Discurso de Lula da Silva (excerto)

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quarta-feira, 25 de novembro de 2009

José Saramago entrevistado por António Júnior

JOSÉ SARAMAGO

JOSÉ SARAMAGO
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Antônio Júnior – Especial para o Blog
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De 1995 a 2002 o jornalista e escritor baiano Antônio Júnior perambulou pela Europa. Nesse período, entrevistou atores, diretores de cinema, escritores, bailarinos músicos, cantores e o diabo quatro.
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As entrevistas – publicadas em jornais e revistas brasileiros – resultaram no livro “Artepalavra”, editado aqui pela A.S. Livros.
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O Blog publica com exclusividade a entrevista com o escritor português e Prêmio Nobel de Literatura José Saramago. Ela ocorreu num café no centro de Lisboa. “De sua alta varanda é possível avistá-se o imponente Castelo de São Jorge, as colinas melancólicas, o rio Tejo e pombas gordas e barulhentas”, conta Júnior. Saramago chegou ao local na hora marcada, acompanhado da mulher, a espanhola Pilar Del Rio. Abaixo, a entrevista.
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O senhor tem uma relação difícil com Portugal, inclusive vive em outro país. Mesmo assim os portugueses insistem em colocá-lo como representante desse país.

Eu não posso e nem quero representar Portugal. Nada do que penso transmite tal idéia. Quanto a viver aqui, por que tenho que fazê-lo depois da infame proibição de O Evangelho Segundo Jesus Cristo? Fiquei indignado e triste e as circunstâncias me levaram a viver em Lanzarote. Além do mais, Jorge de Sena vivia no Brasil e depois nos Estados Unidos, Eduardo Lourenço vive na França e muitos outros escritores e poetas viveram ou vivem fora daqui. O importante é que pago os meus impostos. Nunca houve uma ruptura com o meu país. Não sou um exilado como dizem os meios de comunicação, que chegaram a me chamar do Salman Rushdie português.
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Volta sempre à sua pequena aldeia em Alentejo?
Estive lá um dia desses. Mas acredito que sou filho do tempo em que vivo e não do lugar onde nasci. Digo porque, a vila onde eu nasci já não é a mesma depois de 70 anos. Mudou completamente a paisagem. Havia extensões incríveis de oliveiras que foram arrancadas. Quando chego ali, me encontro em outro mundo, que não é o mundo da memória.
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Vive numa ilha tranqüila. Não se sente diante do mundo moderno?
Não vivo distante do mundo. Estou sempre viajando, venho a Portugal todos os meses. E escrevo novelas que provam que tenho um certo interesse e algumas idéias sobre o mundo e sobre os seres humanos .
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Acredita num mundo melhor?
Acredito que temos que fazer algo por um mundo mais justo, buscar soluções para os problemas. Efetivamente, não adianta a crença num mundo melhor se continuarmos de braços cruzados, apenas acreditando em conceitos como esperança e utopia. É preciso indignarmos-nos. Ou melhor, deveríamos refletir seriamente sobre o que está acontecendo no mundo, na economia, na ecologia, na desigualdade, na indiferença, no racismo.
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Por que o senhor evitar qualificar-se como pessimista?
Porque eu não sou pessimista, apenas observo a realidade. É só olhar o mundo e ver o que está acontecendo, ver o desespero de milhões de pessoas que vivem miseravelmente. Aparentemente existe o protótipo do mundo feliz para poucos. O mundo é um pesadelo e poderia não sê-lo, porque existem muitas formas de contornar essa situação.
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Mas a sua literatura é considerada pessimista.
Não gosto de discutir esse conceito, não leva a nada. Não existe o pessimismo puro. O que posso dizer é que não sou pessimista, apenas tenho uma visão do mundo bastante pessimista.
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Crê que a literatura pode ajudar a humanidade?
A literatura pode muito pouco. Não vamos embarcar em ilusões, no otimismo. Ajudar a humanidade? Não sei se a humanidade quer ser ajudada. Mas a missão do escritor se existe alguma, é não se calar, que deveria ser a missão de todas as consciências.
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A sua criação não é fácil. Acredita que as pessoas intelectualmente mais simples podem captá-la?
A idéia não é procurar escrever pensando que todo mundo vai compreender sua literatura. O problema não estar em levar os livros para a gente mais simples; está em que cada um de nós faça da melhor maneira possível aquilo que sabe. Seria um erro fazê-lo pior, podemos fazê-lo melhor. A criação de um autor deve estar ao alcance de todas as pessoas, para que elas procurem e possa entendê-la. O caminho é a cultura ao alcance de todos. Sei que há livros meus que muita gente não entende, e tenho que declarar, muito humildemente, que há livros que não entendo, que também não estão ao meu alcance.
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Como o senhor descreveria a novela, talvez o gênero literário que mais trabalhe?
Faço novelas porque não aprendi a escrever ensaios. Eu não tenho imaginação. A novela, como eu a vejo, mudou muito, não é mais como as magníficas novelas do passado que contavam histórias sobre a vida das pessoas. Vejo a novela não como um gênero literário, mais um espaço criativo onde devem estar o ensaio, o drama, a filosofia, a ciência. É preciso transformar a novela num depósito de sabedoria humana.
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Este é um conceito antigo.
Talvez, mas que teve a sua meta desviada. Nas minhas novelas, tenho a história que quero contar, limitada ao essencial. Logo, sem perceber, entro com uma reflexão ensaística ou filosófica, deixando o narrador ou os personagens por instantes. O autor fala sem estar previsto inicialmente.
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Esse autor que fala confunde com o narrador?
Eu não acredito no narrador, ele não existe, é uma invenção. O que estar no texto é um senhor que se autor e nada mais, muitas vezes fingindo que é o narrador.
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Camilo José Cela declarou que, ao ganhar o Nobel, precisou de muita força e saúde para não se esgotar completamente.
É verdade fiquei muito cansado. Não fazia outra coisa senão viajar. Foram muitos congressos, entrevistas, lançamentos, apresentações, doutoramentos honoris causa. O próprio Cela já havia me avisado que o ano imediato ao prêmio é perdido. Mas não me queixo.
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A cultura se move muito por modas. Quando pensamos que os brasileiros estão interessados na literatura portuguesa, como é o caso da sua obra e da de Lobo Antunes, não estaremos dando importância a algo passageiro?
As modas não são negativas. Sem moda seguiríamos como antes. É bom que surja algo diferente, mesmo efêmero. Algo sempre permanece. Inclusive falando de autores que estão na moda. Se com a moda da literatura portuguesa, que você disse que existe no Brasil e eu não creio muito, passamos a vender um pouco mais, já é bastante interessante.
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Saramago não é o verdadeiro sobrenome?
Eu fui o primeiro Saramago da família, porque o empregado do registro civil fez uma pequena confusão. Sou um Souza. Saramago é uma planta que no tempo da minha infância, e antes, as pessoas da minha aldeia, em épocas de crises, digamos, comiam saramagos. Gosto do meu sobrenome, não queria ser chamado de José de Souza.
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Por que escreve dia após dia?
Eu vivo desassossegado, escrevo para desassossegar. Não desejo abandonar-me à comodidade existencial. Mas o que procuro saber com a minha escrita, no fundo, é essa coisa tão simples e que não tem resposta: quem somos? Porém, quando esgotar o que tenho que dizer, terei a sensatez de não escrever mais.
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http://www.ailtonmedeiros.com.br/entrevistas/jose-saramago/
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.Aílton Medeiros

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