Discurso de Lula da Silva (excerto)

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quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

D. António Barroso, 1854-1918


Nota de 10 Angolares, 1947 

Numeração: 12Ru 000001 


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D. António Barroso, 1854-1918 



Faz parte da lista da RTP para a eleição dos Grandes Portugueses. 



Um barcelense que aproveito para homenagear, ao apresentar esta nota de Angola em raro estado de conservação. 



António José de Sousa Barroso nasceu na freguesia de Remelhe, do concelho de Barcelos, a 5 de Novembro de 1854, e faleceu no Porto, a 31 de Agosto de 1918. Bispo do Porto desde 2 de Agosto de 1899. 



«Foi um dos mais importantes missionários da história de Portugal. Com fama de santidade, neste momento decorre em Roma o processo da sua canonização. Fez o curso teológico no Colégio das Missões, em Cernache do Bonjardim, sendo ordenado em 1879. Em 1880 foi para Angola, para a Missão de S. Salvador do Congo, onde começou a sua vida de missionário. Em 1892, com apenas 37 anos, foi nomeado bispo de Himéria, em Moçambique. No início de 1898 foi nomeado bispo de Meliapor, na Índia, e em 1899, bispo do Porto. A "questão religiosa" da I República trouxe-lhe graves problemas, obrigando-o ao exílio entre 1911 e 1914, e de novo em 1917. Esteve 19 anos à frente da diocese, amou profundamente o Porto – e foi amado com igual intensidade. Tornou-se no "amigo dos pobres".» 



Os bispos portugueses em 1904, com D. António Barroso – Bispo do Porto: 

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A estátua em frente á Câmara municipal de Barcelos, erigida em 1930: 

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http://www.forum-numismatica.com/viewtopic.php?f=39&t=10758


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http://www.revistamilitar.pt/modules/articles/article.php?id=464




Centenário da República: D. António Barroso, um bispo mal-amado

Bispo do Porto enfrentou Afonso Costa num momento em que as relações entre Governo e Igreja mudaram radicalmente

D. António Barroso (1854-1918), Bispo do Porto aquando da implantação da República, em 1910, ficou na história pelas suas relações “difíceis e conturbadas” com Afonso Costa, ministro da Justiça, que apressaram a separação Igreja-Estado.

Amadeu Gomes de Araújo, um dos autores da obra «O Réu da República», com a chancela da Aletheia Editores, lembra que o prelado foi “julgado duas vezes - uma em Lisboa e outra no Porto – e expulso da diocese”.

Em entrevista à Agência ECCLESIA, o autor recorda os episódios que envolveram a Pastoral Colectiva dos Bispos (1911), proibida pelo regime, mas que acabou por ser lida nas Missas.

Responsabilizando D. António Barroso, “Afonso Costa, chama-o a Lisboa onde lhe fazem um julgamento apressado”.

“Foi apedrejado e apupado na Rua do Ouro. O diploma que o expulsa é datado do dia do julgamento e assinado por ministros que não estavam presentes”, constata Gomes de Araújo.

O bispo do Porto, D. António Barroso, acaba por ser destituído das suas funções e a diocese considerada vaga como se por falecimento se tratasse, pelo ministro da Justiça e dos Cultos.

A questão é também abordada na edição especial do semanário Agência ECCLESIA, de 5 de Outubro, pelo historiador António Matos Ferreira.~

O director-adjunto do Centro de Estudos de História Religiosa da UCP acredita que, embora Afonso Costa “quisesse por esta actuação demonstrar a sua autoridade”, este acontecimento”marcou um passo fundamental no exercício e na autonomia da autoridade episcopal”.

Os Bispos, escreve, “assumiram iniciativas decorrentes do seu múnus saindo da tutela governativa, precipitando a promulgação do Decreto de Lei sobre a Separação do Estado das Igrejas, impondo progressivamente uma resistência e, posteriormente, uma acalmação que tornaria mais patente a liberdade da Igreja Católica”.

Em 1914, um grupo de deputados manifesta-se contra a «injustiça ao bispo do Porto», podendo D. António Barroso regressar à Diocese.

António Barroso nasceu em Remelhe, Barcelos, em 5 de Novembro de 1854. Formou-se no Colégio das Missões Ultramarinas de Cernache do Bonjardim, de 1873 a 1879.

Ordenado sacerdote missionário em 20 de Setembro de 1879 , foi missionário no Congo, Angola, de 1880 a 1891. Destacou-se como Bispo Missionário em Moçambique de 1891 a 1897 e em Meliapor, na Índia, de 1897 a 1899.

Foi Bispo do Porto de 1899 a 1918, falecendo a 31 de Agosto de 1918. A sua causa de beatificação decorre no Vaticano.

Fotos   
 Agência Ecclesia | 2010-10-04 | 13:52:34 | 3056 Caracteres | Centenário da República

http://www.agencia.ecclesia.pt/cgi-bin/noticia.pl?id=81817



D. António Barroso, um Bispo mal-amado pela República

Amadeu Gomes de Araújo apresenta vida e obra de quem se insurgiu contra a injustiça praticada para com a Igreja

D. Carlos Azevedo e Amadeu Gomes de Araújo são autores da obra «O Réu da República», com a chancela da Aletheia Editores, e que apresenta a vida e obra de D. António Barroso (1854-1918).

Da obra brotam a densidade das características do seu tempo, permitindo no percurso da sua vida reunir os grandes debates de um arco de tempo significativo.

António Barroso nasceu em Remelhe, Barcelos, em 5 de Novembro de 1854. Formou-se no Colégio das Missões Ultramarinas de Cernache do Bonjardim, de 1873 a 1879.

Ordenado sacerdote missionário em 20 de Setembro de 1879, foi missionário no Congo, Angola, de 1880 a 1891. Destacou-se como Bispo Missionário em Moçambique de 1891 a 1897 e em Meliapor, na Índia, de 1897 a 1899. Foi Bispo do Porto de 1899 a 1918. Faleceu a 31 de Agosto de 1918

Agência ECCLESIA (AE) – O percurso de vida de D. António Barroso é muito abrangente, mas ficará conhecido como o «Réu da República»?  
Amadeu Gomes de Araújo (AGA) – Também foi «Réu da República». D. António Barroso é conhecido, sobretudo, como bispo do Porto e pelas relações difíceis e conturbadas com Afonso Costa. Foi julgado duas vezes - uma em Lisboa e outra no Porto – e expulso da diocese. No entanto, para mim, a fase mais criativa e de acção pastoral foi quando era missionário. Em Portugal, as missões é um assunto que não tira o sono a ninguém.

