos
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Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,
Ao luar e ao sonho, na estrada deserta,
Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco
Me parece, ou me forço um pouco para que me pareça,
Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo,
Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter,
Que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir?
Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa,
Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa.
Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem conseqüência,
Sempre, sempre, sempre,
Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma,
Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida...
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Maleável aos meus movimentos subconscientes do volante,
Galga sob mim comigo o automóvel que me emprestaram.
Sorrio do símbolo, ao pensar nele, e ao virar à direita.
Em quantas coisas que me emprestaram eu sigo no mundo
Quantas coisas que me emprestaram guio como minhas!
Quanto me emprestaram, ai de mim!, eu próprio sou!
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À esquerda o casebre — sim, o casebre — à beira da estrada
À direita o campo aberto, com a lua ao longe.
O automóvel, que parecia há pouco dar-me liberdade,
É agora uma coisa onde estou fechado
Que só posso conduzir se nele estiver fechado,
Que só domino se me incluir nele, se ele me incluir a mim.
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À esquerda lá para trás o casebre modesto, mais que modesto.
A vida ali deve ser feliz, só porque não é a minha.
Se alguém me viu da janela do casebre, sonhará: Aquele é que é feliz.
Talvez à criança espreitando pelos vidros da janela do andar que está em cima
Fiquei (com o automóvel emprestado) como um sonho, uma fada real.
Talvez à rapariga que olhou, ouvindo o motor, pela janela da cozinha
No pavimento térreo,
Sou qualquer coisa do príncipe de todo o coração de rapariga,
E ela me olhará de esguelha, pelos vidros, até à curva em que me perdi.
Deixarei sonhos atrás de mim, ou é o automóvel que os deixa?
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Eu, guiador do automóvel emprestado, ou o automóvel emprestado que eu guio?
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Na estrada de Sintra ao luar, na tristeza, ante os campos e a noite,
Guiando o Chevrolet emprestado desconsoladamente,
Perco-me na estrada futura, sumo-me na distância que alcanço,
E, num desejo terrível, súbido, violento, inconcebível,
Acelero...
Mas o meu coração ficou no monte de pedras, de que me desviei ao vê-lo sem vê-lo,
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À porta do casebre,
O meu coração vazio,
O meu coração insatisfeito,
O meu coração mais humano do que eu, mais exacto que a vida.
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Na estrada de Sintra, perto da meia-noite, ao luar, ao votante,
Na estrada de Sintra, que cansaço da própria imaginação,
Na estrada de Sintra, cada vez mais perto de Sintra,
Na estrada de Sintra, cada vez menos perto de mim...
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Escrito Num Livro Abandonado em Viagem

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* Álvaro de Campos
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Venho dos lados de Beja.
Vou para o meio de Lisboa.
Não trago nada e não acharei nada.
Tenho o cansaço antecipado do que não acharei,
E a saudade que sinto não é nem no passado nem no futuro.
Deixo escrita neste livro a imagem do meu desígnio morto:
Fui, como ervas, e não me arrancaram.
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Cultura e não só no Avante - Aconteceu ...

