Discurso de Lula da Silva (excerto)

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sábado, 21 de abril de 2012

«A Ronda da Noite» - Rembrandt van Rijn


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Quinta-feira, 11 de Outubro de 2007

«A Ronda da Noite» - Rembrandt van Rijn

Rembrandt Harmenszoon van Rijn
Leiden, 1606 - Amesterdão, 1669
Em 1638, Maria de Médicis, ex-rainha de França exilada na República das Províncias Unidas, é recebida em Amesterdão. O capitão Frans Banning Cocq, Senhor de Purmerlandt e do Ilpendam, e o tenente Willem van Ruytenburgh, Senhor de Vlaerdingen, pretendem fazer-se retratar na companhia da sua milícia de artilheiros, os Kloveniers – os arcabuzeiros. Eis o pretexto para Rembrandt Harmenszoon van Rijn criar mais uma obra-prima entre as muitas que entretanto atestam já o seu prestígio de excelente retratista.

Nos Países Baixos do século XVII, o retrato cívico é uma tradição já com dois séculos, mas o génio do pintor, ao invés de a desvirtuar, vai conferir-lhe aquele sopro de vida que caracteriza e distingue a sua pintura. Em vez da representação tradicional do grupo em filas paralelas ou sentado à mesa do banquete anual, é em plena acção que o grupo parece ser surpreendido, como se de um instantâneo se tratasse. Daí o nome indevido de A Ronda da Noite pelo qual desde logo se torna célebre, ainda que o seu exacto título seja A Companhia do Capitão Frans Banning Cocq e do Tenente Willem van Ruytenburgh. O excesso de verniz, que manteve a tela escurecida até 1947, contribuiu para reforçar a ideia errada de uma cena nocturna.


De Nachtwacht, 1642, Rijksmuseum Amsterdam
Apesar dos cortes laterais, superior e inferior que sofreu no século XVIII, o quadro a óleo sobre tela é ainda uma obra de grandes dimensões – 363 × 437 cm. A simetria do plano de fundo, onde se situa a porta pela qual a companhia vem saindo para o exterior, é ainda sustentada pela disposição algo simétrica dos dezasseis milicianos, embora o claro-escuro impossibilite a simetria perfeita. Ela é, porém, desfeita pela presença do capitão e do tenente à direita do centro, o que confere tensão ao quadro. O olhar é levado a deslocar-se um pouco para a esquerda, na direcção em que ambos caminham. E esta sensação de movimento comunica-se às restantes figuras que são captadas em diferentes momentos de acção: preparando-se para disparar, disparando e depois de disparar. A alternância de luz e sombra intensifica ainda mais a impressão de movimento, de acção, de vida, e a atenção prende-se às figuras mais importantes – o capitão e o tenente –, graças à intensa luz descendente que os destaca.

O carácter simbólico de alguns elementos desempenha um papel decisivo na identificação da companhia dosKloveniers. A rapariga é uma espécie de mascote. Presa à cintura traz uma galinha, cujas unhas (klauwen, em Neerlandês) aludem ao nome da companhia, e na mão segura o corno das libações rituais. A pistola por trás da galinha representa o arcabuz. E o arcabuzeiro em frente da rapariga tem um capacete enfeitado de folhas de carvalho, um motivo tradicional da companhia. Um último pormenor subtil permite identificar a companhia como sendo de Amesterdão: na lapela da jaqueta do tenente vêem-se as três cruzes pertencentes às armas da cidade.

Os arcabuzeiros estão em movimento, falam uns com os outros e empunham as armas, e o capitão dá ordens ao tenente para a companhia marchar. É este dinamismo que torna A Ronda da Noite um quadro inovador e radicalmente diferente de todos os outros quadros de milícias cívicas. A mão do capitão e a arma do tenente, em primeiro plano, parecem sair da superfície da tela, graças à perícia pictórica de Rembrandt. Ambas contribuem para a cabal identificação das figuras: o gesto com a mão que dá a ordem inicial distingue o capitão, e a partazana simboliza o posto do tenente, na sequência de uma tradição medieval. O bordão que o capitão segura é também um elemento de identificação da patente, bem como as alabardas que os sargentos empunham.

As cores e as tonalidades, vibrantes e luminosas, além de distinguirem o plano anterior dos restantes, contribuem para realçar as figuras do capitão e do tenente, retratados com minúcia e apresentados com os ricos trajos que individualizam as suas patentes: o capitão, de negro e ostentando uma faixa vermelha, e o tenente, de amarelo dourado. Os planos posteriores, mais sombrios e pouco coloridos, criam um magistral efeito de contraste que, por si só, torna o quadro uma obra-prima.

Rembrandt encaminha-se para a maturidade absoluta precoce, que atinge antes de qualquer outro pintor de génio.

RIC

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