AE – Essa criatividade passou pelo desbravar caminhos...
AGA – Na sua acção como missiólogo. Foi um homem que agia e reflectia sobre a sua acção. Tentou imprimir caminhos diferentes à missionação. Na altura em que ele foi enviado para Angola, existiam problemas graves nas missões.

No mês de Agosto de 1880 foi para Angola com D. José Sebastião Neto, novo bispo da diocese de Angola e Congo. Foi com a incumbência de restaurar a antiga Missão de S. Salvador do Congo porque esta estava, totalmente, abandonada.

AE – O seu vigor e novidade pastoral relançaram essa missão?
AGA – Em moldes novos e em «competição» com os Protestantes. Trabalhou muito e bem naquela zona durante oito anos. No Padroado, as missões situavam-se todas no litoral... Depois da preparação no Colégio de Cernache do Bonjardim, os missionários iam para as terras de missão, mas ficavam na zona litoral desses países. Neste ponto, D. António Barroso foi original. Tentou por tudo para que a missionação se fizesse, não do litoral para o interior, mas no sentido inverso. Fez longas viagens e ficou conhecido como «missionário todo-o-terreno». Passou meses fora, com o intuito de criar missões.

AE – Depois desse período volta a Portugal?
AGA – Como colaborador e amigo do estadista Barros Gomes trabalhou na reorganização e redistribuição das áreas de acção de cada uma das dioceses do Padroado português, em África.

Evangelizador
AE – Por pouco tempo, visto que foi nomeado bispo no início da década de 90?

AGA – Foi ordenado bispo, com o título de bispo de Himéria, em 1891, e seguiu para Moçambique. Esteve três anos neste país, mas passou o tempo todo fora. Dormia ao relento. Chegou a passar cinco meses no mato. Como os padres de Cernache tinham medo de avançar para o interior do país, D. António Barroso foi a esses sítios e indicou os pontos nevrálgicos onde se deveriam criar missões novas. A missionação é para o povo.

Ainda no capítulo das originalidades, D. António Barroso apostou também nos irmãos leigos. Homens que ensinavam profissões aos nativos. Segundo ele, a missionação não deveria ser feita apenas por padres.

AE – A evangelização também passava pelo trabalho e pelo ensino.
AGA – Deu uma orientação nova à missionação. Deu grande importância à formação da juventude. Foi ele que criou as primeiras escolas femininas em Moçambique. Por outro lado, como o Colégio de Cernache do Bonjardim era criticado por políticos, militares e jornalistas, ele entendeu e repensou a formação dos padres daquele colégio. Aquele tipo de padre não interessava para as missões. Para D. António Barroso, o Colégio das Missões Ultramarinas (Cernache do Bonjardim) estava ultrapassado.

Sentiu a necessidade de criar um estilo de padre diferente. Um padre que esteja preparado para o povo. Não se podem preparar padres que não conheçam o mundo onde vão trabalhar. Pensou na criação de seminários em África. Lutou muito para ter um seminário lá, mas não conseguiu...

AE – Há razões específicas?
AGA – O nível de escolaridade e de cristianização era zero ou quase zero. Não havia candidatos. Perante estes factos, pensou em reorganizar o Colégio das Missões Ultramarinas, de Cernache. Ele é que projectou e sonhou aquilo que, actualmente, é a Sociedade dos Missionários da Boa Nova. Os Missionários da Boa Nova são os herdeiros do projecto missionário de Cernache do Bonjardim.

AE – D. António Barroso é o elo que liga os padres de Cernache (onde ele estudou e se formou) com a Sociedade dos Missionários da Boa Nova?
AGA – Sim. No entanto não viu nascer o projecto. Vingou somente depois de ele ter morrido. Ele morre em 1918 e a Sociedade dos Missionários da Boa Nova nasceu depois. Os padres antigos eram simples franco-atiradores. Iam para as missões, durante oito anos, e voltaram. Era o estilo de serviço obrigatório. Não havia continuidade no trabalho.

AE – Depois da sua «comissão de serviço» em Angola defendeu novas formas de missionação numa célebre conferência.
AGA – Foi na Sociedade de Geografia de Lisboa, em 1889, sobre as missões. A convite de Luciano Cordeiro, ele relatou a sua experiência em Angola e as necessidades de reformar a missionação.

Relações com o poder
AE – Tinha boas relações com os órgãos de poder? 
AGA – Chegou a ser apoiado pela rainha em algumas das suas iniciativas.

AE – A época do Regalismo...
AGA – A Igreja estava dependente do poder estatal. O facto da Igreja ter obrigações - o Padroado obrigava a Igreja a cuidar algumas missões no Oriente - que não conseguia cumprir colocou-a em situação fragilizada. A Igreja não tinha padres para enviar. Quem acaba por suprir estas necessidades é a «Propaganda Fidei».

AE – É neste contexto que D. António Barroso é nomeado para Meliapor (Índia)?
AGA – Existiam problemas e carências graves no Oriente. Ele foi o mediador desses atritos entre a Propaganda Fidei e os padres da Igreja Católica.

AE – Esse conhecimento «extra portas» (Angola, Moçambique e Índia) deu-lhe novos rasgos pastorais. A diocese do Porto esperava por ele e pelas suas lutas em defesa da Igreja...
AGA – D. António Barroso foi formado dentro de ideais, marcadamente, monárquicos, tal como o projecto de Cernache. Quando chegou de Moçambique, a primeira visita de D. António foi à rainha. Apoiou-o sempre. Ele tinha boas relações com a monarquia. Chegou a ser candidato a deputado... Quando chegou a República ele aceitou o novo regime.