Morreu Bartolomeu Cid
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Bartolomeu Cid dos Santos - pintor, desenhador e gravador, e autor de várias obras de arte pública de grande valor -, morreu, na passada semana, aos 77 anos de idade. Com ligações ao PCP desde há mais de 50 anos, aderiu formalmente ao Partido em 1973, confirmando deste modo «a coerência do percurso de toda uma vida dedicada à descoberta e à criação artística, à inovação, à independência e à liberdade intelectual, à causa da emancipação humana». «Com o desaparecimento de Bartolomeu Cid, a arte portuguesa perde um dos seus mais notáveis criadores, o PCP perde um dedicado e firme militante, a democracia portuguesa perde um dos seus mais combativos e intransigentes defensores», afirma o Gabinete de Imprensa do PCP.
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Combatente antifascista desde muito jovem, Bartolomeu Cid integrou a geração que, no decurso dos anos 50 do século passado, trouxe à Escola Superior de Belas Artes de Lisboa (ESBAL) o impulso da modernidade, uma intransigente defesa da liberdade de criação, e a ruptura com o serôdio academismo que então a dominava. Durante a sua vida, integrou ainda o MUD Juvenil e organizou as Exposições Gerais de Artes Plásticas, tendo ali exposto em 1951, 1953, 1955 e 1956. Em 1965 vai para Londres, onde desenvolverá a maior parte da sua actividade a partir de então, tanto como pintor e gravador como enquanto docente, sendo «Professor Emeritus» da Universidade de Londres e membro da Royal Society of Paintmakers.
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Adquire, então, uma notável projecção internacional. «A sua obra foi em mais de 150 exposições individuais, algumas das quais importantes retrospectivas, na Europa, no Brasil, nos Estados Unidos, no Extremo Oriente», recorda a nota enviada aos órgãos de comunicação social. Bartolomeu Cid participou ainda nas Bienais de artes plásticas da Festa do Avante, «sendo de assinalar o rigor do empenhamento e do conteúdo político daquelas que apresentou nas Bienais mais recentes».
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Combater o branqueamento do fascismo
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Decorreu, no passado dia 14, no Porto, com sala cheia, uma sessão da União de Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP), evocativa do que foi, há 50 anos, em pleno fascismo, a campanha eleitoral de Arlindo Vicente e Humberto Delgado, candidatos à presidência da república.
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«A 14 de Maio de 1958, as ruas do Porto transbordaram de populares (estimam-se em 200 a 250 mil) para vitoriar Humberto Delgado que na sua apresentação pública como candidato, ousara desafiar abertamente Salazar com o seu “Demito-o, obviamente», recordou a URAP, que procurou, naquela sessão, «fazer a justa evocação da figura e da intervenção importantíssima da campanha de Arlindo Vicente». Esta iniciativa contou com a presença de três intervenientes daquela época: Arnaldo Mesquita, da Comissão de Candidatura de Arlindo Vicente no Porto e um dos protagonistas do «Pacto de Cacilhas», Júlio Couto, professor e animador cultural, e José Casanova, director do Avante! e, em 1958, jovem activista da Comissão da Juventude da campanha de Arlindo Vicente.
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O enquadramento histórico, social e político dos acontecimentos dessa época, as mil e uma formas de repressão do fascismo, a resistência popular (que contou com vários episódios ao vivo relatados ainda por alguns dos presentes), o papel do PCP e da sua organização, estiveram no cerne desta sessão que, como outras iniciativas da URAP, procuram combater o branqueamento do fascismo e trazer para a experiência actual, as acções e lutas que foram já um prenúncio e um caminho para o 25 de Abril de 1974.

Governo cria «guetos» de crianças
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Miguel Tiago, deputado do PCP na Assembleia da República, acompanhado de uma comitiva do PCP, efectuou, no dia 19 de Maio, uma visita à Escola Zeca Afonso, em Alhos Vedros, para melhor conhecer a unidade de ensino especial para surdos. Esta visita foi solicitada pela mãe de uma aluna com necessidades especiais de educação que alertou o Grupo Parlamentar do PCP para a intenção do Governo de fechar a unidade. Entretanto, durante a visita, realizou-se um debate com trabalhadores, professores, alunos e alguns pais, onde se colocou em discussão assuntos relevantes sobre educação, como direitos dos trabalhadores e a alteração ao estatuto do docente.
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No debate, os pais manifestaram indignação e alguma revolta com a intenção do Governo encerrar esta unidade especial de educação, que serve os concelhos de Alcochete, Montijo, Barreiro e Moita, e deslocar os alunos para o Seixal, o que na opinião dos pais lhes vem trazer enormes inconvenientes. Uma das mães afirmou que a ser assim retiraria a filha da escola. Miguel Tiago declarou que não é esta a visão que o PCP tem da escola inclusiva, e que o Governo ao agir assim está a criar guetos de crianças, rotulando cada aluno segundo uma classificação que por si só é um elemento discriminatório.
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Taça do Mundo de Triatlo
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Com os olhos postos nos Jogos Olímpicos de Pequim, a atleta portuguesa Vanessa Fernandes ganhou, no domingo, em Madrid, a Taça do Mundo de Triatlo. A campeã do mundo e pentacampeã europeia concluiu a prova em 2:04.46 horas, superando a britânica Helen Tucker, segunda classificada, e a suíça Daniela Ryf, que completou o pódio.
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Novo romance de Modesto Navarro
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«Mulher Desaparecida a Sul» é o novo romance de Modesto Navarro. Das Edições Cosmos, este livro fala-nos de «amor e desencanto», de «fuga e de libertação». «Os anos da mudança e o sonho de viver melhor emergem deste livro. A vida de um transmontano depende do reencontro com a mulher que ama e que está sob a ameaça, num mundo familiar em que tenta sobreviver e afirmar-se», lê-se, numa nota de imprensa da editora.
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Resumo da Semana
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Nº 1800 - Avante
29.Maio.2008
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segunda-feira, 2 de junho de 2008