Lei da Separação
AE – Tal como a Igreja em geral. 
AGA – É verdade. Só que o projecto de Afonso Costa - Ministro da Justiça e responsável pelos assuntos eclesiásticos – passava pela secularização a todo o custo. Neste processo, as escolas são transformadas em grandes centros de secularização. É proibido qualquer ensino religioso. Esta é uma das medidas que vai enfurecer D. António Barroso e a Igreja. A expulsão das Ordens Religiosas, a extinção dos feriados religiosos e extinção do ensino religioso irritam o episcopado. Este junta-se, na véspera de Natal de 1910, e preparam uma Pastoral Colectiva que é elaborada pelos bispos de Évora e por D. António Barroso.

Preparada para ser publicada no mês de Fevereiro de 1911, o regime tem conhecimento desse documento e proíbe a divulgação.

AE – Ele não atende a essa ordem.
AGA – Ele jogou. Entendia que estavam a ser defendidos os interesses superiores da Igreja. Foi dizendo a Afonso Costa que sim e que não. Há uma célebre noite onde trocam telegramas. O documento acabou por ser lido nas missas. O Ministro da Justiça, Afonso Costa, chama-o a Lisboa onde lhe fazem um julgamento apressado. Foi apedrejado e apupado na Rua do Ouro. O diploma que o expulsa é datado do dia do julgamento e assinado por ministros que não estavam presentes. Estava tudo preparado... No dia 7 de Março de 1911 é julgado, condenado, preso e expulso da sua diocese.


Exílio
AE – Foi «transferido» do Porto para Cernache do Bonjardim. 
AGA – Mandou-o desterrado para Cernache, a tal casa onde ele tinha feito a formação.
Conhecidos como cárceres e casa de mentecaptos, os seminários eram detestados pelo regime. Com o anseio de secularização, o regime cria núcleos e grupos revolucionários dentro dos seminários.

Um mês após a sua ida para Cernache, na véspera da publicação da Lei da Separação (19 de Abril de 1911), há uma grande reviravolta naquela casa. Um grupo de alunos apupa os padres: «morram, morram...». Foi uma encenação com vista a mudar o regime.
Nessa noite, D. António Barroso não dormiu no Seminário. No dia 20 de Abril é publicada a tal lei com um artigo dedicado a Cernache e ao destino a dar àquele Seminário. Naquele ambiente de revolução, ele não pode ficar no Seminário e vai para casa de um amigo médico.

AE – Mas sempre controlado...
AGA – Estava com autorização do regime, mas continuava controlado. Ficou até ao dia 10 de Junho. Nessa data foi para a sua terra natal, Remelhe, Barcelos. Ali viveu até 1914. É nesse período que acontece o «célebre episódio» (deslocou-se a Custóias para fazer um Baptismo) da ida dele ao Porto e o novo julgamento.

AE – Há registos escritos desses tempos de exílio?
AGA – Ele tinha um secretário, o Pe. Sebastião Braz, que foi o seu primeiro biógrafo. O Pe. Sebastião fala dessa época em Remelhe. Nesses três anos, foram ordenados por ele muitos padres da diocese do Porto. Secretamente – suponho que o governo fechava os olhos -, ele presidiu, numa capelinha de Remelhe, a cerca de 60 ordenações presbiterais.

AE – Comunicava com a diocese através de Cartas Pastorais?
AGA – Ele escreveu muitas Cartas Pastorais e trabalhos ligados à sua acção pastoral. Foi também um excelente tradutor. Por outro lado, D. António Barroso escreveu também sobre a agricultura. Interessou-se muito pelo mundo do trabalho e mostrou um grande apego à lavoura. Habituou-se a ver, com olhos críticos, o ritmo do ciclo agrícola. Incitou as pessoas a organizarem-se no espírito cooperativo e associativo.

O regresso
AE – Em 1914, um grupo de deputados manifesta-se contra a «injustiça ao bispo do Porto». 
AGA – Sim. A Lei fundamental da República não permitia que uma pessoa fosse expulsa por toda a vida. A situação não poderia manter-se indefinidamente... e voltou à diocese.

AE – Foi recebido em clima de festa
AGA – Fez-se uma grande festa e foi recebido de braços abertos. As fotografias mostram essa manifestação.

AE – Tem um bom espólio fotográfico de D. António Barroso?
AGA – Algumas delas são inéditas. Muitas delas devo-as ao Pe. António Trigueiros, que é descendente de um velho fidalgo que apoiou D. António Barroso. Esse fidalgo estimulou-o a estudar.

AE – Nas fotos, ele aparece com longas barbas. Há alguma razão específica?
AGA – Era o único bispo que usava barbas. Faz parte do conceito de missionário usar barbas. Quando foi nomeado para bispo do Porto pediu à Santa Sé – vi isto num jornal – autorização para usar barbas. Para ele, as barbas eram um símbolo do seu passado de missionação. A família Trigueiros tem uma caixa com um pedaço das barbas dele. Uma relíquia.

Preservar a memória
AE – Pode deduzir-se que o interesse pela figura de D. António Barroso começou muito antes da ida dele para o Porto? 
AGA – O processo de canonização de D. António Barroso entrou em 1992, mas ele já tinha fama de santo. Foi uma figura muito grande. A República tinha medo dele. Afonso Costa tinha «medo» dele e tentou, por todas as formas, abafá-lo. Em 1954, quando se comemorou o centenário do nascimento de D. António Barroso, Barcelos engalanou-se para homenagear esta figura. Foi um acontecimento impressionante.
Na parte mais nobre da cidade de Barcelos, o monumento maior é de D. António Barroso.

AE – Há mesmo a «Associação do Grupo de Amigos de D. António Barroso» que comemora as datas do nascimento e da morte deste bispo. Como surgiu a sua paixão por esta causa?
AGA – Nasci em 1947 e conheço D. António Barroso desde muito novo porque sou de Barcelos. Em 1954, fiquei impressionado porque nunca tinha visto milhares de carros que acorreram a Barcelos para as comemorações. Mais tarde entrei para o Seminário de Cernache do Bonjardim...

AE – Por influência dele?
AGA – É verdade. Eu fui para o Seminário por influência de D. António Barroso... Em Cernache existem imensas referências (azulejos e outros) a este bispo lutador. Foi um homem que defendia causas.

AE – Defendia causas sem medo...
AGA – Há uma frase dele – quando foi julgado - que é celebre: «Há duas coisas das quais sei que não irei morrer: parto e medo».

AE – Com as comemorações da Implantação da República, a figura de D. António Barroso volta à ribalta. Marcou a história pela totalidade do seu percurso ou pelo exílio que sofreu?
AGA – Nunca teria passado despercebido da história. Se não tivesse existido a República, ele teria sido cardeal, tal como foi o seu antecessor, Cardeal D. Américo. Era uma figura de prestígio... Ele é grande no Porto e Barcelos pela sua bondade. Ele tinha a imagem do homem santo.

AE – Falta o milagre para a canonização...
AGA – Ele dava tudo... Quando foi ordenado bispo, a mãe ofereceu-lhe o seu cordão de ouro. Com um alicate desfez o cordão e deu as argolas aos mais necessitados. Tinha uma bondade infinita... Não foi a perseguição que lhe deu a auréola. Tanto os pobres como os membros do clero defenderam-no sempre. Quando ele esteve em Cernache, o clero do Porto visitava-o com frequência. O clero do Porto apoiou sempre a causa de D. António Barroso.
O que falta é o milagre... Se aparecesse o milagre, tudo se alterava.

http://www.agencia.ecclesia.pt/cgi-bin/noticia.pl?id=81772

D. António Barroso
D. António José de Sousa Barroso nasceu na freguesia de Remelhe, do concelho de Barcelos, a 5 de Novembro de 1854, e faleceu no Porto, a 31 de Agosto de 1918. Seus pais representavam um casal de gente de lavoura sem grandes recursos para dar uma educação superior ao seu filho. De modo que, só aos 17 anos de idade foi matriculado no Seminário de Braga, e daqui transferido a 3 de Novembro de 1873 para o Real Colégio das Missões Ultramarinas de Cernache, onde se ordenou presbítero, em Setembro de 1879. Foi missionário cientista em Angola e em Moçambique. O seu relatório de 1894, sobre o «Padroado de Portugal em Àfrica» patenteia o valor da sua acção como bispo missionário.
***

Em 1899, será bispo do Porto. Em 1911, quando foi dada a conhecer a «Pastoral do Episcopado Português», em que se afirma desacordo com alguma Legislação do Governo, reaviva-se a luta anti-clerical. Os governadores civis proibem a leitura dessa pastoral e, por desobdiência a essa proibição, são presos dezenas de párocos. E o próprio bispo do Porto foi preso e levado, sob custódia, a Lisboa. Sempre afirmando a determinação apostólica, D. António Barroso conhecerá depois o exílio, de onde só voltará em 1914, para, afinal, voltar a ser exilado em 1917. Deixou alguns escritos, sobretudo relatórios missionários, e o livro «O Congo», tido como um trabalho da melhor literatura.
Saiba mais sobre D. António Barroso em Curiosidades  http://www.remelhe.bcl.pt/dabarroso.html
 curiosidades

  Remelhe e outras...
  D. António Barroso
- Escola EB1 de Remelhe-D. António Barroso - nasceu há 150 anos - Livro de José Adilio Barbosa Macedo  
- Postais antigos de Barcelos, incluem Remelhe- D. António Barroso na 1ª Peregrinação á Franqueira
- Lenda do Galo de Barcelos- D. António Barroso - Patrono de Escola em Angola
- Fábrica de Calçado Manbri
- Vinhos Quinta do Bosque- D. António Barroso - História Missão em S. José de Lhanguene
Câmara Municipal de Barcelos- A D. António Barroso  foi atribuído nome de rua em Barcarena

- Jornal Barcelos Popular- Associação de Protecção á Infância D. António Barroso
- DJ KIKA LEWIS
- Farmácias de Serviço-Monumento de Barcelos a D. António Barroso
- Telefones Úteis de BarcelosD. António Barroso e a cronologia histórica
- Confecções Huguitos- Homenagem a D. António Barroso(1999/08/02)
- Associação Nacional de Freguesias- D. António Barroso e o património de Cedofeita(Porto)
- D. António Barroso  possuí nome de Rua no Porto



http://www.remelhe.bcl.pt/curiosidades.htm
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Boletim D. António Barroso
Boletim D. António BarrosoAbril 2009
Boletim D. António BarrosoMarço 2009
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Boletim D. António BarrosoJulho 2008
Boletim D. António BarrosoJunho 2008
Boletim D. António BarrosoMaio 2008
Boletim D. António BarrosoAbril 2008
Boletim D. António BarrosoMarço 2008
Boletim D. António BarrosoFevereiro 2008

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D. António Barroso - nasceu há 150 anos
Um livro de José Adílio Barbosa Macedo (clique aqui para ler um pouco da introdução)
Quer comprar o livro ? Clique aqui para saber onde e como comprar.

http://www.remelhe.bcl.pt/LivroDAntonioBarroso150.htm

D. António Barroso - nasceu há 150 anos

A nossa formação antropológica dedica particular atenção à Antropologia Visual, e a fotografia acima sugere‑nos dois reparos: Grenfell está apoiado numa carabina e devidamente vestido para enfrentar os caminhos do mato. Perguntamo‑nos como o faria o padre António Barroso. Não é a nossa opinião que está em causa, mas sim os factos e as relações consequentes das preocupações sociais dos missionários para com os povos kongo da região. Iremos ao encontro da história com documentos, e neste caso, embora saibamos das posições ideológicas tanto de Heliodoro Faria Leal, como de Norton de Matos, lembremo‑nos que um era localmente o representante do governo e outro a autoridade máxima na altura em Angola. Comecemos por dar a palavra ao primeiro, acerca do trabalho missionário, em geral, e depois, em particular, acerca de António Barroso:
 
 
 
Embora, pelo que deixou escrito deixasse entender a sua inclinação para privilegiar os missionários protestantes, o que escreveu sobre o padre António Barroso deixa entender o respeito pelas atribuições do missionário, que se seguem descritas:

“Inteligente e activo o padre Barroso lançou as bases da moderna propaganda religiosa católica e se não levou de vencida os seus antagonistas protestantes sustentou, contudo, briosamente a contenda e criou um forte núcleo de adeptos, no que teve como auxiliares e seguidores os padres Sebastião José Pereira, Mathias, Gata, Albuquerque e Pequito, jazendo este último no abandonado cemitério de S. Salvador do Congo” 30
 
 
 
A última componente, por ter sido a última a chegar, os administradores de circunscrição e os sacrificados chefes de posto que viriam a substituir os capitães‑mores, note‑se que dizemos sacrificados porque Portugal e a administração colonial portuguesa nunca os recompensou devidamente, especialmente nos seus vencimentos e regalias (só facultadas a administradores de circunscrição). Algumas vezes, foi‑lhes apontada brutalidade e injustiça no cumprimento dos seus deveres, que diga‑se em abono da verdade alguns mereceram, mas a maioria sabia, isolada como estava, que impor pela força a autoridade era condição sine qua non para uma vida passada a ser odiado sem necessidade.
 
Aqui, não se abordará a colonização dirigida porque pura e simplesmente não se verificou nesta parte de Angola. Os percursos, que os europeus faziam em caravana ou isolados, eram os mesmos que os zombo percorriam há séculos. Poucos fazem ideia do que era passar o terreno dos dembos, o calor insuportável, o andar, ou melhor, o arrastar dos pés pelos areais do Libombo ao Tabi e daqui por sua vez ao Ambriz. A falta de água potável, os lamaçais, o corpo rasgado pelas espinheiras, o medo de ser mordido por uma serpente e, acima de tudo, os mosquitos que com as suas constantes picadas não deixavam as gentes em paz, tornavam‑se as mais implacáveis dificuldades. Entre os inconvenientes climáticos, havia a destacar a predominância de um tempo quente e húmido, que fazia com que a roupa estivesse permanentemente colada ao corpo, fazendo dos viajantes presas fáceis dos agentes infecciosos, como os insectos vectores, os protozoários, os fungos, os vírus e bactérias. Alguns são cosmopolitas, como os da lepra, tuberculose, febre tifóide e desinteria amebiana, outros eram de origem exclusivamente africana como os da bilharziose, das tripanosomíases e da febre‑amarela. Sem dúvida, que esses europeus ‘compradores de ilusões’ se encontravam em terrenos da maior concentração de doenças malignas existentes nas terras africanas. Não admira que muitos desses viajantes morressem logo após os primeiros meses da chegada.
 
Os brancos que nos primórdios do século XX avançaram sobre o norte de Angola e mais especificamente os que ocuparam a savana zombo e que precederam os militares ou os seguiram, foram os comerciantes do mato que substituíram os funantes e formaram uma das componentes a que nos referimos nesta secção da dissertação.

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quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Seis homens viajaram até Marte, ou como nunca tiraram os pés da Terra



Numa viagem interplanetária, conseguirão os astronautas dormir bem? E, quando estiverem acordados, manter-se-ão suficientemente activos para completar as tarefas exigentes? Publicados resultados da primeira simulação uma viagem completa a Marte.

Os participantes da experiência antes de ficarem confinados durante 17 meses OLEG VOLOSHIN/ESA/IBMP
Terra, ano 2030. A acenar, seis astronautas despedem-se de todos nós enquanto se dirigem para o foguetão que os vai pôr no espaço, numa histórica viagem interplanetária de quase um ano e meio. Marte é o destino e até lá, no acanhado habitáculo da nave espacial, a tripulação tem de resistir a muitas coisas, desde a degradação dos músculos e ossos devido à quase ausência de gravidade até às alterações no padrão de sono e vigília e aos conflitos que inevitavelmente surgirão entre quem está confinado num espaço pequeno durante grandes temporadas, para que a missão não fique comprometida — e a emoção do dia em que os primeiros humanos abrirão a escotilha da nave e pisarão o solo marciano possa finalmente ser vivida.
Terra, ano 2010. Para saber como se comportará uma tripulação numa missão a Marte, a 3 de Junho, quatro russos, dois europeus e um chinês embarcaram realmente na primeira simulação de uma viagem completa ao planeta vermelho, desde a ida, a permanência na sua superfície e o regresso. Mas esta nave espacial, com quatro módulos em forma de hangar ligados entre si, além de um módulo exterior de simulação do solo de Marte, manteve-se o tempo todo assente no chão do Instituto para os Problemas Biomédicos da Academia Russa das Ciências, em Moscovo. A simulação durou 17 meses, até Novembro de 2011, e uma das conclusões, publicadas ontem na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, é a importância do sono para o sucesso de uma missão interplanetária.
“O sucesso de um voo humano interplanetário, que se prevê ocorrer este século, dependerá da capacidade dos astronautas em permanecerem confinados e isolados da Terra muito mais tempo do que em missões ou simulações anteriores. Este é o primeiro estudo que indica o papel crucial dos ciclos de sono-vigília em missões espaciais longas”, refere um dos autores do artigo, David Dinges, da Universidade da Pensilvânia, nos EUA, citado num comunicado.
Até agora, só quatro pessoas passaram à volta de um ano no espaço, com o recorde de 437 dias na já inexistente estação espacial Mir detido por Valery Polyakov. Cá em baixo, a simulação mais longa de uma missão era de 240 dias, com quatro russos.
Mais sedentários
Quando os seis homens fecharam a escotilha para a simulação Mars500, passaram a comer alimentos especiais, a trabalhar e a exercitarem-se como se estivessem no espaço e cortaram quase todas as ligações ao mundo exterior. Ao longo dos 520 dias da experiência — 250 para chegar a Marte; 30 na superfície do planeta e com saídas da cápsula espacial; e 240 para voltar à Terra — tiveram de contar com a comida e os equipamentos que tinham consigo. De fora, além dos contactos com os controladores “na Terra”, só receberam electricidade, água e algum ar.
Durante a simulação, que teve a participação da Agência Espacial Europeia, os “astronautas” fizeram várias experiências para obter informações psicológicas e médicas sobre viagens longas. À equipa de David Dinges, que publicou agora alguns resultados, coube monitorizar os níveis de actividade da equipa e a quantidade e qualidade do sono, bem como os desempenhos no trabalho.
À medida que o tempo foi passando, e a luz também foi diminuindo, os cientistas notaram que os participantes se tornaram cada vez mais sedentários: passavam mais tempo a dormir e, quando estavam acordados, mexiam-se cada vez menos.
Ainda que com diferenças significativas entre os participantes, a maioria também teve problemas de sono, alterações do ciclo sono-vigília e do desempenho das tarefas devido à privação de sono. Isto ocorreu numa fase inicial e manteve-se ao longo do tempo. Para os cientistas, a medição destas vulnerabilidades pode ser útil para escolher as tripulações de futuros voos. Consideram que, para terem sucesso, as missões terão de reproduzir certos aspectos da vida na Terra, como o tempo de exposição à luz e as alturas de ingestão de comida ou de exercício físico.
O sonho de um voo tripulado a Marte foi agora reavivado com a missão em curso do robô Curiosity, que chegou a Marte em Agosto de 2012, altura em que o administrador da NASA, Charles Bolden, revelou o que lhe ia na alma — esta missão “é precursora do envio de humanos ao planeta vermelho em 2030”. Se se concretizará nessa década, e o que será feito para se tornar realidade, essa é outra história.


terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Revelada composição de pílula com 2000 anos



Cientistas italianos reconstituíram, por assim dizer, a bula de um medicamento datado do século II antes da nossa era.
Em cima, a latinha e o seu conteúdo (à direita); em baixo, um comprimido visto de frente e de lado DR

Circa 140 a.C. Um médico viaja a bordo de um barco vindo da Grécia e com destino ao porto etrusco de Populónia, Toscana. Mas o navio afunda-se a 18 quilómetros da costa - e só será descoberto em 1974, perto da praia de Pozzino.
Entre os objectos recuperados no Relitto del Pozzino (nome dado aos destroços), várias caixinhas cilíndricas em latão, 136 frasquinhos de madeira, um pequeno pilão de pedra, um vaso de bronze "com uma forma peculiar, típica de uma ferramenta médica usada para fazer sangrias",escrevem Erika Ribechini, da Universidade de Pisa, Itália, e colegas, na revista Proceedings of the National Academy of Sciences. Isto "sugere que um médico estaria a viajar no mar com o seu equipamento profissional", salientam.
Uma das latinhas revelou conter seis comprimidos redondos e cinzentos de quatro centímetros de diâmetro e um de espessura e levou os cientistas a realizarem análises químicas, mineralógicas e botânicas para determinar a composição do que parecia ser um medicamento com mais de 2000 anos. "Em arqueologia", escrevem, "é muito raro descobrir-se medicamentos antigos e conhecer-se a sua composição química." Mas, desta vez, foi possível reconstituir a bula deste medicamento "fóssil".
Composição: compostos de zinco, amido, cera de abelha, resina de pinheiro, gorduras de origem vegetal e animal, carvão, fibras de linho, pólen de oliveira e de trigo, entre outros. Substâncias activas (prováveis): os compostos de zinco e talvez o carvão.
Excipientes: azeite, resina de pinheiro (antioxidante e antibacteriano), cera de abelha, fibras de linho (reforçam os comprimidos).
Indicações: colírio contra problemas oculares. "A composição e a forma dos comprimidos de Pozzino parecem indicar que eram usados em oftalmologia", escrevem os cientistas, acrescentando que o nome latino collyrium (gotas para os olhos) vem de uma palavra grega que significa "pãezinhos redondos".

O quilograma ganhou peso e agora tem de fazer dieta no solário


 

Ao longo das décadas, o quilograma, que é referência internacional para se definir a massa, tem acumulado contaminantes e, por isso, tem aumentado de peso. Uma equipa está a tentar encontrar uma solução com raios ultravioletas e ozono.

O quilograma original que está em Paris DR

É certo que nem chegou a um grama, mas as barras de quilos que são referência internacional para todos os pesos engordaram ao longo das décadas. O fenómeno revelou-se um problema de métrica para a comunidade internacional e agora pode haver uma solução que passa por uma espécie de solário de emagrecimento, diz um artigo publicado na revista científica Metrologia.
O quilograma original, chamado Quilograma Protótipo Internacional (QPI), está guardado em Paris no Gabinete Internacional de Pesos e Medidas. Foi a partir deste peso, que data de 1875 – feito de platina e irídio –, que todos as outras cópias foram feitas. Há 40 réplicas oficiais construídas em 1884 e distribuídas pelo mundo. A partir destas cópias, foram ainda construídos mais quilogramas, um por cada país.
O problema é que, mesmo protegidas, as 40 cópias têm acumulado contaminantes na sua superfície. Isso fez aumentar o peso em dezenas de microgramas. “O que importa não é o peso desde que todos estejamos a trabalhar a partir de um padrão exactamente igual – o problema é que há diferenças mínimas entre cópias", explica um dos autores do artigo, Peter Cumpson, da Universidade de Newcastle, no Reino Unido. "O QPI e as suas 40 réplicas estão a aumentar a ritmos diferentes. E a divergir do original.”
Das sete unidades-base do Sistema Internacional, o quilograma é o único que se mede a partir de um objecto físico. Todos as outras são comparadas a partir de uma constante. Desde 1983, o metro é definido como o comprimento que a luz atravessa no vácuo durante uma fracção muito pequena do segundo: um segundo a dividir por 299.792.458. No caso do quilograma, os laboratórios no mundo também tentam chegar a uma definição deste género e que seja independente de um objecto real. Enquanto não conseguem, é preciso emagrecer o quilograma.
“A massa é uma unidade tão fundamental que até esta pequena variação é significativa. Existem materiais muito valiosos – ou lixo – no comércio internacional, em que se tem em conta cada micrograma”, explica Cumpson.
Para tentar retirar este excesso acumulado, a equipa do cientista experimentou utilizar uma mistura de raios ultravioletas e de ozono numa superfície com a mesma composição dos quilogramas. “Em Newcastle estamos a dar um banho de sol a estas superfícies. Ao expor a superfície [do metal] a uma mistura de ultravioletas e de ozono podemos remover os carbonáceos contaminantes e potencialmente trazer os protótipos dos quilogramas aos seus pesos ideais.”
 

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Jorge Silva - Almanach ~ Reino dos Pachecos (João Abel Manta)



Jorge Silva


Rigor Mortis


Jogo da Glória, Almanaque dez 1960-jan 61
Foi o herdeiro das resmas de Almanaques, Almanachs e Almanaks que fizeram as delícias de século e meio de burgueses sedentos de cultura em comprimidos. A estrutura era a mesma, sortido fino e grosso de calendário e cultura geral, coisa engendrada pelo editor Figueiredo Magalhães, o escritor Cardoso Pires e mais uma mão cheia de venenosos escribas com muitas contas a ajustar com o seu cantinho à beira-mar. Este Almanaque tinha a mão do designer Sebastião Rodrigues, tecendo a sua obra prima de portugalidade gráfica e, a páginas tantas, o cronista fatal para aqueles cinzentos anos de um regime que, se abria mão aos prazeres do gazcidla e do frigorífico, amodorrava as consciências numa amnésia de naus e armaduras, censurando zelosamente todo o papel impresso e por imprimir. João Abel Manta (Lisboa, 1928) chega aoAlmanaque em dezembro de 1960. E acabam logo ali os cartoons avulsos que eram tique sediço de outros Almanachs. E começa gloriosa cavalgada ilustrando o cadáver, já putrefacto nos anos sessenta, do Estado Novo, o malfadado Reino dos Pachecos, maquinação em código deste Almanaque. Foi a paródia aos epicenos (definição: nomes dos animais que designam indiferentemente o macho ou a fémea) inventariando as fases de vida de um típico casal com o seu cortejo de ilusões e secretas infidelidades. Foi a passerelle de uniformes urbanos de variegada fauna, os artistas reumáticos da Sociedade Nacional de Belas Artes, os intelectuais caixa de óculos que queriam salvar o mundo à mesa do café, os marialvas, toureiros e pintas de toda a pinta, que escondiam as mulheres em casa para se babarem de gozo na rua. Foram as mazelas escondidas da Lisboa capital, a precisar de novo terramoto. Foi, enfim, o retrato crudelíssimo de uma sociedade de tristes à espera de um longínquo Abril. O traço limpo e esquemático de JAM, parente rico do seu labor de arquitecto, haveria de se tornar mais nodoso e necrófilo ao longo dos sessentas e setentas, até à obra primíssima Caricaturas Portuguesas dos Anos de Salazar, o corpus-mortem mais empenhado da miséria lusa, se descontarmos o bisturi de outro médico legista um pouco mais desbocado, o famigerado José Vilhena. Caro leitor, Não lhe parece que o Reino dos Pachecos está de volta, ou mais precisamente, nunca acabou?
Rigor mortis
He inherited reams of almanaques, almanachs and almanaks that delighted for a hundred and fifty years the middle-class thirst for culture in a pill form. The structure was the same and consisted of a refined and a less refined choice of calendar events and general culture. It had been conceived by the publisher Figueiredo Magalhães, the writer Cardoso Pires and a handful of writers with venomous pens and many a score to settle with this their little homeland-by-the-sea. Behind the Almanaquewas the designer Sebastião Rodrigues, whose illustrated ‘Portugueseness’ was a work of art. At some page or other, he would bleakly chronicle the grey years under Salazar’s New State, which allowed the country to enjoy the benefits of fridges and gas at home, but also dulled people’s awareness in an amnesia brought on by Portugal’s past, its caravels and armour. The regime zealously censored and controlled all and any paper that had been or was to be printed on. João Abel Manta (Lisbon, 1928) came to Almanaque in December 1960. And this put an immediate end to the assorted cartoons that had become the stale practice in other Almanachs. But it was the start of the glorious cavalry charge of the cadaver of Salazar’s regime, already putrid by the 1960s, in the ill-starred Reino dos Pachecos [Reign of the Pachecos], the Almanaque’s coded ruse to dodge the censors. It was a spoof on epicenes (animals that lack gender distinction) and listed the phases in the life of a typical couple and the trail of illusions and secret infidelities they leave behind. It was a parade of different animals in urbane uniforms: rheumatic artists from the National Fine Arts Society, bespectacled intellectuals who wanted to save the world while sitting in cafés, aristocratic rakes, bullfighters, creatures of all shapes and sizes who kept their womenfolk at home and out of sight while they drooled with the pleasures of the streets. They represented the concealed, squalid flaws of Lisbon, a capital in need of another earthquake. It was a bitterly cruel portrait of a sad society waiting for some distant April revolution. Manta’s clean, concise style, related to his architectural work, would become more voluminous and necrophiliac throughout the 1960s and 70s. He then produced that great work of art, Caricaturas Portuguesas dos Anos de Salazar, the most unwavering ‘corpus-mortem’ of Portuguese miserableness if we leave out another coroner with a scalpel, the remarkable and slightly bolder José Vilhena. Dear Portuguese Reader, doesn’t it seem to you that the Reino dos Pachecos has returned, or rather, it never really came to an end?
Pequeno Mostruário de Uniformes da Noite «Midnight Snacks» e Literatura de Chevet, Almanaque, maio 1961: o Sedutor; o Artista Plástico e o Proletário do Alto Pina; o Último dos Roupinhos e o Chefe de Repartição
Manifesto Suave Pela Reeducação dos Adultos, Almanaque, dezembro 1960-janeiro 1961
O Comum de Dois, Almanaque, fevereiro 1961
Quem Não Quer Ser Homem Não Lhe Veste a Pele, Almanaque, dezembro 1960-janeiro 1961
Monumentos (Subterrâneos e Subaquáticos) Ignorados de Lisboa, Almanaque, março-abril 1961
Pequeno Álbum de Fantasmas Genuínos Devidamente localizados e Referenciados, Almanaque, maio 1961: William (Wildbill) Peacock e Don Juan Baltasar Valdés de Alarcon; Ernesto da Purificação Semedo e Sturmbannfueher Hermann Rudolf Von Streicher
As ilustrações foram restauradas digitalmente The illustrations were digitally restored
Fontes Sources
João Abel Manta, Obra Gráfica, catálogo, Câmara Municipal de Lisboa, 1992
João Abel Manta, Caprichos e Desastres, João Paulo Cotrim, Assírio & Alvim / El Corte Inglés / CML, Museu Bordalo Pinheiro, 2008 

http://almanaquesilva.wordpress.com/2012/10/25/a-autopsia/

sábado, 5 de janeiro de 2013

Direcção-Geral da Saúde aconselha “dez decisões alimentares para 2013”



Água, sopa ou investir nas capacidades culinárias são algumas das sugestões. DGS diz que as "decisões simples e fáceis" são preferíveis a "grandes mudanças".


Comer sopa a todas as refeições principais é um dos conselhos ADRIANO MIRANDA

Em pleno arranque do novo ano, altura em que as resoluções se multiplicam, a Direcção-Geral da Saúde decidiu publicar um documento com “dez decisões alimentares para 2013”, justificando que neste campo “é preferível pensar em decisões simples e fáceis de realizar ao longo de 2013 do que em grandes mudanças. E, se possível, que sejam promessas saborosas, fáceis de executar e económicas”.
O primeiro conselho da Direcção-Geral da Saúde (DGS) passa por “fazer da água a principal bebida do dia, já que “permite hidratação correcta sem excesso calórico, ajuda a regular a temperatura corporal, permite óptimo desempenho físico e intelectual, contribui para a adequada regulação da pressão arterial e ainda uma pele sadia”.

Em segundo lugar, a grande amiga de todas as refeições ao longo do ano deve ser a “sopa de hortícolas, que em alguns casos se pode até transformar na refeição principal com a adição de leguminosas (feijão, grão, ervilhas), carne ou peixe”. Em terceiro lugar, a DGS sugere que se “inclua leite e lacticínios nas pequenas refeições ao longo do dia”. “Apenas um copo de leite possui cerca de 28% do cálcio necessário por dia para um adulto, 24 % da Vitamina D, 22% do fósforo...ou seja, o leite é um super alimento de baixo custo e facilmente disponível de manhã ou em qualquer hora do dia”, acrescenta a DGS.

A escolha do pão integra o quatro conselho e, segundo este organismo, pode ser utilizado nas pequenas refeições ou a acompanhar o almoço ou o jantar, mas deve ser “de preferência de mistura” para ser mais rico em fibras. “Ao contrário da maioria das bolachas, croissants e outros produtos de pastelaria, o pão possui valores reduzidos ou nulos de gordura e açúcar, o que deveria fazer dele o alimento central das pequenas refeições ao longo do dia”, justifica a DGS.

Investir nas capacidades culinárias é o quinto truque referido pela DGS para cozinhar refeições “nutricionalmente equilibradas” e que sejam também saborosas e rápidas. Em sexto lugar surgem as compras de proximidade que permitem optar por alimentos frescos e por ajudar a comunidade local. “Leve sacos de casa, ajude o meio ambiente e não utilize o carro. Faça, ainda, exercício moderado nestes percursos”, diz a DGS. A fruta – uma “óptima opção, prática e económica” – deve acompanhar as pausas no trabalho e é o sétimo conselho.

Em oitavo lugar surgem sugestões como experimentar novos sabores e actividades, plantando por exemplo ervas aromáticas em casa: “Além de poupar algum dinheiro, pode proporcionar momentos de descontracção e divertimento em família. O uso destas ervas permite, ainda, reduzir o sal que adiciona na confecção dos alimentos e manter um sabor agradável. Experimente colocar hortelã na sopa de legumes”.

A actividade física, como trinta minutos de caminhada diária, compõe a nona sugestão, sendo uma solução para a “redução da pressão arterial, do colesterol e bem-estar mental”. Por fim, em décimo lugar, a DGS apela a que “desconfie de soluções milagrosas para comer de forma equilibrada ou perder peso em pouco tempo e sem esforço”, defendendo que a alimentação saudável deve ser vista como um “investimento a médio prazo”.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Governo classifica 40 edifícios e conjuntos arquitectónicos


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A Biblioteca Nacional e as gares marítimas de Alcântara e Rocha do Conde de Óbidos foram classificadas


O edifício da Biblioteca Nacional, de 1969 RUI GAUDÊNCIO

Através da secretaria de Estado da Cultura, o Governo classificou 40 edifícios e conjuntos arquitectónicos de todo o país como monumentos de interesse público, segundo portarias publicadas esta segunda-feira em Diário da República.
Da lista fazem parte, entre outros, o edifício e jardins envolventes da Biblioteca Nacional de Portugal, no Campo Grande, em Lisboa, cujas instalações remontam a 1969, a Casa da Moeda e Valores Selados, também na capital, o Quartel de Santo Ovídio, na Praça da República, construído em 1790 no Porto por decreto régio da rainha D. Maria I e que albergou, entre 1993 e 2006 o Comando e Quartel-General da Região Militar do Norte ou o Estádio 1º de Maio, em Braga.


A relação de monumentos classificados integra ainda imóveis e quintas de diversas épocas e estilos arquitetónicos e várias igrejas e capelas situadas de norte a sul do território nacional.


Incluem-se ainda na lista, em Lisboa, as gares marítimas de Alcântara e da Rocha do Conde de Óbidos, o Bairro Estrela D’Ouro, um conjunto habitacional de “carácter económico”, situado na freguesia da Graça ou o centro comercial do Restelo, projetado pelo arquiteto Raul Chorão Ramalho e construído entre 1949 e 1956, “por iniciativa camarária, destinando-se a suprir a falta de estabelecimentos comerciais”, naquela zona da cidade, lê-se no DR.


No norte do país, no distrito de Braga, foram classificados, entre outros, o Castelo de Castro (freguesia de Carrazedo, concelho de Amares) e o Santuário do Bom Despacho, na freguesia de Cervães, concelho de Vila Verde.


No centro, a Casa Arte Nova, em Pombal, Leiria e o Teatro da Trindade, em Buarcos, Figueira da Foz, uma réplica, em miniatura, do congénere lisboeta, são alguns dos edifícios que passaram a monumento de interesse público.


No sul do país destaque para a Ponte Velha de Terena, no concelho do Alandroal (Évora), construída em meados do século XVI e uma das pontes históricas do Alentejo, o Tanque Romano da Herdade do Correio-Mor (freguesia de Caia e São Pedro, concelho de Elvas, distrito de Portalegre) ou o edifício do Café Aliança, erguido na década de 1930 na baixa da cidade de Faro.